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Palavras da mãe de um angolano na NBA

“Sou uma mãe cheia de bênçãos. E esta bênção Deus vai continuar a derramar. Não só pelo meu filho, mas por todos aqueles que têm fé e querem chegar até onde o Bruno chegou.”

Palavras da mãe de um angolano na NBA
Palavras da mãe de um angolano na NBA

Fotografia: DR

Foi desta forma, com lágrimas nos olhos, que Natália Fernando reagiu na madrugada de sexta-feira (21 de Junho), logo que ouviu o nome do filho ser escolhido no Draft da NBA. Bruno Fernando, 20 anos, tinha acabado de cumprir o sonho de menino e de toda uma nação, ao tornar-se o primeiro angolano a chegar à Liga Norte-Americana de Basquetebol Profissional (NBA).
A família e vários amigos, muitos ligados ao Clube 1º de Agosto, reuniram-se num restaurante em Luanda, para ver em directo o Draft. E foi já de madrugada que receberam a notícia através da televisão – Bruno foi escolhido na 34ª posição do Draft de 2019 da NBA, mas apesar de ter sido eleito pelos Sixers (Filadélfia), o poste de 2,08 metros vai jogar na próxima temporada nos Atlanta Hawks, da Conferência Este, no âmbito de uma troca de jogadores.
“Está consumado. Não é só pela família, mas também pelo povo angolano. Estou muito emocionado. Não tenho palavras”, disse em lágrimas de felicidade Bernardo Fernando, pai do jogador, num vídeo colocado nas redes sociais do Clube Desportivo 1º de Agosto, onde o atleta se iniciou na prática da modalidade.
A odisseia de Bruno Fernando começou verdadeiramente há quatro anos, quando com apenas 16 deixou o 1º de Agosto e partiu para os Estados Unidos para estudar e jogar basquetebol. Algo que só foi possível através dos conhecimentos e da ajuda de Jean Jacques, antigo basquetebolista angolano, referência da modalidade em África, que brilhou no Benfica de Portugal e colabora actualmente no 1º de Agosto, clube que também representou ao longo de décadas.
Mas o caminho até aqui não foi fácil. Aos 6 anos, Bruno, que vivia na Corimba, Luanda, chegou ao 1º de Agosto. Começou pelo mini-básquete, depois passou para a equipa de iniciados e posteriormente cadetes, juvenis e juniores. “A minha ligação a ele é quase como a de uma mãe. Eu na altura era treinadora-adjunta do Joaquim Pinto, quando ele chegou ao 1º de Agosto. Aliás, eu não o trato por Bruno. Para mim, ele é e será sempre o meu bebé gigante”, conta Luísa Maria Miguel “Valódia”, ainda hoje treinadora na formação do clube angolano.

Feitio conflituoso

“Ele era uma criança bem traquina, muito mesmo. Quando pequeno, tinha um feitio explosivo, fervia em pouca água e detestava perder. Até quando os outros meninos não lhe passavam a bola ele ficava chateado e reagia mal. Acho que todos nós, os primeiros treinadores do Bruno, temos de estar orgulhosos pelo que ele alcançou. E de certa maneira julgo que contribuímos para este sucesso, pois juntamente com os pais fizemos parte de todo este processo”, prosseguiu Valódia. Lembrou as dificuldades que já na altura tinham com as botas do pequeno Bruno: “Ele aí com os seus 10 anos já calçava 40. Era um problema arranjar-lhe sapatilhas. E ainda por cima tinha os dedos grandes.”
Joaquim Pinto, o primeiro treinador de Bruno Fernando no 1º de Agosto, também destaca o feitio complicado do agora jogador da NBA.
“O Bruno começou muito cedo no mini-básquete. Era um miúdo sem recursos, com certas dificuldades. Não tinha, por exemplo, umas sapatilhas em condições e às vezes, em termos sociais, faltava-lhe alguma coisa. Nós, treinadores, sempre tentámos ajudá-lo, como, por exemplo, nos transportes. Sempre foi um menino muito inteligente, mas criava alguns problemas. Nem sempre gostava de brincar, às vezes mostrava até uma certa revolta. Não era fácil. Falava pouco, mas às vezes por pouca coisa revoltava-se. Mas nós como treinadores desenvolvemos sempre um trabalho a nível pedagógico para ajudar a ele e aos outros”, referiu Joaquim Pinto.
Para Valódia, a partir de agora, “o infinito é o lugar do Bruno”, um miúdo que, apesar do feitio difícil que revelava quando criança, “sempre foi muito dedicado ao desporto e também aos estudos. Ninguém tem noção da emoção que senti quando ele foi eleito no Draft. Acompanhei em casa, através da televisão, até de madrugada. Quando ouvi o nome dele, chorei e gritei, até assustei o meu filho de 1 ano. Enviei-lhe uma mensagem a desejar as maiores felicidades. O único conselho que lhe posso dar é que continue a ser humilde e que se entregue a Deus. E que nunca desista de perseguir os seus sonhos, porque tem tudo para ter sucesso e ser feliz. Saber que fiz parte deste processo deixa-me feliz e emocionada”, conta, recordando o primeiro dia em que Bruno chegou ao 1º de Agosto:
“Sempre foi muito inteligente. Logo no primeiro dia, se a memória não me escapa, chegou de táxi com um irmão e um tio. Mas depois passou a fazer o percurso sempre sozinho.”
Joaquim Pinto, tal como Valódia, sente que tem alguma responsabilidade neste passo gigante de Bruno Fernando, que, aos 20 anos, conseguiu chegar à liga mais forte do mundo. “A chegada à NBA deve-se sobretudo ao trabalho dele, à forma como nunca desistiu e perseguiu o seu sonho. Mas, como é óbvio, nós treinadores da formação também sentimos que é uma vitória nossa.
É uma grande emoção vê-lo na NBA. Logo à partida por ser o primeiro jogador angolano a consegui-lo. Depois é um grande feito para Angola, um feito ímpar para toda a nação angolana. Angola é a nº 1 no basquetebol em África. E alimentámos, nos últimos anos, esse sonho de um dia vermos um jogador nosso na NBA. Estava escrito, foi uma dádiva do Senhor”, diz Joaquim, que assume que “não esperava que isso acontecesse tão cedo”.
In Diário de Notícias

A importância de Jean Jacques

Jean Jacques, antigo basquetebolista do Benfica e um dos grandes nomes da modalidade em África, foi uma peça fundamental nesta ascensão meteórica de Bruno Fernando. Hoje com 55 anos e no cargo de conselheiro da direcção do 1º de Agosto, viu então no miúdo de 16 anos potencial para chegar longe. Através dos seus conhecimentos, conseguiu levá-lo para os Estados Unidos.
“Para mim, não foi nenhuma surpresa. Já sabia que ele ia ser escolhido no Draft. Desde o primeiro dia em que tratei da ida do Bruno para os Estados Unidos, e com o trabalho excelente que ele desenvolveu nos últimos anos, eu já sabia que ele ia chegar à NBA. Por isso, digo que, para mim, não foi assim tão surpresa”, assumiu ao DN.
“Pode dizer-se que fui o grande responsável pelo Bruno ter rumado aos Estados Unidos. Vi que estava ali um jogador com potencial, apesar de, na altura, existirem outros jovens que se calhar até tinham mais. Mas nos Estados Unidos ele teve um grande acompanhamento e disparou”, analisou Jean Jacques, fazendo questão de esclarecer que não é um agente de jogadores:
“Eu ajudei o Bruno, mas isto de levar jovens valores angolanos para os Estados Unidos não é o meu trabalho. Ajudei o Bruno como outros jovens que vejo que têm qualidade. Não existiu aqui interferências de empresários nem de olheiros. Eu vi que ele tinha potencial e falei com ele. Disse-lhe que se ele estivesse no lugar certo podia atingir um patamar alto. Depois falei com os pais dele sobre a hipótese de ele ir para os Estados Unidos e eles concordaram. E assim foi.”
Jean Jacques, que na altura em que estava no activo ao serviço do Limoges, de França, teve oportunidade de ingressar na NBA, mas rejeitou essa possibilidade porque ia ganhar menos do que auferia na equipa francesa, diz que Bruno Fernando não precisa de conselhos.
“O Bruno tem uma grande maturidade, já sabe o que tem de fazer. Para chegar onde chegou, longe da família e dos amigos, da terra onde nasceu, abdicou de muitas coisas. E agora lá está ele, na NBA, a melhor liga de basquetebol do mundo.”
Nos Estados Unidos, nas várias etapas por que passou, primeiro no ensino secundário, na Florida, e depois na equipa da Universidade de Maryland, Bruno amadureceu e moldou o seu feitio conflituoso da juventude. Longe vão os tempos em que, no 1º de Agosto, como nos conta o treinador Joaquim Pinto, “pontapeou uma bola com o pé num jogo com o Petro de Luanda, o que lhe custou a expulsão”. Ou as judiarias que fazia aos colegas.
“Um dia fomos jogar um torneio em Benguela e acabámos por ficar lá mais tempo do que o previsto. Às tantas, estávamos sem recursos e tivemos de ir comer à casa de um treinador de andebol que eu conhecia. O Bruno era de se alimentar e roubava os pratos de comida aos colegas. Eram pequenos conflitos próprios da idade. Mas sempre foi um menino dedicado ao desporto e aos estudos. Nunca faltou a um treino”, recorda Joaquim. “Era mesmo traquina. Tive de lhe dar alguns puxões de orelhas”, remata Valódia. Poucos dias antes do Draft, num programa da cadeia de televisão norte-americana NBC, Bruno falou das expectativas e também dos momentos complicados que passou por estar longe da família. “No final do dia, temos de aceitar a vida tal como ela é e isso é o mais importante para mim, aceitar as coisas tal como elas são. Houve alturas em que foi difícil. Até na universidade, em determinados momentos, olhava para as bancadas e via os pais dos meus colegas a apoiá-los. Eu nunca tive a sorte de ver os meus pais a assistir aos meus jogos e por isso passei por momentos complicados. Mas isso nunca afectou o meu jogo ou a minha forma de ser”, garantiu.
“Entrar na NBA é algo que não me vai beneficiar só a mim, mas também todo o meu país. Toda a gente vai ficar feliz e orgulhosa. Saber que tenho um país (Angola) nas minhas costas, um país que, tal como eu, está a sonhar com esta possibilidade, é algo que me ajudou a tornar este sonho numa realidade”, acrescentou.
Como disse Valódia, que o treinou quando miúdo no 1º de Agosto e o trata por “bebé gigante”, a partir de agora, “o infinito é o lugar do Bruno”, o primeiro angolano a chegar à NBA.

JA

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