Angola

Angola: Da falocracia ao jogo de soma-zero? – David Matsinhe & Domingos da Cruz

No dia 26 de Setembro de 2017, após o discurso de tomada de posse do actual Presidente da República de Angola, se terá instalado um rastro contínuo de hossana nas alturas, vivas e uivos inefáveis. Esta euforia incontida de bacocos, não permitiu até agora, a compreensão do processo complexo que está em marcha.

“PR  mostra-se  incómodo com uma possível revisão constitucional”

Angola: Da falocracia ao jogo de soma-zero? - David Matsinhe & Domingos da Cruz
Angola: Da falocracia ao jogo de soma-zero? – David Matsinhe & Domingos da Cruz

Está em curso uma sucessão de opções políticas sem precedente, a julgar pela sua proporção e contexto interno e internacional. Sendo certo que está em causa um fenómeno ou fenómenos simultâneos e sucessivos, torna a realidade abstruso. Esta complexidade impele-nos necessariamente a uma análise fora dos critérios simplistas.

Assim, as linhas que seguem, não analisarão a situação presente no seu todo. O foco é compreender o comportamento do Presidente à luz da concepção de duelo e a reacção dos “objectos” desempre no percurso histórico de Angola, o povo.

Ainda assim, não é suficiente encapsular os epifenómenos na estrutura epistemológica referida (concepção de duelo), com o escopo de compreender o sentido e a raiz mais profunda do que está em causa. Se estamos diante de uma empreitada abscôndita, é para aqui chamada uma opção teórico-metodológica à altura do embate: pensamento complexo hologramático (Edgar Morin), num misto com o método de análise de conjuntura na visão do sociólogo Herbert de Souza.

 

De acordo com o antropólogo e filósofo Edgar Morin, é um erro analisarmos e tentarmos compreender a realidade, seja de que natureza for, desde uma perspectiva unívoca e autoreferente.

 

A compreensão mínima da realidade que Angola está a viver nesta era, pressupõe análises ponderadas. Tal ponderação passa por olhar vários ângulos e perspectivas da realidade. Não estamos a dizer que a análise à luz do pensamento complexo e hologramático são infalíveis. Simplesmente parece ser o estofo metódico e conceptual mais adequando de compreensão da realidade na era das incertezas. Não estamos a defender a verdade total. Theodor Adorno diria que «a totalidade é a não verdade».

 

A introdução da dimensão hologramática no método pensamento complexo é uma escolha analógica. E alerta-nos para evitarmos análise total e absolutamente especializadas como caminho seguro em busca da “verdade”. Claro, verdade provisória, questionável, falível e efémera. É mister evitar a simplificação e simplismo bacoco.

Sobre o holograma como parte constitutiva do pensamento complexo, como método de compreensão e análise da realidade, a obra, Introdução ao Pensamento Complexo vai mais longe, dizendo que num holograma, o ponto mais pequeno da imagem do holograma contém a quase-totalidade da informação do objecto representado. Não apenas a parte está no todo, mas o todo está na parte. O princípio hologramático está presente no mundo sociopolítico a par doutros mundos. A ideia do holograma ultrapassa, quer o reducionismo que só vê as partes, quer o holismo que só vê o todo. É análoga a ideia formulada por Pascal: «não posso conceber o todo sem conceber as partes e não posso conceber as partes sem conceber o todo».

Se não perdermos de vista que o homem é produto do seu meio e do seu percurso histórico, facilmente poderemos compreender Lourenço na lógica do pensamento complexo. E daqui resultará uma inferência mais ou menos segura sobre o seu comportamento e do que dele se pode esperar com realismo e razoabilidade.

 

Lourenço é somente a parte. Ou seja, é um produto e fragmento do sistema com o qual não estabeleceu ruptura. A parte subordina-se ao todo. A parte partilha a mesma natureza do todo! «Os modos simplificadores do conhecimento mutilam mais do que exprimem as realidades ou os fenómenos que relatam, se se tornar evidente que produzem mais confusão que esclarecimento», afirma Morin.

 

Se a sociedade é esta rede complexa de forças e contra forças em jogo, então, o entendimento e análise da realidade política intricada com múltiplas esferas, não se compadece com charlatanismo. É necessário o uso das ferramentas básicas de análise que a ciência tem disponíveis.

 

Lembremos que o pensamento complexo entende que a realidade, os fenómenos são marcados por categorias como a incerteza, ambiguidade, acaso, ordem e desordem. Estas categorias expressam a arquitectura da sociedade.

 

Para tornar este emaranhado minimamente inteligível, requer o auxílio do método de análise de conjuntura. Na sua obra, Como se Faz Análise de Conjuntura, Herbert de Souza, terá chamado atenção sobre a necessidade de estarmos atentos ao fluxo de factos e fenómenos sociais. Distinguir o essencial do acidental. Separar o necessário e o acaso. Em suma, uma boa análise de conjuntura, pressupõe a capacidade de separar factos genuínos e fenómenos fabricados em laboratório para a distracção dos cidadãos em relação ao essencial.

 

Para a análise da realidade, é preciso identificar as seguintes categorias que estão em jogo e podem levar o país para certa direcção: acontecimentos, cenários, actores, relação de forças e articulação/relação entre estrutura e conjuntura. Propomos ao leitor uma paragem. Releia o parágrafo anterior e coloque a si mesmo as seguintes questões: quais os grandes acontecimentos reais e não fabricados em Angola? Quais são os actores em jogo? Tendo em conta a forma como chegou ao poder, Lourenço é actor ou figurante? Diante deste cenário, relações de força entre estrutura, conjuntura e actores o que é que pode acontecer de bom para o interesse comum? Quem realmente pode mudar a estrutura e as relações desequilibradas de poder? Há pelo menos cinco gestos/acções concretas que coincide com os discursos de Lourenço? Porquê não apresenta a sua declaração de bens se quer combater a corrupção? Se quer uma imprensa livre, porquê os órgãos públicos continuam selectivos nos intervenientes, e ficcionam uma figura do presidente impoluto e messiânico? O que está por detrás de acções presidenciais não substanciais, que não geram a mudança de cultura política e reforma séria do Estado? Todas as suas acções até ao presente momento abalam a captura do estado pelo seu partido?

A compreensão do que se está a passar, remete-nos aos primórdios em que o batuque do poder pós-colonial começou a tocar de forma descontrolada.

 

Os loucos também dançam. Génese do duelo angolense

O poder enlouquece. Quando alguém chega aos píncaros do poder, sem a noção de que o poder é essencialmente um instrumento para servir, esta ferramenta torna-se causa instrumental para a disfuncionalidade das instituições, corrompendo assim, o seu fim último: o bem comum.

 

O assaltante ao poder do Estado pós-colonial angolano, Agostinho Neto, terá sido o primeiro artífice da disfuncionalidade das instituições. As prisões em massa e os assassinatos em semelhante proporção, ilustram com alguma clareza como o batuque do poder terá invertido o seu fim benigno.

 

As batucadas do potentado elevaram os decibéis (dB) na era de José Eduardo dos Santos. Esta elevação fez dele um fiel e adequado depositário da herança tirânica, cuja construção começou nos maquis; daqui para diante, assistimos ao aprofundamento da loucura e a intensidade da dança dos loucos. Vimos ainda a dança migrar do polo central do poder concêntrico (em um só homem), para a turba à sua volta. Estes últimos beneficiários do ritmo do batuque, não eram os tocadores, mas sim, os dançantes conforme a vontade do batucante, cujo ânus tinha poder criador de condomínios, partidos, prémios, machados, pistolas, prédios, bicicletas, doenças, ‘intelectuais’, ‘artistas’, enxadas, ONGs. Tudo. Não obstante, o ânus ser «considerado um objecto de aversão e mácula. […] Princípio deanarquia do corpo e zénite da intimidade do segredo [em algumas tradições], símbolo por excelência do universo da defecação e do excremento, de todos os órgãos, era o “qualquer-outro” por excelência. Sabe-se, aliás, que na economia simbólica dessas sociedades, o“qualquer-outro”, sobretudo quando se confundia com o “todo íntimo” também representava uma das figuras do poder oculto» (Mbembe), dali a sua capacidade inventiva e criadora devidamente interpretada e aplicada pelos tiranos africanos.

 

A topografia rectal não se distancia da zona fálica, uma vez que partilham a lógica do prazer. Este prazer também possui uma dimensão de poder. O poder é falocrático. O poder do falo no sentido político encontra acolhimento em variadas culturas e civilizações africanas. Esta falocracia, viu-se elevada a interpretações no texto romanesco e filosófico africano.

 

Em Os Condenados da Terra, Franz Fanon faz uma análise psicanalítica das relações genitais por coacção, levadas a cabo pelos agentes coloniais franceses contras as esposas dos africanos, que se colocaram do lado de lá com vista a pôr fim a dominação colonial. Tal acto desencadeado pelos falos franceses, nada tinha que ver com o prazer. Mbembe lecciona que «neste conflito de homens, a mulher serve, antes de tudo de substituta», cuja submissão aofalo visa a ‘dupla desonra’: do homem como prioridade e causa central da violação a sua esposa, cuja ‘desonra’ é parte secundária daquele acto. Um acto que em última análise visa a morte simbólica do corpo ausente (o marido); este eterno inimigo cuja morte física deverá acontecer a qualquer custo, sob pena de a sua família toda ser dizimada.

 

No campo político ou militar, os usos do falo enquanto arma demonstrativa de poder e capacidade de submissão do Outro – o oponente ou o simples subordinado – é marcado por uma atmosfera: «na cena paira uma figura fisicamente ausente, mas cuja presença espectral convida [o poderoso] a redobrar o seu furor. Esta figura é o marido. Ao violar a sua mulher, é o seu falo [que o poderoso] almeja castrar simbolicamente», afirma Mbembe, em Politicas de Inimizade.

 

Nos nossos dias, o uso do falo enquanto instrumento de submissão política, e o seu oposto – a vulva − como receptáculo e testemunho submisso e dorido do poder, ganhou estatuto transnacional. Basta lembrar que o mundo denuncia as violações sexuais, aplicadas amiúde como arma político-militar. O ponto mais alto deste grito de denúncia, fundado sobre o ‘consenso ético mínimo mundial’, vimo-lo em 2018, quando os vencedores do prémio Nobel da Paz foram o ginecologista, Denis Mukwege (RDC) e a activista Nadia Murad (Iraque) pela luta contra a violência sexual em contextos de conflitos armados.

 

A teoria feminista contemporânea, terá compreendido o poder simbólico e substancial do falo, marcado por uma cultura consideravelmente patriarcal e machista. Assim, por meio de um pensamento-acção e acção-pensamento faz uma dupla interpretação: primeiro afirma que o órgão sexual feminino detém poder e deve ser recuperado. Um poder que se terá mantido oprimido pelo sexo oposto. Mas não é um qualquer poder. É um poder oposto e hierarquicamente superior ao poder do falo. O segundo movimento coloca o sexo feminino numa posição análoga. Por conseguinte, dá-lhe também estatuto político e poder.

 

Ainda o filósofo camaronês, Achille Mbembe, na sua obra, Sair da Grande Noite – Ensaio sobre a África Descolonizada, lembra-nos que em atmosferas de conflitos armados, dão-se usos variados e inimagináveis ao falo enquanto ritual de celebração do poder e subjugação. «Assiste-se à multiplicação da prática da manducação. São as crianças-soldado que, depois de tirar a vida a um inimigo, emasculam retirando-lhe o pénis e consumindo-o – para faze-lo aperceber-se [ao morto], mesmo na sua morte, da sua impotência».

 

Em termos simbólicos, aqueles que se encontram no vértice da hierarquia do poder, ao invadirem a intimidade do seu subordinado, copulando com sua esposa, com ou sem consentimento, é o equivalente «a prática que consiste em despojar o inimigo [real ou fantasmagórico] de tudo aquilo que constituem os emblemas da virilidade e em consumá- los».

 

Segundo a Psicologia Política, os tiranos são paranóicos. Vêm inimigos em tudo e todos, logo, os seus subordinados são alvos a oprimir. Ao prolongar o poder falocrático até a intimidade do inferior hierárquico, equivale a ter controlo sobre o inimigo e em última análise, significa a destruição da sua capacidade viril. Uma vez que a Psicologia Familiar, atribui inúmeros divórcios ao mau desempenho genital, o tirano inverte as lógicas. Confessa para si mesmo que as parceiras dos seus inferiores na cadeia de comando, são flageladas pela força suprema do seu sémen, não por medo, não por amor a opressão, mas sim, de forma voluntária, decorrente da sua extraordinária performance fálica. Desempenho nunca antes vivido com os seus parceiros. Desta construção esquizofrénica, origina a paz para o seu ego, finalmente gera sensação de triunfo porque significa destruição do falo impotente dos seus inimigos-subordinados. ‘Por isso, as suas esposas são oferecidas’, diz o tirano para si mesmo.

 

Mbembe dá profundidade a esta Sociologia Política do Corpo, focada na dimensão fálica, dizendo que «o falo está em acção, é ele que comunica, ordena e actua, motivo pelo qual,aqui, a luta política ganha sempre contornos de uma luta sexual, sendo que qualquer luta sexual se reveste, ipso facto, de um carácter de luta política. Se quisermos compreender a vida física do poder e os mecanismos de subordinação na pós-colonia é necessário analisar o membro do potentado que, adepto da violação voraz e afirmação brutal do desejo de poder, é um órgão furioso, nervoso, facilmente excitável e que pode ascender a bulimia. O que acontece especialmente quando o potentado se encarniça sobre as mulheres dos seus colaboradores e sujeitos, ou ainda se deixa pressionar por todo o tipo de prazer (incluindo os seus subordinados), toldando no seu decurso a qualquer distinção entre homo e heterossexualidade. Para o potentado de facto, a felação, a venalidade e corrupção devemabrir alegadamente as comportas da vida. […] O autocrata, aferrado aos seus sujeitos, reina sobre essa gente disposta a sucumbir a sua violência. Pressionados pela lógica da sobrevivência, devem assim adular o poder para aumentar a sua congestão e o seu relevo. Ao compelir o seu falo até ao fundo da garganta dos seus sujeitos, o potentado pós-colonial nunca consegue estrangula-los.»

 

Como podemos depreender da hermenêutica magistral acima referida, não se pode compreender a engenharia do poder político sem a centralidade do falo. Factor chave na forma de ser-e-de-estar da elite pós-colonial do topo a base. Estes que figuram na escalaabaixo do ‘deus supremo’ são reprodutores da lógica falocrática. Subjugando tudo e todos, e lançando as sementes seminais a torta e a direita para todos os cantos e recantos da república.

 

Enquanto na esfera pública rejeitam e combatem a homossexualidade, de facto, ela tornou- se uma ameaça para os fracos, mas, simbolicamente é um privilégio para o chefe supremo, cuja vontade pode direccionar o seu falo para a topografia rectal dos seus subordinados homens, mesmo quando as suas esposas já vibravam sob o batuque do rei por meio da geografia oposta do corpo, privilégio deste género inefável.

 

A liturgia da carne dirigida sobre a zona rectal dos subjugados (homens), presos numa lógica de sobrevivência absoluta, é uma das expressões simbólica e substancial de poder quaseabsoluto sobre os ‘súbditos’. Orwell diria:

 

− Como é que um homem afirma o seu poder sobre o outro, Winston?− Fazendo-o sofrer – disse.

− Exactamente. Fazendo-o sofrer. A obediência não basta. […] O poder consiste em infligir dor e humilhação.

 

Nesta lógica, é a confirmação quase total de poder, e se nos atermos ao estado mental dos tiranos, não nos parece que as suas vítimas sejam degustadas usando lubrificantes intimissimi!

 

A liturgia da copulação enquanto poder político é objecto de análise na obra do romancista congolês Sony Labou Tansi (La Vie et Demie & L’Etat Honteux). Esta narrativa e interpretação literária foi acolhida por Mbembe, e é ressignificada no plano filosófico. Fala Mbembe: «[Esta via política de gestão da res publica] que confere uma função crucial ao pénis nosprocedimentos de simbolização do poder […] − constituem largamente a regra. […] De facto, tanto muito antes, quanto durante e após a colonização, o poder em África procurou sempre assumir a imagem da virilidade. A sua modelação, implementação e sua dotação de sentido operaram-se largamente à semelhança de uma erecção infinita. A comunidade política pretendeu ser [sem sucesso, claro], desde sempre, o equivalente de uma sociedade dos homens, ou mais precisamente, dos anciãos. A sua efígie residiu sempre no pénis erecto. Pode, aliás, afirmar-se que o conjunto da sua vida física organizou-se sempre em função do elemento da inflação do órgão viril. De resto, foi assim que o romance africano pós-colonial pode transmitir-se tão bem». O filósofo continua a análise afirmando que «na obra de Sony Labou Tansi, o processo de turgescência faz parte dos principais rituais do potentado pós- colonial. Com efeito, é vivido como o momento durante o qual o potentado se redobra e se auto-projecta além dos seus limites. Com este impulso até aos extremos, desmultiplica-se e produz uma fantasmagoria dupla, cuja função consiste em apagar a distinção entre o poder real e o poder fictício. A partir desse momento, nos jogos de poder e de subordinação, o falo pode desempenhar uma função espectral. […] Logo, por definição, o potentado é sexual. O potentado sexual assenta numa praxis da fruição. O poder pós-colonial, em especial, imagina-se literalmente como uma máquina a usufruir. Neste caso, ser o soberano significa fruir absolutamente, sem contenção ou barreiras. A gama de prazeres é alargada. A título de exemplo, um ponto associa o prazer de comer (a política do estômago) à fruição que procura a felação e àquela que é resultado do acto de torturar os seus inimigos reais ou alegados. Daí a posição significativa desempenhada pelo acto sexual e pelas metáforas da copulação no imaginário e nas práticas de chefia. Por exemplo, a sexualidade do autocrata funciona com base no princípio de devoração e deglutição das mulheres, a começar pelas virgens que desflora alegremente».

 

Este ethos é replicado como sinal de triunfo e realização, por parte de outros lumpenradicais a volta do tirano (ou não), tais como banqueiros, deputados, burocratas, generais, soldados, policiais, professores e mesmo bispos, sacerdotes, médicos, administradores, burocratas do partido, pastores e morabitos partem para toda a parte a expurgar o excesso e lançandosementes ‘espermais’ ao sabor do vento.

 

A política contemporânea africana é testemunha da força e do poder fálico. O filme documentário, Um Dia na Vida de um Ditador, demonstra e interpreta como funciona a surra soberana nacional por meio do falo farejador infinito, de órgãos opostos, um pouco por todo país. O filme demonstra particularmente a degustação variada de mulheres por parte do antigo tirano de Uganda, Idi Amin, entre 1971 a 1979. Outro déspota cuja política do falo mereceu análise, é do líbio Muammar Al Gathafi, cujo consulado de 42 anos e 49 dias aterrorizou as mulheres. Ter-se-á acasalado com mulheres provenientes de quase todas as cidades do país. E tal proeza maligna, mereceu análise profunda no livro, No Harém de Kadhafi, de Annick Cojean. De acordo com o mesmo livro, nem a Unidade da Guarda Pessoal mais próxima foi poupada. Também foram subjugadas pela navalha afiada do tirano.

 

A luta sexual enquanto luta política, no contexto angolano, mereceu um romance − O Ocaso dos Pirilampos – escrito por Adriano Mixinge. Um texto de grande alcance estético, analítico, rico em símbolos e criativo. O personagem central é um chefe autocrata, que no auge do seu potentado absoluto, decidiu fazer a autoconfissão. O romance é um monólogo. No final, o tirano confessa que deseja ser lembrado como tendo sido «o Grande Patriota».

 

E diz mais: «com o falo em alto, eu submeto todos. Quando digo aos meus subordinados para entrarem no lugar em que toco o batuque, observo-os primeiro bem se têm ou não nádegas volumosa. Até mesmo antes de certificar-me dos atributos físicos fico logo teso: senhoras respeitáveis, maridos fiéis, militares arrogantes, polícias, professores, engenheiras, dirigentes de partidos políticos, líderes religiosos e guias de seitas religiosas, médicas, simples empregadas de limpeza, solteiros, casados ou boémios, gente educada ou sanzaleira, eu os submeto todos com o falo e eles já sabem, se querem desfrutar dos sons do meu batuque têm é de ficar calados e não podem ter opiniões próprias. Tudo o que pensarem tem de ser uma interpretação ajustada às minhas ordens. Fico teso só de pensar em todos eles».

 

O confessor e detentor absoluto do poder, descreve aos pormenores, a coreografia, a decoração, enfim a atmosfera onde decorre o exercício de submissão através do falo mais poderoso de que Angola tem memória: «eles ou elas entravam e bastava deslizarem os pés por aquela alcatifa vermelha e o meu falo parecia seguir o instinto do osso que já perdemosnessa parte do corpo, o osso que os nossos ancestrais tiveram. […] Com os anos, eles foramsabendo que o sabor do poder é o sabor do meu falo. Eles entravam na minha sala e sabiam que o rubro da alcatifa não tinha nada que ver com o sangue derramado de quem quer que fosse. Aquele vermelho estimulava a minha excitação e estava ai para estimular comichões de todo o tipo: nas mãos porque queriam dinheiro e fortuna, nos pés porque queriam viagem e nos mais escuros orifícios porque aspiravam a herdar o batuque que é mesmo só meu».

 

A dada altura o narrador suspende a confissão dos pormenores que expressam o ritual da subordinação absoluta via falo. E toca a taxonomizar as suas prezas como sendo «cadelas», «subjugados voluntários», «amantes do poder», etc. E em seguida retorna aos pormenores da liturgia da carne, afirmando que «quando começou a acontecer, eles nem sequer acreditavam que aquilo lhes estava a acontecer: a mesa parecia-lhes mais larga que de costume. As cadeiras pareciam maiores e o brilho e a nobreza daquelas madeiras fazia-os sentirem-se num ambiente agradável, colonial e onde as saliências das cadeiras, a luz retocada e ténue que entrava pelas janelas, o cheiro a verniz tornava tudo mais sexual, aconchegante, luxurioso como o ambiente que as figuras de Yinka Shonibare recriavam, ao retratar a Inglaterra vitoriana. O meu poder é cada vez maior, o som do batuque vos subjuga».

 

E finalmente, o tirano evoca a autoconsciência de seu poder absoluto. Descreve-se como aquele cujo poder sexual, que também é político, manipula e controla a realidade com ubiquidade: «eu sou sempre o penetrador», diz ele. Este ser que sempre denota omnipotência e omnipresença fulminante do seu canivete fálico, adiante gaba-se de ser «o perpetuador de todas as ordens. Ponho-os como me apetecer, de frente ou de costas, quando eu quero. As caricias desembocam em autênticas esfregas: ninguém sabe quem é a madeira e quem é a lixa. Todos os gestos parecem um discurso devidamente memorizado. Ninguém parece principiante, até aqueles que eu nomeio pela primeira vez parecem ter já recebido o testemunho dos que pululam há anos à volta do meu batuque. Deixamos de falar, aquilo que era toque, gesto, covertia-se em caricias. Eu ficava teso e com muita água na boca. Segurava-os pela cintura. Beijo-lhes sempre o pescoço, gesto de vampiro que adoro simular».

 

A propósito da categoria vampiro no reino político, o pensador ganês, George Ayittey, reduz os políticos africanos a crocodilos e vampiros. Esta analogia da fauna ao mundo humano, tem suficiente razoabilidade no contexto angolano. Mas, o que acontece afinal no mundo animal? Vejamos: os morcegos sugam o sangue às suas vítimas. Durante a caçada, não hásucesso para todos. Este insucesso desencadeia ‘solidariedade’. Os infelizes recebem algunsdecilitros de sangue dos vampiros benfeitores, a título de empréstimo.

 

O chefe absoluto cujo falo move o reino, encontra no povo a vítima para extracção de sangue, tornando-o miserável inenarrável. Claro está, que o séquito a volta do chefe, beneficia do sangue sugado ao povo: os recursos. Ora, chega o momento em que o tirano, cobra aos beneficiários do sangue para que possam pagar com juros. Para esta situação, os súbditos, não possuem sangue – bens materiais − para saldar a dívida. Mesmo que tivessem, ao tirano não serviria, uma vez que ele é a fonte criadora e originária de tudo. A solução passa pelo comunismo da carne: “as vossas mulheres, são as minhas mulheres”, diz o tirano. Perpetuando assim, a eucaristia do falo e da vulva, para que possam pagar as dívidas contraídas mediante fazendas, carros, prédios, piscinas, etc. Mas a dívida nunca é totalmente paga, porque a concepção da história do acto fálico é o eterno retorno aos grandes lábios das suas «cadelas», tal como ele mesmo as qualifica. Parece que tudo isso confirma a filosofia ancestral ugandês, segundo a qual «um falo erecto não tem consciência.»

 

Em 2003, João Lourenço terá manifestado o seu desejo de ser o Presidente da República de Angola. Ou pelo menos assim foi entendido quando concedeu uma entrevista ao jornal semanário, A Capital, na edição 60. «Zé Dú vai mesmo abandonar o poder porque é um homem sério e de palavra», disse Lourenço, o então secretário-geral do partido à data da entrevista.

 

Nos anos que se seguiram a entrevista, o então secretário-geral, foi afastado de cargos importante na engrenagem do Estado e do Partido-Estado. Entidades que se confundem em Angola. Nem mesmo os cidadãos até ao presente momento sabem qual é o Estado e qual é o partido. Este último capturou o primeiro.

 

A não assunção de cargos, por este homem, terá levado na altura a opinião pública a classificar tal situação como sendo «momento de travessia no deserto». No contexto de uma sociedade ainda quase em estado de natureza, rústica, não-polida, ser afastado de um cargo, ou não ser nomeado para assumir cargos, é um indicador análogo à uma tragédia na vida. Disso pode-se fazer a seguinte análise: um cargo de poder, é o caminho aberto para tudo em termos materiais e para pilhar. É lamentável que uma sociedade seja composta por pessoas cuja mentalidade percepciona a perda de um cargo como sendo insuportável. Para milhões de angolanos, é preferível o suicídio a perder uma posição de poder custe o que custar. Amiúde, pessoas não nomeadas ou exoneradas contraem Acidente Vascular Cerebral (AVC) por este facto.

 

Isso explica contradições incompreensíveis, tal como a visão dos cidadãos sobre a corrupção. Reclamam da corrupção, não porque entendem que ela é má, mas porque gostariam de estarem entre aqueles que se dedicam ao saque. (Talvez) O muro de lamentações do povo, não visa o combate a corrupção, nem porque a consideram um mal, mas porque gostariam de ser membros de uma espécie de comunismo nacional de corrupção, onde todos beneficiariam por igual fatia. Só isso!

 

Isto não significa que não hajam uns poucos cidadãos que entendem a corrupção como sendo um mal e a combatam com sinceridade.

 

Dito isso, alcançamos o ponto-chave da tese que estamos a sustentar. A hipótese provável de que o antecessor de Lourenço ter-se-á intrometido na sua vida intima via falo, e o período em que terá sido reduzido temporariamente a uma zona marginal do centro de poder, explicam e condicionam o comportamento e decisões do actual dono do poder. Um homem que parece ressentido. Não estamos interessados numa avaliação ética do ressentimento. O escopo a que nos propusemos analisar são as consequências políticas desta emoção no contexto de um regime autoritário, cuja sucessão presidencial não alterou a cultura política.

 

Se a narrativa do combate contra a corrupção é genuíno, não sabemos. Se o homem ama Angola e tem um projecto de nação com vista a promoção do interesse do país, também não se sabe ao certo. Mas o certo e inquestionável é que Lourenço apoiou a ferro e aço a construção da tirania, é beneficiário de uma economia de extracção, e sempre defendeu publicamente a repressão contra os que pensassem diferente. Está tudo em registo e temos documentos que o provam. Dog Murras, interroga-se e responde a si mesmo: «queres convencer-me que os quarenta ladrões viraram gente do bem da noite para o dia? Quem não foi patriota ontem, não será patriota hoje».

 

Alguns acreditam que, a semelhança do que acontece nas religiões monoteístas, o homem está convertido. Bastou tornar-se o todo-poderoso, tornou-se boa pessoa do nascer ao pôr- do-sol. Aqueles que padecem de amnésia chamam-lhe o promotor do combate contra a corrupção! Uns talvez por desconhecimento de conceitos e infantilismo, disseram que está em curso uma revolução em Angola. Os autores deste artigo sabem quem é Lourenço e têmconsciência histórica. Quanto as suas verdadeiras intenções, nós não embalamos num qualquer verbo, mas recusamos qualquer conclusão definitiva sobre o que o novo dono disto tudo quer para Angola. O tempo nos dirá. Só o tempo…

 

Ora bem, se estamos diante de um homem, cuja honra foi atingida no passado, então, as suas decisões e comportamento, são nada mais do que a manifestação de um duelo com vista a restaurar uma honra primitiva, típica de membros pertencentes a gangs comuns que operam sob a capa do Estado, cujo código moral é nada mais, e nada menos, do que a ética do mal.

 

Duelo e a ética do mal

 

De acordo com a sabedoria ancestral zimbabueana «a raiva de um falo em alta não destrói o sexo oposto». Este falo cuja luta e função são políticas de subjugação, pelos vistos, não só não esmaga a ‘vítima’, de igual modo o subordinado contra o qual se pretende mostrar poder – o marido − também não evapora. O facto é que ambos, a violentada e o castrado simbolicamente, carregam as feridas na alma. O que na linguagem clínica são os traumas.

 

Assim começa a revelação dos limites, da nudez e fragilidade do poder falocrático. Ao reafirmar a sua virilidade opressora «o potentado proclama paradoxalmente a sua vulnerabilidade no próprio acto através do qual pretende manifestar a sua omnipotência», afirma Tansi. Não poucas vezes o tirano encontra no uso do seu falo a doença e a morte.

 

Para o caso angolano, o paciente cujo diagnóstico está feito, começou uma batalha campal para exigir satisfação por meio do duelo.

 

Basicamente, o duelo é o combate entre duas pessoas por questão de honra; situação de conflito ou concorrência entre duas pessoas ou dois grupos; luta entre dois corpos de exército ou entre dois grupos.

 

Do hemisfério sul ao norte, o duelo vem sendo praticado. Em muitas sociedades europeias, esta prática estava presente até no princípio do século XX. O poeta afro-russo, Alexandre Puchkine morreu num duelo cujo oponente foi o barão francês Dantès. No romance, O Vermelho e o Negro (1830), o personagem central, Julien Sorel, envolve-se num duelo. Narrativa que confirma esta prática naquela época (Stendhal).

 

Inúmeras civilizações e culturas africanas praticavam o duelo (sobretudo, em sociedades guerreiras). Nos tempos modernos, ele foi incorporado por grupos paralelos ao Estado ou que capturaram o Estado.

 

O processo que leva a desposar uma mulher, pode encontrar no duelo uma via para que tal pretensão se concretize. Os parentes da pretendida podem exigir o confronto entre dois rapazes para que o vencedor possa ter a desejada como esposa. Há casos em que o duelo consiste numa caçada com vista a obter um animal feroz contra o qual os pretendentes travam uma batalha mortal. Terá a mulher como esposa, aquele que matar a fera e apresentar à comunidade.

 

O cinema asiático (China, Índia, Afeganistão, Bangladesh e Japão) é particularmente rico na interpretação do duelo e da ética do mal. É frequente assistirmos a filmes que narram desavenças cujo desfecho passa por uma luta mortal com vista a restaurar a honra.

 

Na obra, O Código De Honra: Como Ocorrem As Revoluções Morais, o filósofo ganês, Kwame Appiah, analisa o percurso do duelo e da honra ao longo da história, em várias culturas e povos, e como esta prática moldou a ética em diferentes sociedades.

 

Para o caso angolano, uma questão se impõe: Quê tipo de ética? Estamos a falar de uma ética do mal. Um código moral que rege a comunidade de assassinos, gangs, lumpenradicais, mafias, traficantes, fora ou dentro de um aparelho de Estado. Parece paradoxal aos olhos de um individuo cuja vida é guiada por padrões éticos socialmente aceites, pensar ou aceitar que estes grupos também têm um código moral. Têm e o praticam. Por isso, quando nos referimos sobre a honra no caso vertente, ‘não se trata de uma honra de pessoas honradas’no sentido ordinário. Trata-se de um duelo que visa reerguer um homem dentro de um universo obscuro.

 

Em A Luta pelo Poder e a Evolução do Habitus nos Séculos XIX e XX, o sociólogo alemão, Norbert Elias, permite-nos compreender o papel e as implicações do duelo na relação de poder entre os membros do establishment e a ralé.

 

O duelo é um demarcador de classe. É uma prova de pertencimento à elite e que se é digno de ser parte dela. Ou seja, só os cidadãos que detêm posições de influência e poder, podem envolver-se num duelo. Esta prática tem lugar quando um membro do grupo vê-se confrontado na sua honra. Neste sentido, o duelo visa exigir satisfação ao oponente e recuperar o capital simbólico perdido. Ao travar esta batalha pela honra, o duelista vencedor reforça o seu status diante do grupo.

 

Sendo certo, que a sociedade de duelistas é uma Ordem que opera imune às leis estabelecidas pelo Estado, logo, é um grupo que nega, destrói o monopólio da violência e de aplicação da lei que numa sociedade moderna, cabe ao Estado. Ao quebrar este monopólio da força e de aplicação do corpus legis, estabelecem um governo paralelo que opera fora ou dentro do Estado capturado pela gang.

 

Dito isto, os duelistas arbitram os seus conflitos com base no seu código de honra. Um dos elementos fundamentais do código de honra é: nenhum membro do grupo pode permitir que o outro seja responsabilizado ou sofra. Transpondo isso, para os factos concretos, isso, explica a simulação de julgamentos e ordens de soltura sem fundamento legal. É o código do grupo que está a funcionar, uma vez que o promotor do duelo está satisfeito com o grau de disciplina imposta e a victória alcançada na luta pela honra. O insultado sente que o seu poder de exigir satisfação funciona, por isso, pode dosear conforme os seus interesses, uma vez que pontifica a gestão da ordem extra-estatal, mesmo que sob a capa de intra-estatal.

 

É chocante e assustador como a ética do mal, impregnada no interior do código de honra, se manifesta: «é impressionante ver como o código social das classes altas activou usualmente a solidariedade de seus membros em face do poder do Estado, mesmo quando tinham se enfrentado antes como inimigos mortais. O código de honra da elite tem prioridade sobre as leis do Estado. Até o [chefe supremo] tem que submeter-se-lhe. Mesmo os guardiães das leis do Estado tentam automaticamente proteger os criminosos de elevada estirpe da punição pelos tribunais, o que imediatamente aconteceria se ele pertencesse a uma classe inferior. A unanimidade com que, neste caso, todos os membros cerram fileiras —, […] a fim de evitar o envolvimento dos tribunais do Estado e das leis — […] expressa uma convicção […] quetem efeitos particularmente duradouros no subsequente desenvolvimento da [nossa sociedade] e é perceptível até aos dias actuais». (N. Elias).

 

Na sequência das decisões de João Lourenço, que afectaram os tentáculos económicos dos filhos do seu antecessor, Tchizé dos Santos reagiu: «sejam que lutas forem, são lutas dos mais velhos que vêm, algumas delas, do tempo da mata, outras vêm do tempo da fundação do MPLA, outras vêm do tempo do partido único, outras vêm do tempo pré-Constituição da República. Nós não vamos lutar em nome de ninguém. […] Minha juventude, meus irmãos, não vamos abraçar essa guerra, essa guerra não é nossa, é deles […] Vamos dar as mãos, vamos ser angolanos, deixem os mais velhos lutarem sozinhos». No presente juízo, está subsumido uma tentativa de convencimento dos cidadãos para que não tomassem partido ao lado de Lourenço. Esta afirmação é vaga, mas levou-nos a colocar a seguinte questão: será que entre as causas do duelo, a Tchizé queria referir-se também a intromissão hipotética do seu pai na intimidade do actual presidente?

 

Cadáveres adormecidos, mas não mortos. Vendedores de vontades

 

Na relação com a ralé, o duelo não só marca a fronteira entre os fracos e os poderosos, mas também é um instrumento essencial para a gradação da manipulação das massas, edaqueles que ‘acreditam’ terem estudado e possuírem consciência crítica, por isso, imunes a manipulação. A prática revela o oposto: a facilidade com que caem nas malhas do verbo ideológico e manipulador.

 

O duelo embala a sociedade. É uma táctica de distracção perfeita na era da sucessão, tendo em vista a consolidação e controlo total da sociedade por parte de quem a pontifica com suporte legal, construído para o mesmo fim: poder total do chefe. Este por sua vez fará a distribuição doseada de fragmentos de poder para a máquina partidária, com vista a viabilizar o seu funcionamento, mas manter tudo como dantes. Mesmo que toda a fanfarra mediática e controlo da narrativa proporcione uma sensação psicológica de mudança, nada substancial altera. Nada que reforme o Estado e desmantele a captura do Estado pode ser feito. Para Orwell, «todas as convicções, hábitos, gostos, emoções e atitudes mentais, que caracterizam a nossa época, servem afinal para alimentar a mística do partido e impedir que se torne perceptível a verdadeira natureza da sociedade actual». Dito isto, as questões inevitáveis são: qual é a fonte da crença das massas num homem cuja origem é o partido que durante quase meio século manipula, pilha, saquear, mata, ou seja, é a síntese de todo antro de males que as pessoas e o país vivem? Porquê o povo acredita num homem cujo percurso não tem um registo de se opor a cleptocracia e a tirania?

 

É óbvio que os seres humanos precisam agarrar-se em alguma tábua de esperança. Mas esta emoção deve ter um fundamento mínimo de credibilidade, sentido e razoabilidade! Para um povo cujo presidente esteve no poder durante 38 anos, parece compreensível que a sucessão traga alívio. Mas ao ponto deste alivio levar a acreditar e depositar confiança num construtor directo da tirania? Isso é incompreensível em termos racionais.

 

A resposta às questões acima expressas, residem na falta de “consciência histórica”nacional. O défice de memória colectiva razoável, que operaria como um referencial para o processo psicológico de comparação do presente e do passado, com vista a lutar para um futuro melhor é uma tragédia. Neste sentido «o povo sofre e foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento; porque tu rejeitaste o conhecimento». (Oséias, 4:6).

 

Esta ausência de consciência histórica é também mérito do sistema que vigora há quase um século. Angola é um daqueles países cuja memória é o futuro. A ideia de que a “catacumba”do passado não constitui novidade, em Angola não se aplica. O passado é o presente e um futuro que surpreende. Neste país, também o que foi − o passado − é imprevisível! Porcontraditório que pareça, é também o eterno retorno.

Quando se vive numa sociedade onde a história é o conjunto de “factos migalhas”seleccionados criteriosamente pelo partido, não é possível falar do direito à memória que permitiria aos cidadãos construírem um senso crítico. Segundo Ngoenha, «a memória colectiva é muito mais que o conjunto dos factos do passado, ela é sobretudo o código semântico de memorização, de retenção de factos do passado. Pode-se portanto dizer que o passado é a via mestra para pensar o futuro, pois este último está já escrito no primeiro», por isso, ao roubar a um povo a sua memória, inviabiliza-o de construir a sua consciência histórica, e por conseguinte, a impossibilidade de pensar e de erguer o futuro.

Ter controlo sobre o passado, e dele elaborar uma embalagem de fragmentos históricos (ou forjados) para dar forma a uma consciência histórica ficcionada é uma forma de poder. Esta engenharia sócio-histórica, poderá condicionar a forma de ser-e-estar no mundo por parte de um povo. Quem controla a narrativa histórica determina em parte o futuro individual e colectivo dos povos. Molda o imaginário.

 

Segundo Orwell, «quem controla o passado, controla o futuro: quem controla o presente, controla o passado.» É exactamente isso que temos assistido em Angola. O povo não colheu lições do passado porque não tem uma história construída com base em critérios mínimos da ciência. Os dados isolados é tudo aquilo que interessa ao partido para que possa manter o poder e interesses de grupo.

 

Os cidadãos devem ter o mundo de valores (axiologia) como critério de avaliação do passado. Por exemplo: quê factos semelhantes ocorreram, e dentro das mesmas instituições beneficiaram a nação, nossa identidade e orgulho nacional? Quando Agostinho Neto tomou de assalto o poder, gerou euforia. Assistimos a mesma realidade com José Eduardo. Facto semelhante com João Lourenço. É necessário que os cidadãos sejam capazes de compreender que atribuir poder messiânico aos chefes constitui um grave erro histórico. Mesmo que fosse um homem de outra força partidária, o povo deve ter consciência que é a unidade cidadã que transforma a sociedade, não os chefes de partidos (e o mais grave, o de um grupo historicamente criminoso). Ninguém nos salvará. Salvar-nos-emos nós os cidadãos. Juntos. Unidos!

Não somos responsáveis pelo passado, mas é inquestionável que somos parcialmente responsáveis pelo presente, logo, condenados a erigir um novo futuro oposto a realidade que conhecemos. Para isso, deveremos usar a força propulsora da consciência história que é «uma ideia do que significa a humanidade, a civilização, a nação, o passado e o futuro, as mudanças a que estão sujeitas através do tempo, as obras e as cidades […] A consciência histórica, pelo sentimento de coesão que ela cria, constitui o elemento de segurança cultural mais seguro e mais certo para um povo. O que é característico da consciência histórica, não é o facto de se poder reclamar de um passado histórico mais ou menos grande, mas o ser habitado por um sentimento de continuidade histórico». (Diop & Ngoenha).

Embora a consciência história seja uma mola poderosa, cuja incorporação no imaginário colectivo tem grande poder para avaliação, tomada de decisões colectivas e perspectivar o futuro substancial, ele encerra também limites. Há a consciência histórica benigna, que temos vindo a evocar, e a consciência histórica maligna. Dependendo de como um povo assimila o seu passado e o julga, este pode bloqueá-lo ou dinamizá-lo com vista a alcançar novas utopias. Algumas vezes, o passado que funciona como parte das forças de bloqueio, são retalhos da história costurado intencionalmente para a paralisação dos povos com vista a manipular, manter controlo e poder.

A propósito, o filósofo moçambicano, Severino Ngoenha lecciona que «de certa maneira avisão que uma dada sociedade […] forma do seu destino, o sentido que ela atribui com razão ou sem razão, a sua própria história (factor psicológico), intervém como uma das armas mais fortes das forças de conservação ou de progresso, isto é, como uma força de apoio decisiva, na vontade de conservar ou de destruir um sistema de valores, como um freio ou um acelerador do movimento, que, segundo os diferentes ritmos, conduz as representações mentais e os comportamentos a transformarem-se».

O povo deverá acordar. Pôr os cérebros a funcionarem para que não continue mais a ser objecto da história de um grupo cujo interesse e propósitos nunca foram semelhantes. No interior do grupo opressor, assistimos neste momento a um cenário de “vergonha relativa”e parecem adormecidos. Não. Os génios do mal nunca dormem. Estão a trabalhar no «mecanismo de recomposição da hegemonia da classe dominante», como diria Dermeval Saviani. Isto levará a um fénix que custará mais meio século, se os angolanos continuarem a vender seus desejos, sonhos e vontades aos cadáveres éticos adormecidos, mas não estão mortos. Chegou o momento de pensar o presente e o futuro na condição de que os cidadãos estejam na posição de fautores da história.

Para secundar a nossa tese, o historiador alemão, Jörn Rüsen, afirma que «a constituição de sentido da consciência humana, aplicada ao tempo, não se esgota na memória. Dão-se saltos utópicos para o futuro, que superam sempre o conteúdo factual do passado. É nessa ultrapassagem que reside seu sentido próprio: esses saltos vivificam a esperanças e a nostalgia como impulsos importantes da autocompreensão humana e do agir humano transformador do mundo. Eles fazem desses saltos factores de orientação existencial, que a consciência histórica não conseguiria gerar. Os saltos utópicos para o inteiramente outro com respeito às circunstâncias dadas da vida permitem identificar, exemplarmente, os limites racionais da cultura histórica e sua dependência das constituições meta-históricas de sentido. O inédito, no trabalho de constituição de sentido da consciência humana, consiste justamente em que nela pode ocorrer um acto de transcendência de tudo o que é dado. É nesse acto que refulge a possibilidade do inteiramente outro, a qual se insere, como elemento conformador, na organização cultural das circunstâncias dadas da vida. […] Otrabalho de constituição de sentido pela consciência histórica carece igualmente de utopias. [Ora,] a consciência histórica interpreta a experiência do passado, algo do espírito que igualmente anima a utopia».

 

Finalmente, é óbvio que o momento histórico que Angola está a atravessar é único e anfigúrico. A sua compreensão enquanto parte e o todo, pressupõe recurso aos métodos actuais das ciências sociais e humanas, como sejam o pensamento complexo, que encerra em si mesmo a dimensão hologramática. É igualmente chamado para auxílio o método de análise de conjuntura.

As decisões políticas de João Lourenço, parecem estarem ancoradas essencialmente em factos do passado protagonizados contra ele e a família, por parte de Eduardo Do Santos. Neste sentido, ainda nada foi feito para refundar verdadeiramente a sociedade. Ainda está numa peleja pessoal. Se não vejamos:

Primeiro, nomeou um chefe dos Serviços de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE), Fernando Miala, cujo consulado foi marcado por perseguição e morte dos críticos ao sistema,

Segundo, o Presidente mostra-se publicamente incómodo com uma possível revisão constitucional. Tal incómodo é contraditório, uma vez que esta Constituição é típica de uma tirania, e Lourenço diz desejar uma sociedade aberta.

Terceiro, outro campo sine qua non – é a imprensa livre − para a transição de uma tirania(como a actual) para a democracia. A media continua sob controlo com uma abertura já estacionária. O indicativo cristalino do controlo da imprensa é que o Presidente prevalece intocável. Nela tem estatuto de demiurgo com messianismo à mistura.

Quarto, se de facto quer combater a corrupção, deve apresentar a sua declaração de bens.

Quinto, outro sinal gravíssimo é a violação da Constituição, quando decidiram previamente a realização das autarquias nalgumas regiões do país. Este é um truque típico de quem tem amor de morte pela manutenção e controlo absoluto do poder, replicando a velha escola política de bárbaros, e rejeitando a poliarquia que confirmaria a existência de uma democracia substancial.

Sexto, não haverá transição de uma sociedade de violência estrutural para uma sociedade de paz e democracia, sem a necessária e urgente reforma do sector de Defesa e Segurança. Não há sinal neste sentido. É urgente começar pelas Polícias de Ordem Pública, de Intervenção Rápida e Serviços Secretos. As polícias precisam compreender que devem estar ao serviço das pessoas, para não continuarem a agir à semelhança de gangs sob o guarda- chuva do Estado. E os Serviços Secretos não entenderam que devem servir o interesse nacional, proteger o país e não perseguirem a sociedade e os membros dos partidos da oposição. Desde 1975 servem o partido que capturou o Estado.

Aos angolanos, não permitamos que esta ideia de George Orwell se concretize mais: «pode dar-se-lhes toda a liberdade intelectual, porque não têm intelecto».

Fonte: Club-k.net

Tags
Mostrar Mais

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button