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Circuncisão mal feita pode levar à morte se houver complicações

Há dias, tornou-se público o caso de um menor de 12 anos que ficou com o pénis amputado durante um ritual de circuncisão, ocorrido em Benguela. O caso do menor está na origem de uma entrevista concedida ao Jornal de Angola pelo médico gineco-obstetra Pedro de Almeida, que disse ser o caso do menor “uma situação algo comum em Angola e em África”. De acordo com o médico, as complicações de circuncisão feita na comunidade por pessoal não médico conduzem muitas vezes as pessoas operadas e afectadas pela má prática para os serviços médicos hospitalares

Circuncisão mal feita pode levar à morte se houver complicações
Circuncisão mal feita pode levar à morte se houver complicações

Em Angola, não é novidade para ninguém que a maioria das circuncisões é realizada fora da rede de saúde e, nalguns casos, por pessoas que não são profissionais do ramo. Não acha que a circuncisão só deveria ser feita nos estabelecimentos de saúde?

Em primeiro lugar importa explicar às pessoas que a circuncisão no homem é a retirada do prepúcio, ou seja, a remoção cirúrgica da pele que tapa a cabeça do pénis, que cientificamente se desig-na glande do pénis. Na região etnolinguística ambundu, onde se fala kimbundu, quem não é circuncidado recebe a designação de kiunga ou kinhunga. Em Angola, como nos demais países, a prática da circuncisão masculina é um acto cirúrgico no âmbito de uma pequena cirurgia efectuada sob anestesia local, principalmente nas especialidades de urologia ou cirurgia geral. Significa dizer que, nos estabelecimentos hospitalares, onde labutam esses especialistas de medicina, pode ser realizada a circuncisão ou postectomia.

A circuncisão é uma prática secular feita por motivos religiosos e culturais. Existe algum protocolo, criado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), para que a circuncisão seja feita apenas em estabelecimentos de saúde?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o VIH/Sida (ONUSIDA) recomendaram, em Março de 2007, pela primeira vez, a circuncisão masculina como uma importante intervenção adicional para reduzir o risco de infecção do VIH por via heterossexual. A decisão da OMS teve como ponto de partida a investigação científica com base em evidências, através de pesquisas realizadas no Quénia, Uganda e África do Sul, com uma população de quase dez mil homens entre 15 e 49 anos, que mostraram provas convincentes de que a circuncisão masculina reduz em quase 60 por cento o risco de contrair a infecção do VIH por via heterossexual. A esses países foi recomendada a possibilidade de expandir os serviços de circuncisão masculina, uma cirurgia que, na África Subsaariana, pode evitar 5,7 milhões de novos casos e três milhões de mortes em 20 anos. As recomendações da OMS destinam-se aos países-membros. Se estes países acharem que trarão benefícios à comunidade, as recomendações podem ser aplicadas de acordo com a realidade de cada um.

Que danos à saúde reprodutiva podem surgir se a circuncisão for feita em locais que não reúnam condições higiénicas e for feita por instrumentos não esterilizados?
Os benefícios da cirurgia incluem prevenção da infecção urinária e pielonefrite, diminuição nas taxas de cancro do pénis, bem como redução nas doenças sexualmente transmissíveis. No entanto, este procedimento não é isento de complicações. As taxas de complicações dependem de múltiplos factores, incluindo anormalidades anatómicas, associação com outras doenças clínicas, técnica cirúrgica utilizada e idade do paciente. O sangramento é a complicação mais comum da circuncisão ou postectomia. Durante o procedimento cirúrgico deve-se ter atenção meticulosa com a eventual hemorragia, pelo que o médico cirurgião habilitado efectua a compressão adequada na sutura da pele para prevenir esta complicação. Complicações tardias são, em geral, associadas a inclusões de pele remanescentes e remoção insuficiente de prepúcio, o que pode resultar em contracção da ferida e em cicatrização deficiente da porção distal do prepúcio, levando à sua estenose, ou seja, dificuldade em retrair-se. O anel fibrótico pode, então, resultar em fimose verdadeira, necessitando de reoperação. Complicações mais graves são raras.

A circuncisão pode ser feita à nascença?

Sim. A circuncisão pode ser feita após o nascimento da criança. Deve-se sublinhar que, para este acto cirúrgico em recém-nascidos ser bem executado e com resultados satisfatórios, o cirurgião deve ser de preferência um urologista pediátrico. Caso não exista este profissional na unidade hospitalar, o cirurgião geral ou o urologista geral pode realizar o acto médico.

A circuncisão mal feita pode diminuir o prazer sexual?

Com certeza que uma circuncisão mal feita pode acarretar como consequência a diminuição do desejo e prazer sexual. Depende muito do tipo de afectação que o indivíduo tiver. Se o resultado desse acto cirúrgico inadequado for uma fimose, ou seja, um aperto do prepúcio sobre a glande, essa condição dificulta o acto sexual e, por consequência, pode diminuir a libido.

Um homem pode ficar traumatizado se, eventualmente, a circuncisão a que foi submetido não tenha corrido bem? 

Na cirurgia mal feita, o trauma para o homem será não só físico como também psicológico.

Tem conhecimento da chegada aos serviços de urologia de casos de circuncisão mal feitos nas comunidades urbanas e rurais? 

As complicações de circuncisão feita na comunidade por pessoal não médico conduzem muitas vezes as pessoas operadas e afectadas pela má prática para os serviços médicos hospi-talares. É uma situação algo comum em Angola e em África. Por exemplo, na África do Sul, muitos jovens e adolescentes têm morrido ou sido internados na decorrência das complicações da circuncisão que é praticada nos rituais de iniciação para a transição para a idade adulta. Entre nós, não tive acesso às estatísticas oficiais do número de casos complicados devido a postectomia ou circuncisão. Mas tenho conhecimento de que, quando se verificam esses acidentes, o pessoal médico especializado tem feito a respectiva cirurgia de reparação dos danos causados.

Procedimento ajuda a prevenir as infecções de transmissão sexual

Geralmente, os pais aproveitam o período de férias prolongadas para que os seus filhos sejam circuncidados. Qual é a melhor idade e altura do ano para a realização desse procedimento cirúrgico?

A circuncisão pode ser feita em qualquer idade. Ela pode ser feita de urgência, como nos casos de fimose, ou realizada de modo electivo, ou seja, com programação atempada, dependendo da disponibilidade dos pacientes e dos serviços onde eles pretendem realizar o acto cirúrgico.

Do ponto de vista médico, há um motivo para a prática da circuncisão?

Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 30 por cento dos homens no mundo, aproximadamente 700 mi-lhões, são circuncidados. A maioria das postectomias é realizada por motivos religiosos, uma vez que 68 por cento deles são muçulmanos e também judeus. Mas, em muitos países, a prática continua a ser criticada. Existem, no entanto, razões médicas em que a circuncisão pode ser indicada. Assim sendo, podemos referir situações como os casos em que o anel do prepúcio é demasiado estreito (fimose), inflamação recorrente (balanite) ou refluxo vesico-ureteral (a urina em vez de descer para a uretra sobe em direcção aos rins) e anomalias renais significativas.

A circuncisão ajuda a prevenir doenças de transmissão sexual?

A circuncisão ajuda a prevenir as infecções de transmissão sexual, segundo a OMS, mas o uso do preservativo continua a ser estimulado para esta finalidade.

Uma vez que disse que a circuncisão pode ser realizada em estabelecimentos de saúde, não acha importante que a rede pública de saúde faça um apelo aos pais para a necessidade de levarem os filhos apenas à rede pública de saúde para serem circuncidados?

Na minha opinião, caso os pais queiram circuncidar os seus filhos durante a infância devem recorrer ao médico pediatra assistente e, para os adolescentes e adultos, o profissional que devem procurar para o aconselhamento sobre o acto cirúrgico é o médico urologista ou, caso de indisponibilidade deste, o cirurgião geral. Essa procura dos profissionais para realizar a postectomia deve ser feita nas unidades sanitárias do Sistema Nacional de Saúde, que inclui os serviços médico-sanitários públicos, privados e mistos.

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