Angola

EPAL fornece água imprópria para consumo humano – Paulo de Carvalho

Depois de meses de reclamação, dignou-se finalmente um responsável da EPAL dirigir-se ao Telejornal da TPA, para prestar esclarecimento a respeito da qualidade da água que essa empresa pública fornece aos habitantes da cidade de Luanda e arredores.

EPAL fornece água imprópria para consumo humano – Paulo de Carvalho
EPAL fornece água imprópria para consumo humano – Paulo de Carvalho

Não vi o noticiário nesse dia, por razões de trabalho. Mas quem viu garante ter-se tratado do Presidente do Conselho de Administração da empresa.

Quanto ao que esse responsável disse, ouvi declarações suas pelo WhatsApp, que me deixaram preocupado.

Em primeiro lugar, deu a entender que o mais importante para si é a qualidade da água que sai da empresa, quando em boa verdade a EPAL responde pela qualidade da água que chega ao consumidor. Aquilo em que essa água se transforma, já no perímetro do consumidor, deixa (em princípio) de ser de responsabilidade da EPAL.

Ou seja, se a água chegou potável a minha casae se o problema residir na canalização da minha casa, só neste caso a responsabilidade não é da EPAL.

Em segundo lugar, afirmou que o facto de a água estar turva não tem de implicar que seja imprópria para consumo humano.

Outra inverdade. Recordo-me, quando criança, que havia nessa altura o costume de filtrar a água para beber, mas para tudo o resto a água que chegava às nossas casas era consumida sem qualquer problema.

Mais tarde, devido ao aumento das impurezas e à presença de bactérias, foi sendo recomendada a fervura da água para beber. Mas a água que recebíamos continuava a poder ser consumida para tudo o resto. Não era turva, mas ainda assim era filtrada em casa.

Até hoje, nunca e em momento algum me recordo de termos recebido em casa água que faz séria concorrência ao sumo de múcua, chegando mesmo a ser mais escura que este.

Portanto, alguma coisa tem de estar mal com a água turva que recebemos em casa – primeiro no Kilamba, depois noutros locais da cidade. E certamente que não se trata apenas de areia, ou de condutas sujas, como disse o funcionário público aos microfones da TPA.

Desde que as denúncias começaram a surgir, que temos indagado vários consumidores a respeito.

Graças a isso, chegámos à fala com um consumidor avisado, que depois de a esposa e uma outra familiar terem adoecido supostamente devido à água consumida, decidiu averiguar o que se passava. Isto ainda no ano passado.

A esposa teve uma infecção urinária e a jovem familiar, que esteve de férias em Luanda, adoeceu com diarreia aguda e fez análises em Londres após o regresso. Foi até forçada a deixar de trabalhar alguns dias, por a bactéria detectada ser contagiosa.

Em Setembro de 2018, o referido consumidor, que reside no município de Luanda, decidiu então contactar o Instituto Nacional de Investigação em Saúde (INIS), órgão adstrito ao Ministério da Saúde, cujo Departamento de Higiene para Prevenção Sanitária faz (dentre outras coisas) análises a produtos que possam pôr em perido a saúde humana.

A recolha do produto foi feita pelo próprio INIS, em quatro locais, a saber:

a) directamente do cano da EPAL que abastece o tanque de água de casa;
b) no tanque de água de casa (que fica fechado com cadeado, mas onde foram detectadas fezes);
c) na torneira do quintal de casa;
d) na torneira da cozinha de casa.

A recolha e o acondicionamento foram feitos em garrafa plástica de 500 ml., com “aspecto normal”.
Os resultados são apresentados nos 4 anexos, exactamente na mesma ordem em que se referem acima os locais de recolha.

Eis os dados gerais obtidos, com data de recepção de 11 de Setembro de 2019, estando o produto identificado como “água de consumo humano”:

a) água de cor acastanhada (nos três primeiros locais) ou incolar (na cozinha, já depois de tratada);
b) água com cheiro (nos três primeiros locais) ou inodora (na cozinha, já depois de tratada);
c) água com aspecto turvo, com partículas (nos três primeiros locais) ou límpida (na cozinha, já depois de tratada);

No que respeita às análises microbiológicas, os dados apresentados demonstram tratar-se de água imprópria para consumo humano ou, como se diz nos 4 relatórios, a amostra é considerada “não conforme”.

Logo à chegada a casa, ainda na canalização da EPAL, a água contém microrganismos acima do valor máximo admissível (34 detectados, para até 20 admissíveis), para além de (para uma admissibilidade de zero):

a) coliformes – 35,
b) bactéria escherichia coli – 35.
Tal como era previsível, os níveis de concentração desta bactéria vão aumentando, consoante a progressão da água, atingindo valores “incontáveis” já a partir do tanque de água. Trata-se da bactéria responsável por infecções urinárias e intestinais, e que pode também causar peritonite e meningite.

Passa depois a haver enterococus intestinais, a níveis “incontáveis” à entrada em casa. Esta bactéria é responsável por uma série de doenças do corpo humano, sendo algumas delas as doenças diarreicas, peritonite, pneumonia ou meningite.

Em conclusão, pode dizer-se que a água distribuída pela EPAL é imprópria para consumo humano, causando infecções urinárias, doenças diarreicas e várias outras enfermidades. Não é água potável, pois tem cheiro, é acastanhada e turva (ao invés de ser inodora, incolor e insípida, como deveria). Para além disso, vem com fezes, que transportam consigo várias bactérias.

Isto foi detectado em Setembro de ano passado (há exactamente 8 meses, portanto), tendo o consumidor escrito ao PCA da EPAL no dia 25 do mesmo mês (a carta deu entrada na empresa de águas, no dia 1 de Outubro de 2018).

Pois até ao momento não apenas a EPAL não respondeu à carta do consumidor, nem enviou a sua casa qualquer técnico, ao menos para recolha de amostras de água, para a EPAL fazer as suas próprias análises do produto que distribui.

Para além de isso configurar um mau serviço público, os responsáveis da EPAL demonstram elevada dose de irresponsabilidade, de modo que se recomenda a quem de direito que se tomem as medidas correctivas que se impõem.

Não podemos continuar a permitir que pessoas irresponsáveis continuem a tomar decisões que põem em risco a vida e a saúde dos cidadãos. A água que chega a nossas casas tem de ser apropriada para consumo humano e a EPAL é obrigada a garantir isso, informando o consumidor dos níveis toxicológicos e microbiológicos desse produto, à chegada a casa do consumidor. Sem rodeios, sem subterfúgios e sem evasivas.

Paulo de Carvalho
11/5/2019
WhatsApp

Fonte: Club-k.net

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