História

Com Savimbi, na fuga para a morte

29 meses de picada em picada, de rio em rio, de floresta em floresta. Alcides Sakala – número quatro na hierarquia da velha UNITA – narra, no livro Memórias de Um Guerrilheiro, nas livrarias portuguesas desde há poucos dias, a desesperada marcha de dois anos e meio, quase sempre a pé, de milhares de homens, mulheres e crianças famintos, por terras angolanas do Bié, do Cuando Cubango, do Moxico. Até à morte de Savimbi e às tréguas com Luanda. Em entrevista, o autor responde a críticas do PÚBLICO.

Alcides Sakala
Alcides Sakala

Alcides Sakala encontrava-se no Andulo no início da tarde daquele dia 18 de Outubro de 1999, quando os primeiros disparos do canhão de longo alcance M-46 atingiram o centro da cidade. Não era a primeira vez que o último reduto da UNITA sofria ataques mortíferos lançados pelas Forças Armadas de Angola (FAA). Desde o reinício da guerra, após a retirada de Luanda da UNITA, na sequência das eleições presidenciais de 1992, e em particular a partir do reinício de novas confrontações militares, há 10 meses, mais de cinco mil bombas haviam sido lançadas sobre esta cidade e sobre o Bailundo, as duas localidades da província do Huambo onde os principais dirigentes do movimento e respectivos familiares viviam agora. Duas semanas antes, um raide aéreo matara 19 pessoas. Entre elas Mizé, viúva do antigo vice-presidente, Jeremias Chitunda, que passara toda a manhã no secretariado dos Negócios Estrangeiros, de que Sakala era o responsável máximo.

Ao contrário dos bombardeamentos anteriores, este é, porém, o primeiro ataque directo lançado por forças terrestres contra o Andulo, conclui rapidamente Sakala, apercebendo-se de que a barragem de fogo de armas pesadas cobre a progressão de homens e blindados ao longo da estrada asfaltada que vem do Cuíto. Um cenário que, ironicamente, poucas horas antes, foi considerado o menos preocupante, em mais uma das longas reuniões de análise político-militar para que o presidente da UNITA, Jonas Savimbi, convocara – Beethoven em fundo – os seus colaboradores mais próximos

Contrariando as mensagens enviadas da frente pelo “General Implacável”, as forças do movimento do Galo Negro não conseguiram suster as FAA, que se encontram já sete quilómetros a sul. À pressa, Sakala enche o “musso” – uma viatura de fabrico coreano – de documentos, roupa, cobertores, panelas, pratos, um saco de fubá que a mãe lhe ofereceu, há uns meses, no Bailundo, manda o segurança e uma prima entrarem no carro que lhe está distribuído e sai a correr, com um colaborador, em direcção ao aeroporto.

Líder e generais a pé, pela floresta virgem

Trinta e três anos depois da primeira longa marcha , iniciada na cidade do Luso, agora Luena, “face à progressão das forças cubanas e catanguesas, a história repete-se”, e o Galo Negro vive, “pela segunda vez na sua história, essa trágica experiência”. Cujas peripécias, dramas e incertezas são registadas pelo antigo representante da UNITA em Portugal. Às vezes, na falta de papel, “nas entrelinhas de um livro de inglês com uma letra diminuta e a lápis; outras vezes, debaixo de chuva”. Quase hora a hora, ao longo dos dois anos e meio que vai durar a fatal marcha.

Já quase no princípio da pista do aeroporto do Andulo, Sakala vê passar a alta velocidade os carros da presidência. É certamente Savimbi que abandona a cidade “são e salvo”, nota. Começa a escurecer. À medida que caminha, vai encontrando “homens, mulheres e crianças” transportando “tudo o que podiam levar à cabeça e às costas”. Encontrará, muitas horas depois, alguns oficiais do estado-maior, junto da ponte sobre o rio Nhama, o “ponto de recuo onde se indicavam os novos destinos às populações” em fuga. Circula durante toda a noite pela região, “à procura dos restantes membros da direcção”. Reunir-se-á, já ao amanhecer, a Lukamba “Gato”, secretário-geral, e a Marcial Dachala, secretário para a Informação.

Com o passar dos dias e do uso de pistas há longos anos abandonadas, os carros vão ficando pelo caminho, enterrados na lama, em areias movediças, ou com os pneus rebentados. O diesel escasseia e passam a utilizar banha de porco. Nove meses depois do início da evacuação do Andulo, o próprio Savimbi, então à beira dos 66 anos, vê-se forçado a acompanhar a pé os seus homens, em cada vez mais frequentes marchas forçadas, normalmente nocturnas, através da mata densa e, não raro, da floresta virgem.

Sakala aprende a cavar abrigos junto do local onde pernoita, a fazer fogo sem fumo, durante o dia, e sem chama, durante a noite, para fugir à detecção aérea, a experimentar como alimentação “tudo o que os pássaros e os animais comessem”.

“Se não nos encontrarmos mais…”

Em Dezembro de 2001, soldados morrem todos os dias, na coluna, que sobrevive à custa do pouco mel que encontra e de cogumelos, “quando aparecessem”.

Reduzido à roupa que traz no corpo, cada dia mais debilitado, o chefe da diplomacia da UNITA continua a anotar as histórias da marcha, no seu diário. Não tarda que Savimbi se separe dele. Deixa-o, a 23 de Dezembro, com um homem da sua confiança, o brigadeiro Kalulu. “Mantenha o seu moral alto, como tem sido até agora. Poderemos nos encontrar um dia, mas se não nos encontrarmos mais, continuem com a sua marcha.”

Sakala receberá em 9 de Janeiro uma mensagem codificada “em umbundo” para que se desloque, “com urgência”, ao seu encontro. Savimbi quer discutir com ele e com “Gato” “várias ideias” e “dar corpo ao programa das tréguas e do diálogo” que entretanto parece fazer caminho nos corredores diplomáticos e religiosos angolanos e europeus.

O secretário-geral, acompanhado de Dachala, chega em 20 de Janeiro à posição de Sakala. Cinco dias depois partem, ao encontro de Savimbi. Calculam que são necessários 10 dias de marcha para vencer a distância. A intensificação das operações militares das FAA nas imediações atrasa o percurso.

Ao princípio da noite de 22 de Fevereiro, numa área próxima do rio Luzi, sem “indícios nenhuns de existência humana”, ouvem, “com muito cepticismo, a notícia da morte do presidente”. A morte, “por doença”, dias depois, do vice-presidente, António Dembo, leva-os, a 7 de Março, a criar uma comissão de gestão, coordenada por Lukamba “Gato”, e cuja primeira medida é ordenar a suspensão unilateral das hostilidades a partir das zero horas do dia 13 seguinte, seguida de negociações com o Governo de Luanda.

Alcides Sakala encerra o diário a 18 de Março, 29 meses exactos depois da saída do Andulo, registando o encontro dos sobreviventes da coluna presidencial com representantes do Governo de Angola e das FAA, na nascente do rio Luconha.

Sobre o que se passou em 22 de Fevereiro, nem uma tentativa de explicação. O autor diz apenas que Savimbi “morreu em combate”, limitando o seu texto àquilo que testemunhou.

A UNITA, sustenta Sakala, poderia ter continuado a resistir. Talvez não no Moxico, mas seguramente no Norte do país e a sul da cidade de Luanda, nas províncias de Cuanza-Sul e de Benguela. Mas por quanto tempo mais?, pergunta-se, indicando a carga das sanções da ONU a pesarem sobre as costas dos homens da UNITA, “num mundo em mudança”.

O sacrifício “valeu a pena”, observa, já em Luena, para cujo hospital um médico das FAA, “simpático e muito atencioso”, o mandou seguir, ao descobrir-lhe uma arritmia cardíaca. “Ficavam para trás, no coração das florestas do Leste de Angola, os alicerces sobre os quais construiremos os pilares de uma paz definitiva”, conclui, repetindo a ideia central que o fez seguir Savimbi até ao fim: a fé no projecto “de uma Angola democrática, livre do medo, livre da pobreza, da corrupção e da influência estrangeira (…) em busca da justiça social e da harmonia” entre os seus filhos.

* Adelino Gomes
Fonte: Publico

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