Angola

Turismo contra a pobreza

Turismo contra a pobreza
Turismo contra a pobreza

Sousa Jamba

Estava a escutar o noticiário aqui na Aldeia Camela Amões, onde estou há meses, quando ouvi que Angola e São Tomé e Príncipe pretendem cooperar em vários sectores — incluindo o turismo. Nos meses que estou aqui na Camela Amões, há vezes que sinto que existem duas Angola distintas: o país onde, permanentemente, as coisas vão acontecer e o outro, onde as coisas acontecem.

Vejamos o turismo. Há duas localidades no mundo onde adoro ficar quando não estou em Jacksonville, Florida, nos Estados Unidos: cá na Aldeia Camela Amões, que também é a área de que sou oriundo, e São Tomé. Em São Tomé, adoro estar nos chalés do meu amigo, o franco-camaronês Yves Peladieu, que tem chalés excepcionais. Um dos chalés em que adoro ficar está à beira-mar; o Yves construiu algo que dá a ilusão de se estar num cruzeiro, mas ao mesmo tempo de se estar no meio de uma floresta. O Yves tem, até, uma casa que está no topo de uma árvore; ir para vários quartos desta árvore dá a sensação de estar em vários ramos.
O que os chalés de Yves Peladieu têm em comum com a Camela Amões é que os empresários criaram um meio ambiente que atrai turistas. Aqui na Camela Amões, nos últimos meses, vi gente vinda dos Estados Unidos, Nigéria, Escócia, Egipto, Rwanda, Eritreia, etc, porque há condições na aldeia que atraem excursionistas dos nossos dias. Uma delas é a comunicação. Nos chalés do Yves, a Internet é rapidíssima. Lá, eu estou em contacto com o resto do mundo como se não tivesse saído da Florida. Estou a escrever esta crónica aqui na Camela, com a famosa cordilheira de Lumbanganda lá no fundo. Logo que concluir a crónica, vou despachá-la usando a Internet, graças a uma antena de comunicações que existe no fim da aldeia. Depois irei apreciar o maravilhoso pôr do sol por cá; à noite, vou escutando os gorjeios dos pássaros e insectos. Facilitar com que Segunda Amões reproduza várias Camelas pelo país, seria uma grande resposta para dar um grande impulso ao sector turístico do país. Que não haja nenhuma dúvida sobre este facto.
Em São Tomé, as empregadas que cuidam os chalés são senhoras locais, mas que operam com um profissionalismo do Primeiro Mundo. O Yves Peladieu dá muita importância à formação. Aqui na Aldeia Camela Amões, já vi jovens vindas da aldeia, que nunca andaram na Macon, que até não conhecem o Huambo, preparar os quartos em casas que são alugadas para o turismo rural como se tivessem sido treinadas num hotel de cinco estrelas de Orlando, Florida, uma das cidades nos Estados Unidos que vive do turismo. Também já vi jovens vindas de aldeias nos arredores da aldeia Camela Amões a serem transformadas em cozinheiras que produzem pratos que fizeram com que o Yves Peladieu entrasse em contacto comigo para saber mais sobre o aspecto culinário da Aldeia Camela Amões.
O empresário Segunda Amões, ao apostar no turismo como um dos sectores que iria ajudar na eliminação da pobreza, sabia que não se tratava de algo fácil. Havia, por exemplo, a necessidade de estar em sincronia com a maioria da população. Tive o privilégio de estar presente em várias sessões em que o Segunda estava a tentar partilhar o sonho do que seria a Aldeia Camela Amões às populações. Aqui era preciso alguém que conhecia muito bem aquelas comunidades. Depois, havia, também, a forma de trabalho do Segunda; ele não hesitava em sujar as mãos. E ele estava sempre em comunicação com os trabalhadores — sabendo os seus desafios, encorajando a sua criatividade, garantindo que não houvesse desvios da estratégia que estava por trás do projecto.
Recentemente, cá na Aldeia Camela Amões, fomos visitados pela equipa Sub-20 do 1º de Agosto. Os jovens foram para um dos jangos por cá, onde lhes foi servido o pequeno almoço. Notei que as casas de banho dos jangos estavam perfeitíssimas — como se estivéssemos na Suíça. Fui felicitar os empregados que cuidam da limpeza. Eles disseram-me que era seu dever manter casas de banho do Primeiro Mundo. Cá estava um exemplo de como as pessoas tinham imenso orgulho do projecto. Em São Tomé, nos chalés do Yves Peladieu noto o mesmo orgulho nos trabalhadores quando me vêem a tirar fotos por todo o lado.
Em São Tomé, quase existe um consenso que o futuro está no turismo — e não no petróleo, que traz os seus imensos problemas. É por isso que existe uma infra-estrutura básica no arquipélago que facilita o turismo — a facilitação na concessão de vistos, por exemplo; a garantia da própria segurança dos turistas. Em Angola, pode-se começar com o reforço do turismo doméstico. Há angolanos, com poder económico, que estariam prontos a gastar dinheiro cá no interior. Mesmo nos tempos normais, uma grande desvantagem que tenho notado aqui na Aldeia Camela Amões tem sido a falta de uma bomba de gasolina. Temos tido gente vinda de várias partes do país, mas que fica altamente inquieta porque as únicas bombas de abastecimento estão no Bailundo ou Katchiungo.
O turismo cá na Aldeia Camela Amões está a atingir uma escala, que já se vêem famílias inteiras a saírem do tipo de pobreza típica das áreas rurais. Os turistas querem comida fresca; outros querem ver as paisagens, os monumentos culturais, etc. Outros só querem é mesmo vir para a Camela Amões, mandar matar um porco ou cabrito, e passar o tempo saboreando as carnes bebendo umas cervejas ou vinho ao lado dos vários lagos existentes por cá. Recentemente, apanhei um voo (de Luanda para o Huambo) em que estava numa altitude em que pude ver a vastidão e imensas potencialidades turísticas do país. Eu imaginava várias aldeias Camela Amões pelo país mandando profundamente as vidas dos angolanos. Não há necessidade de inventar a roda: o empresário Segunda Amões, ao construir esta aldeia, que está a tornar-se num ponto de referência no continente africano (estamos à espera de uma equipa de ugandeses que querem beber da experiência de construção da Camela), mostrou como a pobreza pode ser reduzida.

JA

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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