História

Os meus primeiros contactos com Jonas Savimbi (I) – Lukamba Gato

Depois da campanha militar sobre o Caminho de Ferro de Benguela (CFB) em 1978, foram convocados para a Direcção do Partido, no princípio de 1979 os mais velhos Generais Renato Campos Mateus e Sachipengo Nunda. Eu fui também convocado na mesma ocasião e tive o privilégio de conviver de perto com aquelas duas personalidades durante uma longa viagem.

Os meus primeiros contactos com Jonas Savimbi (I) - Lukamba Gato
Os meus primeiros contactos com Jonas Savimbi (I) – Lukamba Gato

O General Nunda era meu amigo na altura e partilhávamos a “literatura de esquerda” que era recuperada nas frentes de combate. Para a viagem, ele calçou umas botas muito justas que lhe criavam problemas durante as longas e edifíces marchas em terreno arenoso como o da província do Kuando kubango. A dado momento ele decidiu adaptar as suas novas botas à realidade que estava a viver. Decidiu suprimir a parte de frente das botas, cortando pura e simplesmente o cabedal, deixando os dedos de fora para seu alívio. Acho que passou a ter mais conforto mas não podia evitar os constrangimentos provocados pela abertura da parte frontal das botas, nomeadamente a areia e o orvalho de manhã mas isso era do mal, o menor. O velho Renato tinha o problema da dependência “quase patológica” do café. Ele tinha uma pequena reserva que durou cerca de uma semana apenas. Quando se viu privado do seu café, confesso que não foi nada fácil gerir essa carência. Foi preciso imaginação e um grande espírito de criatividade para se encontrar um produto que pudesse servir de substituição.

Encontramos uma aldeia onde havia milho e sorgo, vulgo massango. Ora qualquer um desses cereais torrado/queimado ao máximo, aliviava a grande carência em cafeína que afligia o mais velho Renato. Mas a marcha foi boa a o fim de um mês e meio de marcha, atingimos a região fronteiriça da Namibia, na altura, Sudoeste Africano. Fomos depois transportados por camião até ao Delta, onde se encontrava o velho Jonas e os outros membros da direcção do partido. Assumi de seguida a direcção da juventude do partido, apoiado por uma equipa de jovens dinâmicos como a Dep. Arlete Chimbinda, Clarisse Kaputo, Gilcristo Zavara, Nogueira Leite, e outros.

Era um grupo tão criativo e dinâmico que muito rapidamente se tornou numa verdadeira “ferramenta” ao serviço do Secretariado Geral. Seis meses depois, numa manhã, fui notificado pela secretário do Presidente, de que teria às 19horas um jantar de trabalho com o mais Velho. Que agradável surpresa! Só que mesmo tempo o stress se apoderara de mim, não via a hora de enfrentar mais um desafio, estar face a face com o mais velho. Vesti a minha melhor farda, a “muenembongue” que havia recebido ao chegar à fronteira.

À hora marcada, estava o ajudante de campo à porta para me levar até à casa do mais velho. O jantar foi no jango do mais velho, iluminado por dois grandes candeeiros à pilhas com lâmpadas florescentes. Imediatamente o mais velho procurou distender o ambiente com conversas sobre coisas comuns e simples antes de abordar questões mais sérias e profundas como a sua visão estratégica sobre a luta contra o expansionismo soviético.

É importante sublinhar que o velho Jonas nunca, internamente, caracterizou a sua luta como sendo uma luta contra o comunismo. Nunca ousei aprofundar com ele essa nuance mas deu para tirar as minhas conclusões. Falou da luta prolongada, do conceito dos grandes números, da importância da componente diplomática do conflito, etc. Fui interagindo na medida das minhas possibilidades mas sobretudo aproveitei eliminar algumas dúvidas que tinha sobre a luta de resistência.

Tudo correu muito bem e já estávamos no café e chá quando o velho revela o propósito do jantar. Começou por falar do seu trabalho e a melhor forma de o organizar, antes de me “informar” que a partir daquele dia eu passaria a ser seu colaborador directo com vista a organizar melhor o seu trabalho nas 3 vertentes mais dinâmicas naquela altura, nomeadamente a politica, a militar e a diplomática. Não perguntou se eu era capaz ou não, nem se estava de acordo ou não!

E ceitei o desafio mas… falhei logo no primeiro teste.

Participei pela primeira vez numa reunião do Bureau Político, por inerência de funções. Fiquei impressionado com a forma objectiva, a profundidade das análises e a grande abertura do diálogo entre aos mais velhos.

Impressionou-me em particular a forma como o mais velho conduzia a reunião, um lider por Excelência. Colocava a problemática, ouvia as contribuições dos seus colegas e tirava as conclusões que lhe pareciam as mais consensuais.

Na dia seguinte de manhã estou no jango de trabalho com o mais velho e o (in)esperado aconteceu: o maninho tem a acta da reunião de ontem?

Estupefacto, vi o tecto do jango a cair sobre mim…

Qual acta, qual quê?…

Peço desculpas Senhor Doutor. Estive tão emocionado, ouvindo-vos tratar de coisas tão sérias que nem me passou pela cabeça desviar a minha atenção concentrada no vosso debate. Ele vira-se para mim e diz: eu percebi que estavas concentrado e que não tomaste a mais pequena nota. Eu sabia portanto que não tinhas acta. Falei dela como alerta de forma a prestares atenção ao debate sim mas tomar notas importantes para podermos acompanhar a implementação das medidas/decisões tomadas. A partir daquele dia ganhei “juizo” e conduzi o gabinete do presidente por 3 anos até 1983 quando segui para a missão externa.

Fonte: Club-k.net

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