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O humor sempre esteve aqui – Calado Show e Gilmário Vemba

É inegável a grande influência das marcas Calado Show e Tuneza, que à medida das suas possibilidades têm lançado e inspirado mais artistas neste sector do espectáculo. Também foram responsáveis pelo surgimento de um público e de uma agenda própria em espaços dedicados a esta vertente lúdica.

O humor sempre esteve aqui - Calado Show e Gilmário Vemba
O humor sempre esteve aqui – Calado Show e Gilmário Vemba

Fotografia: Edições Novembro

Fazemos aqui um exercício cronológico de iniciativas que ajudaram a chegar às coqueluches da actualidade do humor feito por angolanos. Não nos ficamos pela época colonial, onde com certeza as risadas também estavam presentes.
Na época do fervor nacionalista e do surgimento dos Ngola Ritmos, mais concretamente em 1948, Gabriel Leitão já fazia humor. Dois outros nomes são O Próprio Nini, radialista do programa “Tukina ni Kizomba”, que apresentava peças humorísticas, e o membro-fundador dos Kiezos, Kituxe, que no quadro de uma parelha animava os ambientes das Turmas e de outros espaços do Marçal, segundo Carlos Lamartine, músico e profundo conhecedor do movimento cultural luandense. Lamartine diz que não podemos deixar de citar os declamadores, que mesmo na fase em que havia um certo rigor repressivo, não poucas vezes saíam com piadas críticas ao poder, como por exemplo a declamadora Olga Baltazar. Cirineu Bastos é também referido como um dos precursores do humorismo nacional.
Já mais para cá no tempo, o jornalista António Clara refere a importância da Rádio Nacional como impulsionadora do humor, nos anos 80 do século passado, com a charge policial animada por Ladislau Silva, Rodrigues Vaz e Maria José Saraiva denominada “O crime não compensa”, com os inspetores Spitfire (Rocha Martins) e Good-Night (Ladislau Silva).No elenco estavam ainda Pêra D’Aço (Luis Traça) e Menina Lalá (Maria José Saraiva). Emitida semanalmente nos programas“Boa Noite Angola” e “Manhã de Domingo”, o humorístico “O crime não compensa” contavacom grande audiência. Facto que não impediu que fosse retirado do ar por pressões políticas.
Octaviano Correia e Dario de Melo eram os autores desta charge, bem como das “Asneiras do Menino Amarildo”, com João Miguel das Chagas no papel de menino irrequieto e Fernando Nogueira como professor.
A nossa fonte também revelou que o jornalista Joaquim Paulo criou, ainda nos anos 80, o humorístico “João Borlão”, que também chegou a fazer furor no programa “Manhã de Domingo” da RNA.
Como homem de rádio e sempre atento aos fenómenos da comunicação social, António Clara não deixou de lado o programa“Camatondo”, que lançava mensagens de unidade e de carácter cívico, de forma bem-humorada.
Em termos gráficos o humor no pós-independência ficoupor figuras como o “Kazukuteiro” e “Zito Mabanga”, que reflectiam os homens “esquemáticos” econtrários ao que se pretendia construir em termos de cidadania na nova Angola.
Segundo outra fonte, a dupla de palhaços Pipoff e Cascadura deve ser citada quando falamos de humor, pois eles estavam muito presentes nas actividades culturais e nos programas televisivos. A fonte acha ainda estranho que personalidades como Cajó, Capita, Checheu, Cisco, Ngueza, Salú Gonçalvese outras sejam tão pouco referenciadas, assim como a formação a pertenceram, a célebre “Turma Cómica dos Segredos”.
A fonte, que insistiu em manter-se no anonimato, fala ainda de Evaristo José, um nome a ter conta, pois era o mentor do “Cajokolo da Banda”, rubrica emitida no programa “Rádio Cidade”, da RNA. Participavam no Cajokolo os elementos da “Turma Cómica dos Segredos” e Afonso Quintas, que se viria depois a consagrar como radialista.
Não podemos esquecer, igualmente,o papel desempenhado pela TPA, com programas que mostravam a faceta humorística do músico Beto Gourgel, na pele do personagem Ngajeta. Programas como “Conversas no Quintal” e, com a chegada do Canal 2, conteúdos com uma certa carga de humor, com Pedro Nzage a deixar a sua marca e a inclusão dos Tuneza na grelha de programação, foram indicadores de umanova era do humor, numa altura em que Calado Show já estava a consolidar o seu espaço.
Na verdade, a rádio e a televisão foram fundamentais para a emergência do humor em Angola, mas é inegável que o foco e a resiliência de Calado Show e dos Tuneza determinaram a forma como hoje é encarado o humor. O seuespírito empreendedor e sentido de oportunidade, ajudou-os a conquistar o espaço desbravado por outros, que todavia, apesar do aparente sucesso a fazer rir grandes plateias, não conseguiam pagar as suas próprias contas.

JA

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