Internacional

A falha moral americana

Há uma falha moral americana, nestes tempos de Donald Trump na Casa Branca.

Nas últimas semanas, o atual Presidente dos EUA atingiu a melhor aprovação desde abril de 2017: 43% na sondagem CNN, 46% no Gallup.

São valores não muito altos, se comparados com outros presidentes, mas que estão no topo do histórico de aprovação do atual inquilino da Casa Branca.

Terá havido duas razões para esta subida. E ambas são inquietantes.

A primeira decorre da perceção, junto do eleitorado mais propenso a aderir aos temas que levaram Trump à Presidência, em relação ao que saiu do Relatório Mueller.

Donald Trump sabe que esse eleitorado não tem nem interesse nem instrumentos para analisar esse relatório a fundo.

Para a base Trump, o que interessa mesmo são os títulos, as parangonas, as “tags”, as ideias fortes. E a esse nível de superficialidade, Trump é mestre: “No collusion! No collusion!

Mueller escreveu uma carta a denunciar que o procurador-geral dos EUA ocultou ideias fundamentais do documento e apelou ao Congresso para aprofundar as investigações? Esqueçam, isso já é profundidade a mais.

Donald Trump Jr., filho do Presidente e referido no relatório como tendo tido reuniões com os russos na Trump Tower em plena campanha presidencial do pai, foi intimado a depor em comité do Senado liderado por um republicano (o senador Richard Burr, da Carolina do Norte)? Ui, isso já são pormenores a mais, não dá para captar a atenção sequer.

A Casa Branca está a fazer tudo para impedir que elementos oficiais que dependam da Administração Trump não obedeçam aos “subpoenas” dos comités do Congresso que investigam o que saiu do Relatório Mueller?

Não importa, a base trumpiana põe tudo no mesmo saco e acha que que tudo o que vem de Washington é “política suja” e que são “todos iguais e uns aldrabões”.

Don McGahn, a quem Trump devia agradecer por não ter seguido a ordem de despedir Mueller em pleno decurso da investigação (está escrito no relatório final sobre a interferência russa), está a sofrer “bully” por parte da Casa Branca para não ir testemunhar? Que importa isso, a base trumpiana nem ser faz ideia de quem seja Don McGahn e que papel possa ter tido no processo.

Simplismo, demagogia e populismo

A política americana está refém do populismo simplista do universo Trump.

O Presidente, hábil e demagógico, joga com isso, aproveita-se disso e tem o descaramento de incitar os seus subordinados a não respeitar a Lei, a desdenhar o papel do Congresso e a pisar a independência dos outros poderes.

Num cenário de uma democracia que estivesse forte e saudável, este comportamento indecoroso era total repelido e censurado.

Infelizmente, vivemos tempos de disrupção.

E quem promove este ataque às instituições democráticas ocupa o topo da pirâmide política em Washington, sustentando o seu poder numa fatia importante – ainda que não maioritária – da sociedade americana, que não tem nem vontade nem tem vontade, nem interesse, nem conhecimentos para dar o devido valor a coisas como a independência do poder judicial ou a força de uma imprensa livre.

É muito triste e é muito perturbador.

A Economia não pode ser tudo. Mas está a ser

A outra explicação para a subida de aprovação de Trump parece ter um enfeite positivo (afinal de contas, é bom ver números económicos animadores), mas também contém aspetos perturbadores.

Os EUA estão com o desemprego mais baixo do último meio século – 3,6%, taxa que não se via na América há 49 anos e meio, desde dezembro de 1969.

Mérito de Trump? Ok, porque ele é o Presidente – embora uma análise mais a fundo nos mostre que a criação de emprego nos anos Trump (cerca de 220 mil por mês) é muito idêntica à dos anos Obama. Mas, lá está, isso já é profundidade a mais para que a base Trump pretenda, sequer, ler.

O crescimento económico nos EUA no primeiro trimestre do ano foi de 3,2% — acima do esperado, acima da média dos anos Obama e até agora também dos anos Trump mas abaixo do que os entusiastas da candidatura Trump previam para esta altura (falavam em crescimentos de 4 ou 5% a meio deste mandato). E, já agora, exatamente metade do que a China cresceu em igual período: 6,4%.

São estes números positivos o suficiente para ilibar um Presidente que se gaba de fugir aos impostos e que andou a espalhar a ideia de que era um empresário muito bem sucedido e próspero – quando, afinal, entre 1985 e 1994, teve prejuízos acumulados superiores a mil milhões de dólares? Será isto aceitável para alguém que ocupa o cargo político mais influente do mundo?

A América que diz que Trump “afinal é bom porque a Economia está boa” é uma América doente que, sem se dar conta disso, atira para o caixote do lixo da História décadas de excecionalismo – “the last best hope of earth”, como gostava de recordar o saudoso senador John McCain – e denota uma falha moral difícil de sarar.

A rota da História às vezes prega-nos partidas difíceis de digerir.

Tvi24

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