“País tem de apostar na construção de refinarias de capacidade média” Nicolau Gama

Nicolau Dongala Álvaro Gama é dos poucos angolanos, enquanto estudante no exterior, a receber um diploma vermelho de uma instituição académica. Mereceu a distinção pela Universidade Técnica Estatal de Petróleos de Bashkiria, na Federação Russa. Atento, na sua recente visita oficial àquele país o Presidente da República, João Lourenço, concedeu-lhe um diploma de mérito. Jovem dinâmico e ambicioso, foi um dos mentores da primeira sala temática que reuniu académicos da Rússia, África e de vários países da Europa. Conhecido no seio da comunidade africana na Rússia como o “Génio da Refinação de Petróleo”, Nicolau Gama fala, na entrevista que concedeu ao Jornal de Angola, da sua trajectória académica, dos desafios impostos por estar a trabalhar numa das maiores empresas petroquímicas daquele país, analisa a recente crise dos combustíveis em Angola e faz as suas sugestões

“País tem de apostar na construção de refinarias de capacidade média” Nicolau Gama
“País tem de apostar na construção de refinarias de capacidade média” Nicolau Gama

Engenheiro deseja contribuir para o desenvolvimento do país
Fotografia: Cedida

Desde quando é que surgiu a sua paixão pela engenharia de petróleos?

O interesse pela engenharia de petróleos surgiu quando eu era ainda estudante do ensino médio e via sempre convites e anúncios das multinacionais petrolíferas British Petroleum (BP) e Total sobre recrutamentos. Naquele momento comecei a interessar-me por petróleos. Mas torna-se uma paixão quando começo a falar do capítulo sobre hidrocarbonetos e a ter conhecimento sobre a sua origem e a composição dos derivados do petróleo.

Nesta caminhada académica terá sido influenciado por algum familiar ou amigo próximo?

A minha grande influência, desde o ensino primário, foram os meus pais. Eles fizeram sempre tudo para que eu e os meus irmãos tivéssemos uma formação condigna. O meu pai, pessoalmente, sempre foi para mim um grande mentor e conselheiro. Também tive apoio de colegas, concerteza, que com o tempo tornaram-se companheiros de luta e hoje os tenho como irmãos.

Fale-nos da sua trajectória académica em Angola e das circunstâncias da sua ida para a Rússia?

A minha trajectória académica começa nas escolas do Cazenga, desde o ensino primário. Estudei na Escola 706 (conhecida por muitos como 230) e depois na Óscar Ribas (escola do ensino secundário) e no IMNE do Cazenga. Nessa época também começa a minha jornada como bolseiro, exactamente no programa criado pela Embaixada dos Estados Unidos da América em Angola, juntamente com a Chevron, onde foram seleccionados os melhores alunos de língua inglesa a nível das escolas médias de Luanda. A finalidade era fazer o curso completo de inglês no Instituto de Línguas. Estudar na Rússia foi inicialmente decisão dos meus pais, porque eles já tinham referências da formação na Rússia, por terem familiares que também lá se formaram, no tempo da União Soviética. Em Novembro de 2011 deixei a pátria querida, rumo a uma nova jornada. Foi difícil no princípio, porque chegamos exactamente no início do Inverno e tínhamos de nos adaptar primeiramente ao clima e depois conhecer a nova cultura e aprender uma das línguas mais difíceis do mundo.

De que forma se atingem tão bons resultados, como os seus?

Na minha opinião, os bons resultados são atingidos quando nos focamos em ser produtivos e se acrescentarmos paciência. Então, conseguiremos não somente meros resultados mas bons resultados e, concerteza, ter também uma mente aberta disposta a aprender sempre.

Quais são os segredos do seu sucesso alcançado na Rússia?
Não tem segredo nenhum, muito menos uma fórmula especial. Eu simplesmente tinha um objectivo a cumprir na Rússia, foquei-me nesse objectivo, e quando algo não dava certo tentava de novo, mas de uma outra forma, até conseguir alcançar a meta. Tive muitas quedas e sei que ainda terei, mas eu sempre me apoiava na seguinte frase: “Se não tenho ainda uma resposta definitiva, quer dizer que ainda não é o fim. Se esta porta se fechou, quer dizer que há uma outra entrada que é melhor”.

O petróleo é um recurso mineral não renovável. Não está preocupado com isso? 

Há muitos anos que se vem dizendo que as reservas do petróleo estão a terminar, mas actualmente descobre-se mais e mais novas reservas, portanto, acho que não é agora o tempo de ficar preocupado.

A sua permanência na Rússia na qualidade de estudante levou-o a estar ligado ao associativismo estudantil. Fale-nos do seu mandato como vice-presidente da

Associação dos Estudantes Africanos na Bashkiria, Rússia?

Para mim foi um dos melhores exercícios de liderança que tive até agora. O nosso mandato teve os seus altos e baixos, porque não foi fácil guiar não só estudantes angolanos mas também de outros países de África, com idiomas e culturas diferentes. Mas posso dizer que foi uma boa experiência, porque no final de tudo o nosso objectivo foi um só: levar o nome de África aos quatro cantos da República da Bashkiria (Rússia). Tínhamos no nosso programa principal a organização de actividades de carácter filantrópico e académico, com destaque para a organização do 1º e do 2º fórum académico de estudantes africanos, onde debatemos temas virados ao desenvolvimento do continente e apresentamos soluções para esses problemas.

Segredaram-nos que também tem as suas impressões digitais na criação do projecto da primeira sala temática que juntou académicos de Angola, Rússia e Europa?…

Sim. Hoje na Universidade Técnica e Estatal de Petróleos de Ufa funciona a primeira sala temática de Angola. É um projecto que nos foi dado pela Reitoria da Universidade para torná-lo realidade. Nesta sala estão espelhados factos interessantes sobre o país, desde a história, cultura e recursos naturais. Estando nesta sala, quem ainda não ouviu falar de Angola é conduzido a uma pequena viagem pelo país através das informações lá expostas. É um projecto que orgulha a todos os estudantes angolanos na Federação russa.

Do seu curriculum consta também o título de melhor estudante estrangeiro da Universidade Técnica Estatal de Petróleos…

Sim. Isso foi em 2014, o título foi de “Estudante activo estrangeiro” e tive também a distinção de “Estudante africano que melhor fala a língua russa” na Universidade, em 2013.

Outra das notas de referência que recebemos sobre Nicolau Gama é a sua participação, em 2015, na cúpula dos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) como tradutor…

Sim. Embora Angola não faça parte da cúpula dos BRICS, e não esteve presente como convidada nessa reunião, mesmo assim esteve bem representada por quatro angolanos. E um deles fui eu. Fui colocado no centro de imprensa como tradutor das delegações do Brasil e da África do Sul.

Recentemente, durante a visita de Estado do Presidente João Lourenço à Rússia, foram distinguidas várias personalidades angolanas e Nicolau Gama foi o primeiro. O que significa para si esta distinção?

Sobre o certificado de mérito devo dizer que foi o momento mais alto da minha vida académica. Mas, para mim, o mais importante foi e será sempre inspirar os outros estudantes através dos meus pequenos feitos. Sei que daqui em diante muitos estudantes ficarão mais motivados a se tornar bons alunos e bons exemplos para a comunidade estudantil e a elevar o nome de Angola na Federação Russa, e não só. Foi sempre o nosso propósito. Digo nosso, porque estudantes de mérito, na Federação Russa e no mundo, não somos somente nós, os que recebemos o certificado. Existem mais estudantes de mérito. Muitos deles, neste momento, estão na luta em Angola para conseguir o primeiro emprego.

Há algum professor e/ou colega que o tenha marcado?

Sim. A minha professora de Química Analítica na Universidade, a senhora Svetlana Barisovna. No princípio eu não a entendia e ficava sempre desmoralizado nas suas aulas. Mas depois de começar a ter alguma evolução entendi que ela queria somente que me esforçasse mais. Hoje somos grandes amigos e os conhecimentos por ela passados ajudaram-me muito.

O país viveu nos últimos meses uma crise acentuada no domínio dos combustíveis. Na qualidade de especialista em refinação de petróleos, o que acha que estará na base destes constrangimentos?

Para decifrar a origem do problema da falta de combustíveis que o país viveu há pouco tempo, é relevante analisar profundamente a história do desenvolvimento do ramo da refinação no país, que começa com o funcionamento da refinaria de Luanda em 1956, projectada pela empresa belga Fina, cuja finalidade era o processamento de derivados do petróleo, com maior destaque para a produção de combustíveis para motores automotivos, com uma capacidade de 60 mil barris/dia. Esta capacidade era suficiente no tempo em que Angola ainda era colonizada pelos portugueses. Mas essa situação já há muito que foi ultrapassada. Angola tornou-se independente, mas depois foi afectada por uma guerra civil que atrasou o arranque do desenvolvimento do país e deste sector.Após o fim da guerra civil, em 2002, houve um aumento significativo no consumo, assim como nas importações de derivados do petróleo, tais como gasolina, óleo diesel e combustível para motores a jacto. A única refinaria em funcionamento já não consegue satisfazer a procura do país. Hoje o nível de crescimento da necessidade do sector dos Transportes tem aumentado em quase todo país, tudo por causa do crescimento demográfico, urbanização e crescimento económico. Portanto, o país não tem ainda uma refinaria suficientemente capaz de satisfazer o consumo interno e esta dependência nas importações é a principal causa do constrangimento que o país atravessou há pouco tempo. E esta crise dos combustíveis ainda se vai repetir, se não começarmos a processar a maior parte dos derivados que o país consome. A construção de refinarias no país é urgente.

O nosso petróleo é extraído e depois encaminhado para outros pontos do mundo para a sua transformação. Como académico e com experiência comprovada no ramo, que caminhos aponta para a construção de uma refinaria em Angola, sem grandes custos?

Concerteza que não é lógico o facto de Angola ser um dos maiores produtores da África subsariana e ainda assim importar a maior parte dos derivados, acção esta que também é adoptada por países desenvolvidos no ramo da refinação, mas que é feita em menor quantidade, quer dizer, importam apenas uma menor parte dos derivados. A situação do processamento dos derivados é urgente. É necessário que o Governo aposte primeiramente na construção de refinarias de capacidade média ou mini-refinarias nas províncias com maiores indicadores de consumo. Porque este tipo de refinaria é mais rentável e exige custos não muito elevados. Além disso, a construção desse tipo de refinaria permitirá desmonopolizar o mercado local de combustíveis, reduzir os custos e melhorar a qualidade dos derivados consumidos na região em que será construída; satisfazer as necessidades de combustível em regiões remotas e das empresas individuais; criar novos postos de trabalho e elevar o padrão de vida da população dessas regiões; vai impulsionar o desenvolvimento de empresas de médio porte e o aumento das receitas fiscais para os orçamentos locais e regionais.

No seu entender, que locais do país seriam mais apropriados para a construção de refinarias? 

No acto de planificação para a construção de uma refinaria é necessário ter em conta os seguintes pontos importantes: a escolha da área de construção deve estar baseada no esquema de planeamento regional de uma área económica; o local deve ser conveniente para a construção de edifícios e estruturas; ter boas condições meteorológicas, topográficas e hidrogeológicas naturais; disponibilidade de matérias-primas, que é o ponto fundamental; presença de ferrovias e rodovias, bem como hidrovias. As províncias do Namibe, Benguela e Bengo seriam locais apropriados para a construção destas refinarias.

Outro dos factores apontados para a escassez de combustíveis em todo o território nacional é o transporte do petróleo e seus derivados. Fale-nos, a partir da sua experiência na Rússia, das equações mais viáveis?

A Rússia é um país com uma vasta experiência no campo do processamento de derivados. Actualmente a Rússia possui 30 grandes refinarias (com capacidade de mais de 3,0 milhões de toneladas/ano), 4 refinarias de capacidade média (capacidade de 1,0 a 3,0 milhões de toneladas/ano) e 43 mini-refinarias (com permissão de operação). A Rússia também já teve as suas crises. Isso foi nos anos 90, mas houve um grande esforço do Governo para que tal situação não voltasse a acontecer. Durante a minha estadia neste país, pude constatar como eles podem contribuir para o crescimento económico de Angola, exactamente no campo da criação de infra-estruturas e do investimento privado.

Os bons resultados atingem-se com esforço e… O que mais acrescentaria?

Persistência!

Complete a afirmação: ser aluno de Petróleos é…?

É abrir para si um mundo de constantes transformações!

É dos poucos africanos, e quiçá também angolanos, a trabalhar na Rússia. Como é que alcançou tal feito?

Na verdade eu não tinha feito planos para trabalhar na Rússia. Sempre tive e tenho como objectivo voltar à pátria para dar o meu contributo. Não tinha feito planos de trabalhar na Rússia, era impossível para um estrangeiro trabalhar na Rússia, na qualidade de estudante. Durante muito tempo escrevemos cartas para as companhias industriais russas para pelo menos ter a oportunidade de fazer uma excursão, mas sem sucesso. Diziam-nos que não seríamos respondidos positivamente por questões de segurança. Mas nem mesmo esses factores fizeram-nos voltar atrás ou desistir. Continuamos tentando, até que um dia soube da apresentação da companhia petroquímica Sibur. Fomos para lá, somente com aquele interesse de conhecer algo novo. Soube nesse dia que tinham um programa de estágios nas suas indústrias e logo perguntei à responsável dos recursos humanos se era possível também estudantes estrangeiros participarem no programa. Ela disse que sim. Reunia todos os requisitos. Pensei, porque não tentar e conseguir uma entrevista? Depois de alguns seminários com testes de raciocínio, chegou então o dia da entrevista, e, graças a Deus, aprovei. Comecei como estágiário na indústria petroquímica e passei a conhecer mais sobre esse ramo. Passado alguns meses, foi-me apresentada a proposta de continuar não como estagiário mas sim como trabalhador. Aceitei, porque como estagiário as minhas tarefas eram restritas. Era uma oportunidade que não podia deixar passar.

Descreva-nos um pouco das suas responsabilidades profissionais na Sibur Polief, uma das maiores empresas petroquímicas da Rússia?

Na Sibur Polief faço parte do pessoal técnico e tenho como principais responsabilidades: arranque, controlo do preocesso tecnológico de polimerização e também supervisionar o estado normal dos reactores, colunas, bombas e etc. Outra tarefa é o controlo e manutenção da linha de tratamento de filtros, onde passam o produto final. E a outra responsabilidade é a supervisão de trabalhos de manutenção nos aparelhos, feito pelas empresas prestadoras de serviço.

Já alguma empresa angolana manifestou interesse nos seus trabalhos?

Até agora não. Estive em Angola, por um tempo, a bater algumas portas, mas sem sucesso. Mas continuo com fé e esperança que um dia as portas se abrirão e surgirá uma oportunidade a partir de Angola. Assim que tiver, voltarei para dar o meu contributo ao país, porque “Tudo é no tempo de Deus”.

Que mensagem deixa aos jovens estudantes angolanos espalhados pelo mundo?

Para os jovens estudantes angolanos, deixo a seguinte mensagem: mantenhamos sempre a fé e a perseverança, que tudo se ajeitará. Se ainda não se ajeitou, não é o fim. Vamos aprender e absorver o máximo dos bons exemplos na diáspora, para que quando voltarmos à pátria, consigamos desenvolvê-la como deve ser. Mas é necessário manter sempre a humildade e a coragem para começar do zero ou de baixo, não sejamos imediatistas e ambiciosos em querer logo um cargo de chefia, só porque somos formados no estrangeiro. Para liderar é necessário conhecer a base.

Perfil

Nome completo: Nicolau Dongala Álvaro Gama
Data de nascimento: 23/05/1990
Naturalidade: Luanda
Filhos: Um casal
Passatempo: Corrida ao ar livre, leitura, música e dança
Defeitos: Ansiedade e teimosia
Virtudes: Assíduo, paciente, responsável e pontual
Sonhos: Projectar a primeira Indústria Petroquímica de Angola
Instituto Nacional de Bolsas de Estudos. O que lhe diz?: “Até ao momento, nada”
Corrupção: “Mal que corrói os pilares do desenvolvimento de uma sociedade”

Jornal Angola

 

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