Curiosidades

Quem é o monge conhecido como ‘Bin Laden budista’

Ashin Wirathu é um polêmico monge budista de Mianmar conhecido por sua pregações de ódio contra muçulmanos; mas para o governo, ele só foi longe demais ao atacar Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991.
Quem é o monge conhecido como 'Bin Laden budista'
Quem é o monge conhecido como ‘Bin Laden budista’
Ashin Wirathu, de 51 anos, teve problemas depois de ter atacado a ativista Suu Kyi Reuters

Ele descreve mesquitas como “bases inimigas” e se refere a muçulmanos como “cães loucos”. Também acusa os adeptos do Islã de “roubar e estuprar mulheres birmanesas” e de “se reproduzirem muito rápido”.

Durante anos, as autoridades de Mianmar deram proteção e apoio ao monge budista mais polêmico do mundo, Ashin Wirathu, o que lhe permitiu seguir adiante com suas pregações extremas.

Mas depois de seu ataque à chefe de governo Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1991, as autoridades do país parecem ter concluído que o monge foi longe demais. Agora ele pode ser preso sob acusação de perturbação da ordem pública.

Mas quem é esse monge controverso, conhecido como “Bin Laden budista”?

Fumaça do que se acredita ser uma aldeia em chamas no estado de Rakhine, em Mianmar, enquanto membros da minoria muçulmana Rohingya se abrigam eentre Bangladesh e Mianmar, em Ukhia, perto da fronteira, em 4 de setembro de 2017
Centenas de milhares de muçulmanos Rohingya fugiram de Mianmar devido à violência em 2017 créditos: AFP/Getty Images

Primeiros anos

Em 2001, Wirathu chamou atenção ao liderar uma campanha para boicotar empresas que pertenciam a muçulmanos.

Ele foi preso e sentenciado a 25 anos de prisão em 2003, mas solto em 2010, após uma anistia geral. Mas o encarceramento não parece ter reduzido seu fervor ativista contra as minorias muçulmanas do país.

Em seus discursos, ele mistura parábolas budistas com fortes doses de nacionalismo.

Ele fala com calma e clareza durante as entrevistas à imprensa, mas se inflama em reuniões públicas. Suas palavras semeiam o ódio – e a islamofobia existente no país.

Wirathu também fez campanhas pela a aprovação de uma lei que proíbe homens muçulmanos de se casarem com mulheres budistas.

“Você não pode subestimar uma cobra porque ela é pequena. Os muçulmanos são assim”, disse ele, certa vez.

Wirathu costumava passar horas atualizando sua página de mídia social de seu mosteiro em Mandalay
Wirathu usou as mídias sociais, assim como ferramentas convencionais, como livros e CDs, para divulgar sua mensagem de ódio ao Islã créditos: Getty Images

Banido das redes sociais

Nos últimos anos, o monge passou a divulgar nas redes sociais a mensagem de que a cultura budista do país seria esmagada por uma crescente população muçulmana.

Eventualmente, o Facebook bloqueou sua conta em janeiro de 2018, citando suas mensagens de ódio contra a minoria muçulmana rohingya do país.

Wirathu afirmou que procuraria outras plataformas para divulgar suas ideias.

“Quando o Facebook me baniu, passei a confiar no YouTube. Mas o YouTube não é abrangente o suficiente, então vou usar o Twitter para continuar o trabalho nacionalista”, disse ele.

Ele também compartilha seus vídeos pelo VK, uma espécie de Facebook russo.

Mas não foi apenas o Facebook a bani-lo. Em abril deste ano, ele foi impedido de fazer um sermão na vizinha Tailândia, que também tem maioria budista.

Um manifestante segura uma faixa que diz 'A Face do Terror Budista' com a imagem de Wirathu durante uma manifestação em Jacarta
Wirathu é considerado o monge antimuçulmano mais influente em Mianmar, mas ele diz que está apenas protegendo sua religião e culturacréditos: Getty Images

Incompreendido

A popularidade de Wirathu reflete a difícil situação dos muçulmanos de Mianmar, onde formam apenas cerca de cinco por cento da população.

Em julho de 2013, a revista Time publicou uma foto do monge na capa com a legenda “O rosto do terror budista”.

“Estou sendo mal interpretado e atacado. Acho que há um grupo pagando à mídia para me difamar. Certamente a mídia online é controlada por muçulmanos”, disse ele à BBC em 2013.

Ele foi descrito como “Bin Laden budista” em um documentário lançado em 2015 – apelido rapidamente adotado por alguns veículos de mídia. Porém, Wirathu rejeita a comparação.

Ele diz que abomina a violência. “Eu nem gosto de responder com grosseria”, disse.

Wirathu called the UN special envoy Yanghee Lee a bitch and a whore
A enviada da ONU Yanghee Lee ganhou a ira de Wirathu depois que seu relatório disse que a violência contra a minoria Rohingya tem “as marcas do genocídio” créditos: Getty Images

Críticas à ONU

O budista de 51 anos tem um vasto histórico de controvérsias.

Em 2015, quando a Organização das Nações Unidas (ONU) enviou uma agente especial para investigar a situação da minoria muçulmana em Mianmar, Wirathu chamou a enviada, a diplomata sul-coreana Yanghee Lee, de “cadela” e “prostituta”.

Um relatório da ONU divulgado no ano passado disse que os chefes de militares de Mianmar deveriam ser investigados por genocídio no Estado de Rakhine – depois disso, o Tribunal Penal Internacional abriu uma análise preliminar do caso.

O governo de Mianmar rejeitou o relatório e o monge liderou uma ofensiva contra a ONU.

Os seguidores de Wirathu foram amplamente responsabilizados por tumultos antimuçulmanos no Estado de Rakhine, que começaram em 2012 e culminaram no êxodo de mais de 700 mil pessoas para o país vizinho Bangladesh.

Os nacionalistas do país costumam se referir aos muçulmanos rohingya como “bengalis” (como são chamados os nascidos em Bangladesh) – querendo imputar-lhes uma condição de forasteiros.

Em uma entrevista concedida ao jornal britânico The Guardian em 2017, Wirathu acusou o partido do governo, a Liga Nacional pela Democracia, de apoiar secretamente uma agenda muçulmana.

BBC NEWS

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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