Desporto

Ronaldo é eterno

A seleção nacional começa esta sexta-feira (19h45, contra a Ucrânia) a campanha de apuramento para o Euro2020 e isto coincide com o regresso de Cristiano Ronaldo, o capitão português que já cruzou várias gerações de futebolistas desde que se estreou por Portugal contra o Cazaquistão, em Chaves, em 2003. De então até agora, CR7 passou pela Geração de Ouro, os homens da Champions do FC Porto de 2004, o baby boom do Sporting e enquadra, hoje, uma nova fornada de talentos nascidos no pós-Grunge

Tribuna© Henri Szwarc Tribuna

Os flashes andam todos à volta do mesmo assunto: o regresso de Cristiano Ronaldo e a aventura imberbe de João Félix. Um já conhece o jogo de cor, já calcou muitos jardins e marca golos com uma facilidade que não lembra a ninguém; o outro, comparado a João Pinto por alguns saudosistas, diz que é parecido com Kaká e quer “ganhar todas” as Bolas de Ouro.

O capitão custou 100 milhões quando a teoria sugere que já deveria estar a caminhar para o fim da carreira; o garoto diz que se valer dois milhões “está bom”. As mochilas têm pesos completamente diferentes, mas a ambição destes rapazes, nascidos em 1985 e 1999, é a mesma: conquistar mais um lugar no Campeonato da Europa.

A história é boa, claro. Basta começar por aqui: quando Cristiano Ronaldo foi chamado pela primeira vez por Scolari-coloca-a-bandeira-na-janela-pra-mim, Félix tinha apenas três anos. Cristiano foi suplente utilizado na vitória por 1-0 contra o Cazaquistão, um particular jogado em Chaves, em agosto de 2003.

Só há dois futebolistas sobreviventes dessa convocatória: Cristiano e Bruno Vale, guarda-redes do Apollon Limassol. De resto, os jogadores deram lugar a treinadores de Primeira Divisão e seleção jovem, dirigentes e até comentadores de TV.

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Naquela altura Cristiano tinha 18 anos e, na mesma semana da estreia pela seleção, assinou pelo Manchester United. Portugal preparava então a presença no Euro 2004, que se jogaria em casa. Os portugueses, orientados por um brasileiro campeão do mundo, sonhavam com melhorar as marcas de 84 e 2000 (meias-finais).

Desde esse jogo com o Cazaquistão, que Simão Sabrosa resolveu, passaram 5693 dias. Ou, se quiserem, 15 anos e sete meses. Haverá casos de longevidade desta natureza na história da seleção portuguesa? “O maior caso é o de Damas, com 17 anos e três meses. Segue-se o Jordão, com 16 anos e 10 meses. Só depois é que vem o Ronaldo, que ultrapassou o Figo na altura do Mundial 2018”, conta Rui Miguel Tovar, jornalista e escritor.

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Enquanto Ronaldo continua a ser a figura incontestável de uma seleção que até é campeã da Europa, estatuto que nunca mais largou desde o abandono de Luís Figo, “Damas viveu anos na sombra de Bento e o Jordão teve duas lesões muito tramadas, que o arrumaram meses e meses.”

Lá fora, o primeiro nome que ocorre a Tovar é Lothar Matthäus, o alemão com cara de poucos amigos que jogou pela Mannschaft entre 1980 e 2000.

Cruzar gerações

A longa vida de Cristiano explica-se assim: começou a jogar com alguns senhores da ‘Geração de Ouro’, magicou jogadas com a rapaziada que levou o FC Porto à vitória na Champions em 2004, e começou a ver no balneário miúdos nascidos na década de 90. Mais: no Mundial 2010, praticamente sete anos depois de se ter estreado, só havia quatro jogadores mais novos do que CR7 e quando levantou o caneco de campeão europeu, em Paris, Ronaldo era o sétimo jogador mais velho.

Podemos explicar muita coisa à boleia da história do avançado da Juventus. “Por falar em ir à boleia, lembro-me sempre do Jordão”, continua Rui Miguel Tovar. “Começou a jogar com Eusébio, Vítor Baptista, Nené e Artur Jorge e acabou com Fernando Gomes e Futre. Pelo meio, Chalana, Carlos Manuel, Diamantino, enfim.”

Cristiano começou com Fernando Couto (nascido em 1969), Figo (1972) e Rui Costa (1972) e, se Fernando Santos entender, agora terá ao lado meninos como Diogo Jota (1996), Gonçalo Guedes (1996), Rúben Dias (1997), Rúben Neves (1997) e João Félix (1999). Pelo meio, houve Petit (1976), Fernando Meira (1978), Raúl Meireles (1983), Miguel Veloso (1986) e tantos outros.

A fita do tempo de CR na seleção parece eterna.

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“A melhor geração na era Ronaldo foi a do Mundial 2006”, aponta Tovar. “Havia figuras deslumbrantes a nível mundial, como Figo e Deco, a espinha do FC Porto campeão europeu, com Maniche em grande e Costinha nem tanto, um 9 de eleição, Pauleta, e muitos suplentes de luxo. E é assim que eliminamos a Holanda nos oitavos: sem Ronaldo (lesionado antes dos 10’) nem Deco, que foi expulso. E depois eliminámos a Inglaterra sem Deco nos quartos. Até parecia fácil…”

A época dourada

Depois das gloriosas jornadas dos Magriços, em 66, e dos bigodes torcidos em 84, Portugal bateu com estrondo com a cabeça no teto, em julho de 2016, quando Eder inventou um novo feriado no nosso calendário. Esse estatuto, de realeza, vai durar pelo menos até ao verão de 2020.

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Por causa disso, vivemos tempos de acalmia interior. Há uma convicção diferente: esta seleção pode competir contra todos. Alemanha, Itália e Inglaterra já não se escrevem ‘ALEMANHA, ITÁLIA E INGLATERRA’. O único desassossego será, quem sabe, as dores de crescimento de quem já ganha: a qualidade do futebol chega?

O futuro e o dinheiro

Uma coisa é certa: o século XXI tem sido dourado da seleção nacional, que não falha uma presença numa grande competição desde 2000. Ronaldo chegou pouco depois. É coincidência?

“Diria que a federação melhorou bastante os quadros humanos. Antes era uma balbúrdia, culpa de uma rivalidade de jogadores norte/sul e um dirigismo amador e mesquinho”, explica Tovar. “A seleção formou mais e melhores jogadores à boleia de José Augusto e Carlos Queiroz nos anos 80. E a própria UEFA e FIFA alargaram tanto o Europeu como o Mundial em número de equipas. Antigamente, ia só o primeiro classificado de cada grupo; agora até o melhor terceiro vai. Depois, há o dinheiro à volta do futebol. Antes era um desporto, agora é um produto, um negócio. Como tal, muito dinheiro e os melhores ganham mais, como na Liga dos Campeões. Como Portugal faz parte dos melhores desde 2000, é só encaixar.”

Tribuna© PATRICIA DE MELO MOREIRA/GETTY IMAGES Tribuna

Os tais rapazes que Rui Miguel Tovar tanto gosta receberam Cristiano Ronaldo naquela noite de verão em Chaves pela primeira vez há quase 16 anos. Terá esta seleção atual a mesma mestria para, guiando e não sufocando, deixar entrar o talento jovem? “O talento, compreendo, pode ser potenciado pelas companhias e Ronaldo beneficiou de Figos, Rui Costas, Baías e Coutos, mas não consigo pensar assim. É como aquele slogan do Kennedy: ‘Em vez de perguntares o que a nação pode fazer por ti, pergunta-te o que podes fazer pela nação’. O Ronaldo adotou esse slogan. Se o grupo fosse fraco, Ronaldo seria o mais destacado; se o grupo fosse campeão europeu, Ronaldo seria também o rei”, explica.

E arruma assim a questão: “Dos anos 60 para cá, tivemos sempre jogadores para fazer dois Portugais bons, até nos anos 70 em que nunca fomos a nada, nem Euro nem Mundial (só à Minicopa em 72). Isto para dizer o quê? O talento sempre existiu, só que foi secado pela falta de infraestruturas profissionais, sociais e até emocionais da federação e até do país. Isto sem esquecer, atenção, a superioridade dos outros países, sobretudo do ponto de vista atlético. É que até aos anos 80, a diferença entre nós e os outros era bem simples: eles jogavam futebol científico, com régua e esquadro, e nós éramos mais aventureiros e artistas do toque”.

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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