Economia

Indústria do Petróleo e Gás procura por caminhos mais rentáveis

A Conferência Angola Oil & Gas 2019 reúne de hoje a quinta-feira, em Luanda, mil delegados oriundos de África, Estados Unidos, Eu-ropa e Médio Oriente a discutir a nova estrutura do sector do petróleo e gás em Angola e os caminhos para o estabelecimento de uma indústria mais competitiva e rentável.

Indústria do Petróleo e Gás procura por caminhos mais rentáveis
Indústria do Petróleo e Gás procura por caminhos mais rentáveis

Existem inúmeras oportunidades que podem ser criadas com um forte diálogo intercontinental
Fotografia: DR

O presidente de uma das instituições que organizam a conferência, a Câmara de Energia Africana (CAE), NJ Ayuk, considerou em declarações ao Jornal de Angola que o evento constitui uma oportunidade única de obter conhecimento aprofundado sobre a dinâmica actual do mercado e dos parceiros angolanos com vista a construir projectos de sucesso.
O presidente da Câmara de Energia Africana (CAE) definiu o encontro como “uma porta para todos os investidores e interessados em investir na indústria de petróleo e gás em Angola e um momento para redefinir estratégias para o sector em África”.
Na sua opinião, a Associação dos Países Produtores de Petróleo Africano (APPO), que organiza a conferência, desempenha um papel fundamental na construção de uma cooperação energética africana mais forte e crucial para desenvolver o mercado. “Existem inúmeras oportunidades que podem ser criadas com um forte diálogo energético africano, tanto a nível governamental e das empresas”, indicou.
Ao opinar sobre a dimensão africana da conferência, o investigador do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola (UCAN), José de Oliveira, considerou que este tipo de encontro, que junta empresas de petróleo nacionais e estrangeiras e representantes de companhias que ainda não trabalham no país, pode ajudar a resolver a problemática da conjuntura menos favorável da indústria em Angola e noutras partes.
NJ Ayuk chegou a declarar os países africanos que devem procurar em reuniões como a que inicia hoje em Luanda, as estratégias para elevar a produção de gás para níveis que ajudem a fornecer electricidade e outros recursos para mais de 1,2 mil milhões de habitantes do continente.
Para este especialista, os investidores e empresários africanos devem apostar no gás, que é o futuro das economias produtoras de petróleo.

Em véspera da expansão

O advogado e especialista em assuntos energéticos, NJ Ayuk olha para o mercado angolano pelas boas perspectivas de crescimento no domínio dos hidrocarbonetos, mas considera que a produção só deve aumentar dentro de três ou quatro anos. “Projectos recentes, que estão em andamento, devem conseguir suster o declínio da produção, mas levará alguns anos até que os níveis de produção realmente vejam um aumento”, acentuou.
Na sua opinião, o declínio das reservas de petróleo em Angola deve testemunhar uma tendência inversa, em função dos actuais investimentos e o apetite dos investidores pelas concessões petrolíferas. “Acredito que 2019 e 2020 serão fundamentais para o mercado angolano e, nesse sentido, estaremos atentos à resposta dos investidores e às reformas em andamento”, referiu.
O sector petrolífero de Angola ainda representa cerca de um terço do Produto Interno Bruto (PIB) e mais de 90 por cento das exportações, o que NJ Ayuk afirma ser uma vulnerabilidade, mas também uma oportunidade. “Os preços do petróleo estão agora relativamente estabilizados e as reformas actuais trazem estabilidade fiscal e macroeconómica em Angola. A melhor estratégia é alavancar o sector petrolífero para apoiar a recuperação económica e a diversificação”, disse.
O especialista reforça que as reformas em curso estão a traduzir-se numa indústria petrolífera angolana mais transparente e eficiente, à medida que o sector cresce e distribui as suas receitas para outros sectores da economia. “As maiores iniciativas que os países africanos podem adoptar para suas indústrias de petróleo e gás estão relacionadas com a importância ao conteúdo local”, defendeu.
Embora não se tenha uma previsão da produção até 2025, NJ Ayuk considera importante tornar o sector mais inclusivo e participativo, com maior abertura para a juventude e as mulheres. “O desenvolvimento de um forte conteúdo africano é o pilar para a construção de indústrias de energia sustentáveis que beneficiem todos, que apoiem o crescimento das pequenas empresas e estimulem o empreendedorismo”, avançou.
NJ Ayuk acredita que An-gola está no caminho certo, que implementou as reformas certas e obtendo capacidade para atrair e envolver investidores credíveis e capazes de gerar oportunidades de negócio para os empreendedores. “Angola, como o segundo maior produtor de petróleo de África, chama a atenção de outros mercados e tudo o que acontece aqui não passa despercebido”, acrescentou.
Para o responsável, Angola adoptou uma boa estratégia de reforma no sector petrolífero que se baseia na confiança dos investidores que deve ser clara e vinda do topo de liderança política do país. “O lançamento da estratégia de licenciamento de petróleo vem ao encontro das preocupações dos investidores que lidam com o processo”, contou.
Quanto a gestão da Sonangol, acentuou que as companhias petrolíferas africanas precisam ter um mandato mais definido e claro, concentrando-se nas principais áreas de negócios, considerando prejudicial as boas práticas de gestão quando as empresas acumulam papéis de entidade comercial e reguladora da indústria. “O Go-verno entendeu reestruturar a Sonangol retirando-lhe as suas responsabilidades de licenciamento, porque esse tipo de estrutura cria muitas ineficiências na boa governação e no funcionamento da indústria petrolífera lo-cal”, disse.

Agenda global

De acordo com o programa, ao qual o Jornal de Angola, o presidente executivo da África Oil and Power, Guillaume Doane, faz hoje a abertura do primeiro painel da conferência com o tema “A nova dinâmica global do petróleo e gás”, onde participam ministros dos vários sectores da economia angolana e de países da região.
Está prevista a participação dos ministros dos Recursos Minerais e Petróleos, Diamantino Azevedo, do Petróleo do Sudão do Sul, Ezekiel Gatkuoth, e de Minas e Hidrocarbonetos da Guiné Equatorial, Gabriel Obiang Lima.
Para este tema, que en-volve a indústria petrolífera mundial, são esperados pronunciamentos dos ministros dos Petróleos do Niger, Foumakouye Gado, e das Obras Públicas, Infra-estruturas, Recursos Naturais e Meio Ambiente de São Tomé e Príncipe, Osvaldo Abreu, bem como o secretário-geral do Fórum Internacional de Energia, Sun Xiansheng.
É esperada uma intervenção do presidente executivo da petrolífera francesa Total, Patrik Pouyanné, sobre temas ligados à operação das companhias internacionais de petróleo em Angola.
O papel das mulheres na indústria energética vai ser apresentado pela embaixadora do Reino Unido em Angola, Jéssica Hand, e a representante da ExxonMobil, Pam Darwin, além de prelectoras de empresas petrolíferas com operações em Angola.
No programa, está preconizada a discussão de temas como “A nova estratégia do Executivo para o sector do petróleo e gás”, “Novas regras dos concursos de licitação de blocos petrolíferos e o papel da nova Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis” e “A reestruturação do modelo de upstream”.
Amanhã, estão previstos debates sobre “O sector financeiro e cambial e a indústria de petróleo e gás em Angola”, com discussões lançadas por representantes da Sonangol, Sahara Energy International e Puma Energy.
A organização considera que o evento, que decorre no Centro de Convenções de Talatona, assinala o início de uma nova era do sector do petróleo e gás, com o anúncio do concurso de licitação de blocos petrolíferos pela Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis.
Neste colóquio vão à debate o processo de regeneração da Sonangol, o mercado do gás natural e as oportunidades de investimento e participação de empreendedores angolanos.

Projecção orçamental reflecte a incerteza

A decisão do Governo an-golano de rever em baixa a projecção orçamental do preço do petroleo, de 68 para 55 dólares por barril é considerada pelo presidente da CAE como “cautelosa e realista”.
A revisão do orçamento é determinante para “optar pelo seguro em vez de remediar”, prosseguiu NJ Ayuk, acrescentando que se afigura “inteligente nas condições actuais do mercado”, onde impera “a incerteza sobre as reservas norte-americanas e a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China”.
Para o investigador do Centro de Estudos da UCAN, as questões da incerteza também são determinantes, porquanto o alargamento das sanções dos Estados Unidos aos países que negoceiam com o Irão “complica um pouco o equilíbrio do mercado”.
“É previsível ha-ver instabilidade de preços enquanto du-rar o crescimento da produção dos Estados Unidos e o barril das águas profundas ser o barril marginal”, apontou.
Na sua opinião, se o aumento das produções dos Estados Unidos, Brasil e Rússia não forem suficientes para manter o merca-do internacional devidamente abastecido pelos países que integram a Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) com capacidade disponível como a Arábia Saudita, Emirados e Kuwait, a intenção deve ser aumentar as suas exportações.
José de Oliveira afirma que o Executivo podia adoptar, até, um preço estimado de 60 dólares por barril, mas entende se o preço médio do barril for superior ao orçamentado, a aprovação foi justa, uma vez que existe dívida pública para pagar.
“A receita orçamental está relativamente estável, embora com diferenças de volume entre trimestres, fruto das oscilações dos preços do barril no mercado internacional. Não sabemos o que vai acontecer no segundo semestre, pois os preços vão depender muito das decisões que a OPEP vai tomar em relação aos volumes de produção no final de Junho”, indicou.
Na sua opinião, se a OPEP mantiver o mercado equilibrado, o preço do barril vai estar entre 65 e 75 dólares, caso contrário, pode-se assistir abaixo dos 60 por algum tempo.

Presidente da ANPG revela medidas para reverter declínio

A produção angolana de petróleo, com uma queda média de 400 mil barris por dia (bpd) ao longo dos últimos quatro anos, pode recuperar com medidas para conter o declínio como a redução das paragens não planificadas, aproveitamento de recursos adicionais em campos maduros, novas descobertas em áreas em desenvolvimento e em campos marginais, onde a produção passou a beneficiar de incentivos legais.
Essas medidas são apresentadas no Angola Oil and Gas 2019, uma conferência que se realiza de hoje a quinta-feira, em Luanda, organizada pela associação continental Africa Power and Oil, foram reveladas pelo presidente do Conselho de Administração da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANPG) durante uma conferência consagrada à “Auto-sustentabilidade da indústria petrolífera angolana: desafios e oportunidades”, sexta-feira, em Luanda.
De acordo com Paulino Jerónimo, a produção angolana, de 1,859 milhões de bpd em 2015, registou perdas de entre dez e 15 por cento, caindo para uma média de 1,400 milhões de bpd devido às paragens não planificadas.
No dia 23 de Maio, apontou o presidente da ANPG para ilustrar a situação, a produção angolana de 1,415 milhões de bpd tinha um défice de 169 mil barris de-vido a paragens, pelo que a solução para essa questão reside na melhoria da planificação da manutenção preventiva.
O aproveitamento dos recursos adicionais em campos maduros, prosseguiu, começou quando a Sonangol ainda era concessionária de hidrocarbonetos, tendo como prática mais evidente a operação da Esso no Bloco 15.
O estabelecimento de novas áreas de desenvolvimento, outra medida indicada por Paulino Jerónimo, tem a vantagem de tais zonas já terem implantadas instalações petrolíferas, o que, em caso de descoberta, conduz a um início mais rápido da produção.
As descobertas em campos marginais, antes considerados inviáveis, ajudam a inverter o quadro de declínio depois de um decreto presidencial que concede incentivos fiscais e contratuais, estando-se a falar em mais de quatro mil milhões de barris por produzir em campos marginais.

Novos projectos

O presidente do Conselho de Administração da ANPG anunciou o arranque de um processo de desenvolvimento das primeiras descobertas marginais com a norte-americana Chevron, no Bloco 0, o qual, em caso de sucesso, dá lugar a dez ou 15 projectos novos.
Se dentro de dois ou três anos, essas operações forem bem-sucedidas, Angola passa a contar com 30 ou 40 novos projectos de produção em descobertas marginais, estimou Paulino Jerónimo.
As medidas anunciadas vão muito mais além, incluindo a licitação de 55 concessões, entre os quais nove blocos da Bacia do Namibe, conceder direito de exploração de gás a empresas que descobrem as reservas e a partilha de meios pelos operadores, para maximizar os custos.

JA

Tags
Mostrar Mais

Artigos Relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Back to top button