Angola

Cem anos de Liceu Vieira Dias: Uma das figuras da História de Angola

O nacionalista Carlos Aniceto “Liceu” Vieira Dias, fundador do agrupamento musical Ngola Ritmos e considerado por muitos o Pai da Moderna Música Popular Urbana Angolana, foi durante sete dias alvo de intensas homenagens pelo centenário do seu aniversário natalício. O promotor das celebrações, que contaram com a participação de familiares, contemporâneos, amantes e pesquisadores da música angolana, foi o Centro de Estudos Africanos da Universidade Católica de Angola (UCAN). Fizeram parte da agenda de eventos uma conferência, exposição de fotografias, apresentação de livros e exibição de filmes.

Cem anos de Liceu Vieira Dias: Uma das figuras da História de Angola
Cem anos de Liceu Vieira Dias: Uma das figuras da História de Angola

As actividades começaram na terça-feira, 1 de Maio, dia em que se Carlos Aniceto Vieira Dias estivesse em vida completaria exactamente 100 anos. O primeiro dia das celebrações foi marcado por testemunhos de familiares e momentos emotivos. Nas instalações do Centro de Estudos da UCAN, no Largo das Escolas, depois das saudações da Reitoria, foram expressos importantes testemunhos, como o do filho, o músico Carlitos Vieira Dias, que realçou não apenas o lado artístico do pai, muito marcado pela música clássica, iniciado com aulas de piano e a música brasileira. Carlitos Vieira Dias destacou o facto do pai ser um homem de fortes convicções e o seu envolvimento com o nacionalismo. Também revelou que tinha apenas 11 anos quando o pai foi preso pelo regime colonial.
Uma outra revelação, desconhecida por parte dos presentes e omitida pelos políticos e determinados segmentos da sociedade, foi feita pelo primo, Dom Filomeno Vieira Dias, que depois de ter apresentado o tema “O Homem e o Nacionalista”, falou da cumplicidade e hostilidade de alguns padres católicos. De uma forma pedagógica e conciliadora, foi forçado a responder à pergunta sobre o ostracismo que Liceu viveu nos anos que se seguiram à Independência. Depois de ter feito o enquadramento histórico, com menção ao anseio pela liberdade, às contradições internas, abandono da causa, traições e outros aspectos que acontecem na vida de qualquer movimento de libertação, sem rodeios afirmou que o envolvimento de Liceu Vieira Dias na Revolta Activa, dentre outras desilusões, determinou o seu ostracismo.
Era tanto o incómodo, que quando um grupo de cidadãos realizou uma homenagem a Liceu Vieira Dias, onde o etno-musicólogo Jorge Macedo fez uma apresentação, o Bureau Político do MPLA saiu, de seguida, com uma nota manifestando o seu posicionamento. O clérigo afirmou que apesar deste “irritante”, Liceu não sofreu outras represálias e sempre teve o carinho da população.
O nacionalista Amadeu Amorim, colega de Liceu no Ngola Ritmos, também falou, na primeira pessoa, sobre a influência de Liceu e a ousadia que teve de estilizar ritmos locais para uma audiência de colonos e da elite africana. Reconheceu a capacidade de Liceu Vieira Dias em transportar para a guitarra o que recolhiam e ouviam de proveniência das zonas rurais. Também citou Manuel dos Passos como sendo o homem que recolhia e tinha maior conhecimento da “outra” realidade vivida pelos nativos.
Amadeu Amorim, que também esteve na cadeia com Liceu, confidenciou que na época em que estavam no Tarrafal e ouviram as gravações de conjuntos como Os Kiezos, Jovens do Prenda e outros, que começavam a se destacar, reconheceram que estes conseguiram dar outras sonoridades à música angolana e apelaram para que tivessem cuidado, para não serem explorados em função da qualidade das obras.

Homenagem poética

No primeiro dia da conferência ainda houve declamação de poesia, com Amélia da Lomba e Quesinha Van-Dúnem, pseudónimo da magistrada judicial Pulquéria Van-Dúnem. Foram declamadas duas obras poéticas que citam Liceu Vieira Dias e os Ngola Ritmos, uma de Agostinho Neto e outra de Ernesto Lara Filho. Se na primeira Neto lembra as farras e cita Liceu como um herói, na segunda Lara Filho fala de um funeral onde as canções do Ngola Ritmos seriam tocadas. Na voz de Amélia da Lomba sentiu-se a abrangência nacional da figura de Liceu Vieira Dias, comprovada pela sobrinha Pulquéria Van-Dúnem, que com emoção deu o testemunho do que viveu da relação entre o pai, Antoninho Van-Dúnem, e o seu primo Liceu, mostrando que mesmo em Benguela, onde residiam na altura, os feitos do primo e do grupo não passavam despercebidos.
O momento cultural com o grupo coral da UCAN, a inauguração da exposição fotográfica e a leitura e assinatura de uma petição pública para atribuição do nome de Liceu Vieira Dias ao Largo do Cruzeiro, marcaram o primeiro dia. A presença, mesmo doente, do coordenador do grupo de cidadãos que em meados dos anos 1980 ousou realizar uma quinzena em homenagem a Liceu Vieira Dias, o professor, homem de cultura e sindicalista Manuel de Victória Pereira, num dia que para o mesmo teve o duplo sentido de celebração da vida e obra de Liceu e do Dia do Trabalhador, foi um dos destaques.

Novos paradigmas

Carlitos Vieira Dias esteve muito interventivo e com abordagens surpreendentes, muito porque algumas pessoas negam-se a aceitá-las ou estão dispostas a ouvir outras narrativas. Como músico, Carlitos é cuidadoso e diz que carece de investigação assumir que o Samba teve origem no Semba. Mas a grande quebra de paradigma que o guitarrista impôs foi quando demonstrou, com uns toques de violão, o distanciamento rítmico do Semba e da Massemba, revelando que do pai ouviu que a Kazukuta está na base do Semba, que apenas passou a chamar-se assim porque foi uma forma dos assimilados apropriarem-se do ritmo, dando-lhe uma outra “levada” e afastando-se do rótulo “kazukuteiro”, como eram tratados os africanos que não pertenciam a esta classe de colonizados.
Num dia muito musical, Kizua Gourgel falou da influência de Liceu Vieira Dias na música moderna angolana. O artista, que tem recuperado temas do reportório do histórico grupo, defendeu a inclusão das sonoridades dissonantes na música angolana, sustentando que as mesmas, quando bem doseadas, não fazem mal e estão presentes em todos os géneros musicais. Um exemplo de artistas nacionais que recorrem a estes acordes são Filipe Mukenga, Ruy e André Mingas, Carlos Lopes, Filipe Zau, assim como os jovens que apostam em fusões musicais.
Importa salientar que Carlitos Vieira Dias disse que, nos últimos anos, o seu pai foi introduzindo estas notas em temas seus, numa altura que o piano e a guitarra voltaram a fazer parte da sua vida. Carlitos, depois de tocar nas mais emblemáticas formações da música angolana de raiz, incluindo os Ngola Ritmos, tem sido um dos músicos mais profícuos no uso dos acordes dissonantes.

Abordagem científica

O terceiro dia ficou reservado para os conferencistas, que, no período na manhã, abordaram o painel “A música de Liceu Vieira Dias e do Ngola Ritmos e a história social angolana”, que foi moderado por Jorge Gumbe, artista plástico e director do ISART-Instituto Superior de Artes. Esse painel contou com a participação da americana Marissa Moorman, do brasileiro Washington Nascimento e do angolano Jomo Fortunato, respectivamente com as propostas temáticas “Liceu Vieira Dias e a sua acção musical”, “O papel da música na construção da Nação” e a “A materialização do Semba”.
Os conferencistas internacionais, ambos historiadores, prenderam-se à história social angolana, valorizando a importância dos espaços físicos e do Kimbundu como língua franca. A elite assimilada africana e sua influência no nacionalismo angolano, dentre outros aspectos ligado à música e à construção da Nação foram tópicos discorridos por Marissa Moorman, autora de um livro sobre o assunto.
O brasileiroWashington Nascimento, ainda na mesma linha, afirmou que durante as suas pesquisas, mesmo quando não estava interessado na questão musical, Liceu Vieira Dias era uma personagem-chave. O interesse na figura alargou-se depois de tomar contacto com o livro dos jornalistas angolanos Drumond Jaime e Hélder Barber,onde entrevistam actores políticos que citaram Liceu como personagem central, falaram da sua dimensão política e do sentimento de afectividade por ele. Nascimento uma apresentação cronológica dos ritmos brasileiros, em paralelo relacionando as duas sociedades, e terminou com um trecho de uma novela brasileira onde “Birim Birim” é entoada numa cerimónia fúnebre.
Jomo Fortunato retomou um texto seu publicado no Jornal de Angola há quase uma década, onde de forma historiográfica fala da renovação estética da música angolana. O crítico musical e um dos maiores investigadores da música popular angolana, teve de enfrentar um público que se mostrou convencido com a perspectiva apresentada por Carlitos Vieira Dias, relativamente à origem do Semba. Sempre mantendo que o seu ponto de partida é a Massemba e não a Kazukuta, Jomo Fortunato sustentou um debate acalorado, que teve de ser activamente moderado e “equilibrado” por Mário Rui Silva, outro pesquisador musical de créditos firmados, que alertou para a necessidade da questão ser levada à discussão num fórum de especialistas, com o uso da partitura musical e da tecnologia, para registar os sons.

Depoimentos ricos

A segunda parte dos debates consistiu numa mesa redonda, rica em depoimentos de figuras da sociedade civil e parentes. Podemos destacar as participações do nacionalista e juiz jubilado Rui Clinton, o arquitecto Troufa Real, o deputado Vicente Pinto de Andrade, o general Paulo Lara, o músico e realizador do programa radiofónico da RNA“Poeira no Quintal”, Dikambu, o compositor Soky dya Nzenze, o jornalista e autor de um livro sobre música angolana José Weza, o coordenador do evento, Nelson Pestana Bonavena, dentre outros, com contributos que ajudam a melhor compreender não apenas a obra e a música de Liceu Vieira Dias e do Ngola Ritmos, mas também aspectos periféricos da história sócio-cultural e da política nacional.
Depois dos dias dedicados aos debates, houve tempo para que Mário Rui Silva, com o seu violão, mostrar alguns dos temas que resultaram da pesquisa que realizou junto de Liceu. Na Liga Africana, no sábado, o guitarrista que depois de ter-se destacado na chamada música moderna fez a transposição para a música de raiz, não conteve as lágrimas de emoção ao cantar Ngola Ritmos, proporcionando um dos momentos mais fortes de todo o cenário. O domingo foi o dia dedicado à liturgia, com a realização de uma missa em memória de Liceu Vieira Dias e uma romaria ao Cemitério do Alto das Cruzes.
Um ponto alto foi a participação deMarissa Moorman, Soky dya Nzenze, José Weza e Bonavena no programa radiofónico “Conversa à Sombra da Mulemba”, comandado por Drumond Jaime e Raimundo Salvador e emitido nas tardes dominicais na Rádio Ecclesia. Outro ponto alto foi a sentada musical no Largo do Cruzeiro.
Os dois momentos foram igualmente férteis em revelações. No programa radiofónico a conversa teve detalhes antes poucos explorados, com destaque para a formação dos Ngola Ritmos em paralelo com os movimentos políticos que precederam a criação do MPLA, assim como a inclusão de um elemento pouco citado, o nacionalista Matias Miguéis, que esteve na linha da frente desta formação artística e teve uma vida totalmente entregue ao nacionalismo angolano.
A questão da música de intervenção foi debatida. Sem rodeios falou-se do 27 de Maio de 1977, sendo esta parte da discussão marcada pela frase de Soky dya Nzenza: “Com a morte dos elementos do Trio da Saudade [David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes] perdeu-se parte do legado de Liceu”.
Ainda houve tempo para, no penúltimo dia, no Salão Nobre da UCAN, realizar-se uma conversa com Amadeu Amorim, que resultou numa discussão acalorada com a participação dos estudantes e outros interessados. Carlitos Vieira Dias manteve o seu posicionamento quanto à origem do Semba e discordou de Amadeu Amorim, defendendo que resultou de vários estilos. As projecções dos filmes “O Ritmo do Ngola Ritmos”, de António Ole, que durante muito tempo foi censurado, e “O lendário Tio Liceu”, de Jorge António, assim como a apresentação do livro “Ritmos da Luta”, da autoria de Fernando Carlos, foram actividades que aconteceram nesta semana comemorativa, que encerrou com uma Gala no Cine Tropical.

Gala a fechar

A Gala, diferente dos eventos anteriores onde as cadeiras vazias dominavam a cena, teve uma forte presença dos convidados. A noite de festa contou com a participação de Dumay Missete, que em Kimbundu e na companhia de Quelinha Van-Dúnem, declamou o poema“Içar da Bandeira”. Nguami Maka foi outra proposta, assim como uma formação artística liderada por Lito Graça, com inclusão de Zé Manico e Dina Santos, interpretou canções recriadas pelo Ngola Ritmos.
Carlitos Vieira Dias e Mário Rui Silva também mostraram o seu potencial e o que carregam em si do acervo musical do homenageado. A noite fechou com uma simbiose entre todos os músicos participantes a reviverem em palco o Quintal do Tio Liceu, emocionando toda a plateia, a partir da qual Ferdinando Vieira Dias, filho mais-novo do Tio Liceu, acompanhou o fecho das actividades de homenagem a uma das grandes figuras angolanas do século XX.

JA

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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