Polémica à volta do muro na fronteira com a Somália

O Governo queniano está a ser pressionado pelo Parlamento para explicar as razões pelo atraso na conclusão da construção de um muro na fronteira com a Somália, que tem um orçamento avaliado em 35 milhões de dólares.

Deputados quenianos querem ver esclarecidos os motivos do atraso na construção do muro
Fotografia: DR

De acordo com uma anterior decisão dos deputados, o Governo tinha à sua disposição 35 milhões de dólares para construir um muro com uma extensão de 700 quilómetros para impedir que membros do grupo terrorista al-Shabab utilizassem a fronteira comum entre o Quénia e a Somália para escapar às autoridades dos dois países.
A verdade é que, passados cinco anos desde a aprovação do projecto e da disponibilização do dinheiro, o muro apenas tem uma extensão de dez quilómetros, não tendo sido devidamente elucidativas as explicações dadas para justificar esse atraso.
Face a essa situação, o Parlamento decidiu ontem mandar interromper as obras de construção do muro até que os encarregados da obra expliquem as razões do referido atraso e mostrem as contas sobre o que foi até agora gasto.
Quando o projecto foi aprovado, em 2014, o Go-verno queniano propunha-se edificar um muro de 708 quilómetros em ci-mento e arame farpado, equipado com câmaras de vigilância electrónica e postos de observação.
O pretexto para esta construção era a de combater o tráfico e a imigração ilegal, bem como impedir que elementos do al-Shabab penetrassem no território do Quénia provenientes da Somália, onde têm as suas bases logísticas, para realizar atentados terroristas.
A verdade é que o tempo passou e até agora apenas foram construídos dez quilómetros do muro, estando as obras paradas por suposta falta de verbas, o que os deputados quenianos querem confirmar uma vez que isso significa que foram gastos 3 milhões de dólares em cada quilómetro edificado.
Para tornar a situação ainda mais complicada falta referir que a obra estava a ser feita com supervisão militar, que a classificou de “se-creta”, o que tem até agora impedido o acesso às contas por parte de diferentes entidades do Estado.

Encerramento do campo Dadaab

O Governo queniano pediu novamente ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) para fechar o campo de acolhimento de Dadaab, considerado o maior do género no mundo. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Quénia fez este pedido numa carta enviada à agência da ONU na qual solicita a transferência dos refugiados de Dadaab para a Somália ou para outros países, informou a imprensa local.
“Dadaab é usado como base para actividades que, como o terrorismo, colocam em perigo a segurança nacional”, justificam as autoridades quenianas para sustentarem esse pedido.
Noutras ocasiões, o Quénia solicitou o encerramento do local alegando ligações do campo de refugiados com os autores de atentados do grupo armado al-Shabaab que opera nessa zona.
Por sua vez, a porta-voz do ACNUR, Dana Hughes, agradeceu ao Governo e ao povo do Quénia por generosamente acolher os refugiados e requerentes de asilo durante décadas.
Dadaab foi criado em 1991 para receber os somalis que fugiam da guerra no seu país e chegou a ter até 580 mil refugiados em 2011, o que o tornou no maior campo de acolhimento do género no mundo. Os dados do ACNUR estimam que actualmente alberga 209 mil e 979 pessoas.
Enquanto isso, o Governo está a ser acusado de ignorar a situação em que vive a população da região de Turkana, no nordeste do país, assolada por uma profunda seca. De acordo com populares locais, citados pela agência de notícias BBC, dez pessoas já morreram e dezenas de outras estão “bastante debilitadas” de-vido à escassez de alimentos disponíveis.
O Governo minimiza as acusações e refere que existem neste momento mais de um milhão de pessoas afectadas pela seca mas que estão a receber alimentos em quantidade suficiente, descartando que as referidas dez mortes estejam de algum modo relacionadas com esse problema.
Para as autoridades quenianas existe realmente um problema com a seca, mas que não configura qualquer situação de emergência nem provocou uma insegurança alimentar.
De referir que em Março de 2017, o Governo queniano declarou o estado de emergência face a uma situação de seca que então afectou cerca de três milhões e meio de pessoas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *