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Baleia encontrada nas águas da Noruega é uma arma da Rússia? Há razões para acreditar que sim

Não se sabe se a baleia encontrada em águas norueguesas com um arnês onde daria para colocar uma arma ou uma câmara estava a ser utilizada pela Rússia para espionagem mas há razões para acreditar que sim. E há também um “padrão”, um histórico. É que ao longo do tempo os EUA “reduziram o número de mamíferos marinhos utilizados em exercícios militares”, mas a Rússia aparentemente não

Baleia encontrada nas águas da Noruega é uma arma da Rússia? Há razões para acreditar que sim
Baleia encontrada nas águas da Noruega é uma arma da Rússia? Há razões para acreditar que sim

© Barry Williams/Getty Images Expresso

É provável que a baleia-branca, ou beluga (é o nome científico), encontrada em águas próximas da aldeia piscatória norueguesa de Inga tenha vindo da Rússia e que faça parte de um programa russo de treino de mamíferos marinhos — daí o arnês que levava acoplado ao dorso, que daria para colocar uma câmara ou uma arma, e que até pode muito bem ter sido ali colocado pela marinha do país — mas não é claro que houvesse a intenção de espiar, como sugeriram vários especialistas noruegueses quando confrontados com o aparecimento recente do animal. A distinção é importante. “Muitos destes animais são utilizados em programas de investigação que podem ter fins militares mas não quer dizer que tenham características bélicas”, diz ao Expresso Élio Vicente, biólogo marinho especializado em cetáceos.

Para Felipe Pathé Duarte, especialista em relações internacionais e professor no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, pode ter havido uma clara intenção de “vigiar”, tendo Moscovo várias razões para isso. “Há um interesse geoestratégico de controlo daquele tipo de águas territoriais e de reaproximação ao Ártico”, sublinha ao Expresso, contextualizando de seguida o assunto. “Com as alterações climáticas e o descongelamento das águas, começaram a surgir novas rotas e o acesso a matéria-prima, particularmente os hidrocarbonetos, tornou-se mais fácil”.

Por outro lado, diz, tem sido feita por parte da Rússia uma “grande pressão” quer na região do Báltico, quer da Escandinávia que já levou à “implementação de medidas de carácter securitário” por parte dos países ali localizados — a Suécia já ponderou, aliás, voltar a tornar o serviço militar obrigatório por causa disso, esclarece. “Não sabemos se esta baleia em específico estava a ser usada para espionagem, mas este enquadramento leva-nos a concluir que a situação é verossímil”.

A desfavor da Rússia joga ainda o seu “padrão”, ou histórico, não sendo inédito nem raro que mamíferos marinhos são utilizados para fins militares, quer por parte de Moscovo, quer dos EUA. Na década de 1980, a União Soviética desenvolveu um programa de treino de golfinhos para deteção de armas submersas, lembra ainda Felipe Pathé Duarte.

Utilização de mamíferos marinhos com fins militares remonta aos anos 1960

Élio Vicente, o biólogo marinho, recua ainda mais no tempo e explica que o uso de golfinhos, mas também de leões-marinhos, orcas e tubarões para fins militares remonta aos anos 1960, quando se percebeu que estes mamíferos marinhos tinham “capacidades extraordinárias de adaptação ao meio aquático” e, por um isso, “um grande potencial”. No caso dos golfinhos e das belugas, percebeu-se que estes dispunham daquilo que os cientistas designam por sonar biológico e que permite detetar profundidades, distâncias, se há outros animais, que animais são esses e qual o seu tamanho. “Quando os norte-americanos fizeram essa ligação, chegaram à conclusão de que podiam treinar estes animais para fazer todo um conjunto de trabalhos de natureza militar”, explica o biólogo.

A partir daí, esses mamíferos começaram a ser utilizados para “recolha de objetos, de natureza militar ou outra, proteção de embarcações e de mergulhadores e para fazer patrulhamento de baías onde estavam navios norte-americanos contra uma eventual intrusão de outros navios ou mergulhadores”. “Bastante comum” tornou-se também a utilização de leões-marinhos, “que têm uma visão e audição subaquáticas extraordinárias, para deslocações a estações subaquáticas, em alguns casos com 40 ou 50 metros de profundidade, onde entregavam objetos a mergulhadores e levavam outros até à superfície”. “Isto foi-se alargando a várias dinâmicas e a vários conflitos militares, nomeadamente a Guerra do Golfo”, lembra o biólogo.

EUA “reduziu o número de mamíferos marinhos utilizados em exercícios militares”, a Rússia aparentemente não

Élio Vicente, que chegou a trabalhar com outros biólogos envolvidos neste tipo de programas norte-americanos e a visitar a base naval de San Diego (Califórnia), a maior base da marinha norte-americana na costa oeste do país, diz que os EUA já não usam baleias beluga em exercícios militares e que, portanto, “o mais provável” é que esta que foi encontrada na Noruega tenha vindo da Rússia. “Os EUA reduziram o número de mamíferos marinhos utilizados nestes exercícios e agora só utilizam golfinhos roaz e leões-marinhos californianos.”

Já Moscovo garantiu ter terminado o seu programa de treino de mamíferos para fins militares depois do desmantelamento da URSS, mas foi denunciado recentemente o desenvolvimento de outro programa do género. Uma reportagem da rede televisiva estatal Zvezda de 2017 revelava que a Marinha russa tinha começado novamente a treinar baleias da espécie beluga, e também leões-marinhos e golfinhos, para atividades militares. Nos últimos três anos, o Governo russo reabriu três antigas bases militares soviéticas ao longo da sua zona costeira no Ártico. As mais recentes investigações e programas de treino terão sido desenvolvidos pelo instituto de biologia marinha de Murmansk, no norte da Rússia, que treinou baleias beluga para ajudar mergulhadores a transportar material, “guardar as entradas das bases navais” e, “se necessário, matar quaisquer estranhos que tentassem entrar no território”, segundo a reportagem.

O arnês que a baleia encontrada trazia no dorso tinha a indicação de tratar-se de material produzido na Rússia — “equipamento de São Petersburgo” era a referência exata — e, segundo vários investigadores noruegueses, daria para colocar uma câmara ou arnês. “Se esta baleia veio da Rússia — e há grandes razões para acreditar que sim — não foram cientistas russos que a treinaram, mas sim as forças armadas do país”, afirmou Martin Biuw, investigador norueguês em declarações ao jornal britânico “The Guardian”. Um outro especialista, Audun Rikardsen, disse ter contactado investigadores russos que lhe disseram não ter nada a ver com a baleia encontrada, o que, na sua opinião, reforça a tese de esta ter sido treinada pela Marinha russa.

A descoberta foi feita por pescadores da vila norueguesa de Inga, segundo os quais a baleia teve um “comportamento invulgar” quando se aproximou dos barcos, tendo tentado puxar as cordas colocadas na lateral destas embarcações. Élio Vicente clarifica: “estes animais estão mais do que habituadas a estar perto de embarcações e de humanos, não têm medo, portanto esta beluga estaria provavelmente apenas a brincar”.

MSN

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