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Inimigo número um da Europa perdeu as eleições

Steve Bannon, ideólogo de Donald Trump, perdeu a aposta de transformar o Parlamento Europeu num ninho de nativistas. Mas a guerra cultural ainda está a ser travada.

Inimigo número um da Europa perdeu as eleições
Inimigo número um da Europa perdeu as eleições

Steve Bannon foi assistente político do Presidente norte-americano Donald Trump
Fotografia: DR

De acordo com o jornal português Diário de Notícias, na edição de segunda-feira, dia 27, os piores receios sobre o novo Parlamento Europeu não se confirmaram e a onda nativista não ganhou a dimensão que se temia.

O artigo do Diário de Notícias, assinado por Diogo Queiroz de Andrade, refere que Steve Bannon tenta exportar o modelo político norte-americano para a Europa, ao criar uma associação política chamada Movimento para o conseguir.

Os ganhos de Salvini em Itália, de Órban na Hungria e dos vários nacionalistas na Bélgica são preocupantes, mas os maus resultados de outras forças acabara por frustrar as expectativas de Bannon – que no ano passado admitia ter um terço dos votos do Parlamento Europeu mas que este ano já confessou querer chegar a metade dos parlamentares. Isso não se verificou e, nesse sentido, o homem que fundou o Movimento falhou nos seus objectivos. Fazer equivaler a cruzada de Steve Bannon aos resultados deste novo Parlamento Europeu é, no entanto, redutor. Bannon tem um projecto de influência cultural e sabe que é por aí que se alteram os sistemas políticos.

O site “Breitbart”, que federou a direita radical norte-americana, nasceu dez anos antes da eleição de Donald Trump. E passou essa década a influenciar o sistema político e a instilar ideias na cultura dominante norte-americana, com expressão na “Fox News” (Notícias da raposa) e no “Tea Party” (Festa do chá). Não foi este modelo político que moldou Trump, ele foi apenas um elemento aproveitado para conquistar o poder e legitimar as ideias políticas que estavam na fronteira do sistema.

E esse será o “modus operandi” também na Europa, onde o interesse é o mesmo. Por isso, Bannon tem-se aliado a movimentos que querem alterar a cultura, como por exemplo os católicos integralistas que querem depor este Papa e promover o regresso do conservadorismo ao Vaticano.

Não há ilusões no coração ideológico do Movimento: a defesa de uma internacional nacionalista é uma contradição nos termos que pode funcionar no curto prazo mas que não tem sustentação real. Na verdade, a preocupação de Bannon na Europa é a mesma que se verificou nos EUA: a subversão do sistema democrático e a promoção das elites tradicionais (e tradicionalistas, no caso europeu). Por isso, a demonização da União Europeia – e do Parlamento Europeu – é fundamental na estratégia.

Os laços que juntam os vários movimentos nacionalistas podem ser conjunturais, mas não deixam de ter consequências no Parlamento Europeu (PE). E um sinal imediato disso é o voto expressivo que o parceiro directo de Bannon, Modrikamen, teve na Bélgica. O aumento dos Verdes e dos Liberais na Europa acaba por impedir que os radicais antissistema possam cantar vitória, até porque parece altamente improvável que todas estas forças se juntem num só grupo europeu. Há pouco em comum entre Le Pen, Salvini, Órban, e os nacional-populistas da Bélgica, da Holanda e da Polónia – mas a aliança entre italianos, franceses e húngaros deverá mesmo dar origem a um novo grupo político europeu que até pode contar com a participação do “Brexit Party” de Nigel Farage. Apesar disso, os maus resultados dos partidos antissistema na Áustria, na Dinamarca e em Espanha acabaram de comprometer as expectativas de domínio do Parlamento e podem não justificar as cedências ideológicas que ambos os lados teriam de fazer para se encontrarem numa plataforma comum. Um bom exemplo é o relaxamento das regras orçamentais europeias que Salvini exige e que austríacos ou os holandeses rejeitam.

A equipa de Bannon tem fornecido apoio aos nacionalistas e há suspeitas de que possa ter ajudado a veicular dinheiro vindo da Rússia para estes movimentos – tal como aconteceu no Brexit, que foi uma peça fundamental nesta estratégia de ataque à Europa. E é aí que entra Farage, uma personagem complexa que acaba por ser o aliado mais natural de Bannon: um demagogo que não tem interesse no futuro do seu país, que saltita entre plataformas insustentáveis a longo prazo mas que explora como poucos os temas do momento. A sua vitória nas eleições britânicas dar-lhe-á lugar, em Bruxelas, por mais uns meses, mas apenas isso: o seu trabalho em prol dos populistas antieuropeus ficou feito no Brexit. A aposta de Bannon será sempre mais virada para este registo em detrimento de apoio a movimentos políticos como o de Marine Le Pen, que é parte integrante do sistema eleitoral francês desde há décadas.

Quanto a Portugal, não há qualquer demonstração de interesse reconhecida por parte de Steve Bannon e do seu Movimento. Embora em Espanha se tenham efectivado ligações ao Vox e a movimentos nacionalistas catalães, não consta que o interesse se tenha estendido até Portugal. Não que os populistas de direita não tenham copiado a cartilha: quer o PNR quer o Basta têm apostado nas redes sociais, espalhando desinformação através de memes e de notícias falsas e tentando pegar nos mesmos temas de campanha. Os resultados risíveis de ambos devem ter afastado algum interesse que o Movimento de Bannon pudesse ter, pelo menos para já.

JA

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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