A proibição do Pau de Cabinda na Europa

Em chá, ampolas ou cápsulas, a venda do produto passou, desde ontem, a ser proibida pela União Europeia. Os últimos dias foram de corrida a ervanárias.

A proibição do Pau-de-Cabinda na Europa
A proibição do Pau-de-Cabinda na Europa

Fotografia: DR

O Pau-de-Cabinda – usado para tratar a disfunção eréctil – e que podia ser encontrado em ervanárias e em supermercados portugueses, passou a ser de venda proibida desde ontem, em todos os países da União Europeia (UE). A notícia levou a uma verdadeira corrida ao suplemento alimentar – os clientes habituais encomendaram mais embalagens do que o habitual e o produto era um dos mais vendidos pela rede de ervanárias contactada pelo “Diário de Notícias.”
Com efeitos imediatos “na hora ou duas horas seguintes à ingestão”, segundo o urologista Nuno Monteiro Pereira, o consumo de Pau-de-Cabinda pode causar “graves problemas a pessoas hipertensas”, admite o clínico, que, ao longo dos anos, diz ter passado muitas receitas de dois medicamentos comercializados em Portugal e que continham a molécula da planta – a yohimbina. Na farmácia, a molécula era vendida com os nomes Yombo-Oro ou Zumba – esta última “yohimbina pura”, segundo o médico. “Acho que (ambos os medicamentos) foram descontinuados, não tinham interesse comercial, porque eram muito baratos”, especula o urologista e sexólogo, acrescentando: “O Pau-de-Cabinda dá resultado – e os portugueses conhecem bem a planta devido à nossa ligação a Angola”, refere.
O Mercado dos Kwanzas, um dos maiores de Luanda, tem uma secção específica para venda de medicamentos tradicionais e o Pau-de-Cabinda é o mais procurado, de acordo com uma reportagem da agência Lusa do início do mês – assim que foi conhecida a proibição da UE. No mercado, as vendedoras confirmam a “eficácia” do produto no que diz respeito a tratar a impotência sexual e garantem que o chá da planta ou outra composição “são infalíveis”. Serão, mas igualmente perigosos.

Incerteza científica

A União Europeia reconheceu existir “a possibilidade de ocorrência de efeitos nocivos para a saúde, associados à utilização do Pau-de-Cabinda” – a pedido de um Estado-membro, a Alemanha, mas não conseguiu provar que estes de facto existissem. Perante “uma incerteza científica” sobre a segurança do uso da planta, decidiu proibir a utilização na alimentação, lê-se no regulamento 2019/650 da Comissão Europeia do dia 24 de Abril.
Henrique Esteves, um dos responsáveis pelas encomendas online da cadeia de lojas de produtos naturais Celeiro, disse ao DN que os vendedores já receberam a informação de que a venda de Pau-de-Cabinda não irá permitida a partir de 14 de Maio.
As notícias de que a União Europeia se preparava para proibir a venda do produto mais do que duplicou os pedidos de reserva. “Recebemos muitos mais pedidos esta semana – temos já clientes habituais, que, desta vez, pediram em maiores quantidades”, revelou o funcionário. Quem compra o Pau-de-Cabinda – em cápsulas ou em ampolas, as duas formas mais comercializadas – são, segundo Henrique Esteves, na sua maioria, “homens com mais de 50 anos”.
Uma embalagem de sessenta cápsulas tem um custo médio de 30 euros e o afrodisíaco era um dos produtos mais vendidos pelo Celeiro, pelo menos online. “Todas as semanas, recebíamos encomendas”, diz o responsável, que recebeu ordens da empresa para vender o produto apenas até ao fim do “stock.”
O produto base do Pau de Cabinda é a yohimbina – que é a molécula da planta. “O medicamento poderia ser comercializado em cápsulas – com doses definidas -, uma vez que há outros medicamentos que também causam problemas”, diz Nuno Monteiro Pereira. No caso, o Pau-de-Cabinda pode causar “problemas de hipertensão tão graves que podem levar à morte”, afirma.

Perigo está no chá

O grande problema do uso de Pau de Cabinda é a sua utilização em chás, uma vez que “a dose não é controlada”. E falta bom senso por parte de quem consome.
“O médico até pode dizer que só se pode beber uma chávena ou só usar uma colher de chá da planta, mas, depois, os homens querem ter uma maior reacção e, em vez de uma colher de chá, usam duas ou três, o que pode levar a crises hipertensivas graves”, descreve o urologista.
Sem Pau-de-Cabinda – ou yohimbina – resta o sintético Viagra (e seus genéricos), que actuam de forma diferente da planta. Enquanto o primeiro “provoca sempre a mesma resposta – uma erecção muito prolongada, o Viagra tem esse efeito – de erecção – mas apenas se existir excitação”, diz o sexólogo, que, quando lhe pediam directamente Pau-de-Cabinda só receitava a molécula da planta após conhecer a história clínica do paciente.
O médico acredita que o produto poderia continuar a ser comercializado – bastando não ser de venda livre – e não acredita que a proibição vá afastar clientes. “É algo fácil de comprar online”, lembra.
O Pau-de-Cabinda e suas preparações foram incluídos na parte A do anexo III do Regulamento da Comunidade Europeia (CE) nº 1925/2006, o que implica que a sua utilização em alimentos será proibida, nomeadamente em Portugal.
Segundo o regulamento, os alimentos com Pau de Cabinda ou suas preparações legalmente colocados no mercado português antes de 14 de Maio de 2019 poderão ainda ser comercializados.

Chineses e portugueses lideram procura em Luanda

O Mercado dos Kwanzas, no município de Cazenga, um dos maiores de Luanda, tem uma secção específica para a venda de medicamentos tradicionais e o Pau-de-Cabinda lidera a procura dos consumidores, com preços que variam entre os 200 e os 35 mil kwanzas.
Vendedoras confirmaram à Lusa a “eficácia” do produto na resolução de problemas de impotência sexual, garantindo que o seu chá ou outra composição “são infalíveis”.
“Procuram, sim, o Pau-de-Cabinda. Tanto homens, como mulheres. Temos aos preços de 200, 300 e 500 kwanzas. Não vendemos muito caro. Para alguém que não tem força no corpo, vendemos isso e o efeito é bom”, contou à Lusa a comerciante Ana Alberto.
O Pau-de-Cabinda (Pausinystalia yohimbe) e suas preparações foram incluídos na parte A do anexo III do Regulamento da Comunidade Europeia (CE) nº 1925/2006, o que implica que a sua utilização em alimentos será proibida, nomeadamente em Portugal.
Questionada sobre a proibição da utilização do Pau-de-Cabinda em Portugal e em outros países da UE, Ana Alberto, que há 12 anos comercializa medicamentos naturais, afirmou que o produto “não tem qualquer efeito adverso” para a saúde. “Eu nunca senti consequências do Pau do Cabinda, isso tem procura e faz efeito e se vão proibir não conseguimos perceber. Isso é pau”, realçou.
As valências do Pau-de-Cabinda foram também sublinhadas pela vendedora Sofia António, afirmando que, apesar de tímida, a procura pelo produto é diária, sendo os chineses os maiores compradores.
“Pau-de-Cabinda é para pessoas que não têm força durante as relações sexuais. Eles tomam e ficam bem. Temos clientes angolanos, chineses e outros”, disse.
A comerciante adianta que o preço varia em função da bolsa do cliente, referindo que tem doses de 300 a 2.000 kwanzas e que grandes quantidades são comercializadas a 35.000 kwanzas. A par de pequenas porções ou mesmo do caule, Luísa Pembele contou que também comercializa o Pau-de-Cabinda em líquido, em garrafas de 1,5 litros ao preço de 1.500 kwanzas.
A coordenadora do sector de medicamentos tradicionais do Mercado dos Kwanzas, Isabel Bunga, questionou as motivações da proibição em Portugal do uso do Pau de Cabinda, referindo que “chineses e portugueses são os maiores compradores.”
“Porque é que vão proibir, se os estrangeiros, como chineses e portugueses, sãos os que mais utilizam, que vêm aqui buscar e como é que vão proibir”, questionou.
Há 24 anos na actividade, a vendedora recorda que o Pau-de-Cabinda lidera a lista das solicitações, garantindo que o preço “é acessível” e que a sua utilização deve ser “bem doseada, de forma a não causar outras complicações”.

Mais “curas”

São raízes, caules, capins, óleo de animais ou chá, mas também caracóis, fezes de animais, leite espesso e uma série de líquidos coloridos que se podem encontrar em enormes quantidades, fundamentalmente no Mercado dos Kwanzas, município do Cazenga, arredores de Luanda.
Quem vende, na sua maioria mulheres com mais de 40 anos, anuncia que cura “várias doenças” desde mioma, febre tifoide, malária ou tuberculose, como também infecção urinária, hemorroides e mesmo problemas de disfunção sexual. E garantem que procura não falta.
“Temos muitos clientes e na sua maioria procuram medicamentos para febre tifóide e malária. A partir de 200 kwanzas, o cliente pode encontrar aqui a cura. Temos medicamentos que podem custar até 4.500 kwanzas”, contou à Lusa, Sofia António.
Há seis anos a comercializar medicamentos tradicionais, Sofia António diz que apenas com 200 kwanzas é possível “aumentar a potência sexual”: “Essas raízes chamamos de ‘timba-timba’ e servem para aumentar a potência sexual masculina. Ele pode apenas mastigar para ganhar mais força e esse molho de raízes faz muito bem porque é natural. E os jovens procuram muito”, explicou. Logo ao lado, Luísa Pembele diz que os “preços acessíveis” destes alegados medicamentos são a chave do sucesso e da procura crescente:
“Estas folhas servem para dor de dentes. Os medicamentos mais procurados são para tratar hemorróides, para mulheres que não conseguem engravidar, com preços que estão ao alcance de todos”, disse.
“Esse é o Pau-de-Cabinda e o efeito é igualmente para aumentar a potência dos homens e ainda temos raízes também que servem para fortificar o esperma”, acrescentou, exemplificando com outro dos produtos mais procurados no mercado. É também pelo Mercado dos Kwanzas que Regina Catarina faz a vida há quatro anos, vendendo desde o tradicional gengibre à ‘ngadiadia’, para febre tifóide e dores de barriga. Por entre 1.000 a 2.000 kwanzas é possível comprar uma promessa de cura “para quase tudo”.
“Nós aqui curamos tudo menos Sida. Quando é Sida, nós mandamos para o hospital. Para mulheres que não estão a alcançar, homens com impotência sexual, homens com ejaculação precoce”, descreveu à Lusa a coordenadora do sector de vendas de medicamentos tradicionais daquele mercado, Isabel Bunga.
Os clientes, refere, procuram “toda e qualquer medicação” naquele mercado, e até um caracol com alegadas características especiais: “serve para tratar epilepsia”, garante.

JA

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