Internacional

Xenofobia na África do Sul – Sousa Jamba

Depois de mais uma onda de ataques xenófobos na África do Sul, li uma proposta nas redes sociais zambianas que me surpreendeu bastante. Alguém sugeriu que a casa no bairro zambiano de Chelston, dedicada à memória de Oliver Thambo, deveria ser transformada num centro que celebraria a cultura de tolerância e hospitalidade da Zâmbia. A verdade é que os líderes negros da África do Sul, com discursos xenofóbicos, estão a fazer um bom trabalho em esmigalhar o prestígio das grandes figuras que se dedicaram ao fim do apartheid.

Fonte: JA

A luta de Nelson Mandela tinha culminado na criação de uma nação arco-íris, com uma constituição que se tinha tornado num ponto de referência para o resto do mundo. Hoje a África do Sul está lá, com o Zuma e as suas complicações e, agora, com o Cyril Ramaphosa, que não resistiu ao discurso populista que insiste que os imigrantes, sobretudo aqueles vindos da África a Sul do Sahara, estão por trás de tudo que está mal no país.

Para melhor entendermos certos fenómenos, vale a pena fazermos certas comparações. Quando fui aos Estados Unidos, pela a primeira vez, nos anos 80 do século XX, em Miami, um bom número de afro-americanos pobres fizeram várias afirmações, injustificáveis, contra os haitianos – além de ser sujos, dados a crenças primitivas, diziam os seus detractores, que os haitianos aceitavam salários baixos, o que prejudicava os pobres afro-americanos. Na última campanha nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump optou pela mesma retórica: os afro-americanos tinham que votar nele, porque nele estava a garantia de manter fora os imigrantes que têm usurpado aquilo que, por direito, pertence aos afro-americanos.

O grande problema da África do Sul é que têm uma liderança que, como no resto do continente africano, se recusa a enfrentar um dos maiores problemas do continente: a imigração das áreas rurais para os centros urbanos. Depois de 1994, muitas nas áreas rurais deixaram-se levar pela retórica dos líderes que prometeram tudo e mais alguma coisa. A solução seria investir agressivamente nas instituições nas áreas rurais. Um dos argumentos que se ouve de negros, sempre que há mais um distúrbio xenófobo, é que os imigrantes vieram e ocuparam várias vizinhanças das áreas urbanas. Em Joanesburgo, os imigrantes africanos estão concentrados em bairros como Hillbrow — a qualidade de habitação nestas localidades é péssima. Somalis, que têm lojas nos bairros da periferia, prestam um serviço crucial à vizinhança. Um senhor disse, numa entrevista, que os comerciantes somalis se tinham tornado em amigos e ajudavam, em momentos difíceis. Ouvir o presidente Cyril Ramaphosa a dizer que pequenos retalhistas nos guetos seriam punidos, foi altamente desconfortável. E a União Africana, aquele clube de compadres, claro não tinha nada a dizer.

Os líderes sul-africanos deviam investir seriamente na educação das comunidades que, historicamente, foram desfavorecidas. E os que estiverem por trás da estratégia para a educação teriam que ter muita imaginação e competência. Aqui não é só uma questão de dar empregos aos filhos favoritos do partido no poder. Com as novas tecnologias, por exemplo, é possível fazer saltos impressionantes com escolas virtuais — os alunos passam a ter computadores ou tablets e através deles fazer cursos virtuais, por exemplo. Este seria um projecto que o resto do continente africano poderia emular. Para isto acontecer, os líderes sul-africanos teriam que ser humildes e aceitar que há uma parte da sua população que faz parte daquele mundo, com imensas dificuldades, do continente africano.

Infelizmente, uma das coisas que muitos sul-africanos têm em comum é um profundo complexo de superioridade em relação ao resto do continente africano. O antigo vice-presidente da Zâmbia, Guy Scott, um grande intelectual branco, irritou as autoridades sul-africanas quando as acusou de serem tão tacanhas como os líderes do regime do apartheid. Segundo o Dr Guy Scott, os líderes sul-africanos ficavam bem tontos, cheio de ilusões, quando se falava do seu país como uma potência económica, etc. O Dr Scott insistia que o futuro da África do Sul estava completamente ligado ao futuro da região. O antigo presidente Thabo Mbeki defendeu arduamente o projecto da NEPAD — a ideia de que o desenvolvimento do continente africano só poderia acontecer se houver um sistema económico integrado.

Em vez de alimentar a fogueira xenófoba, que vai crescendo, os líderes sul-africanos deviam pensar em estratégias de como o resto da população poderá tirar vantagem de uma economia da África Austral, que estará cada vez mais vibrante. Na retórica xenófoba sul-africana fala-se muito mal dos imigrantes zimbaweanos e moçambicanos. Estes dois países estão a enfrentar dificuldades que vão passar. O Zimbabwe, por exemplo, poderá brevemente ter uma economia a prosperar.

Há alguns anos, na capital tanzaniana, Dar -es-Salam, notei que havia, nas bombas de gasolina, revistas em Afrikaans. A razão é que havia, na Tanzânia, muitos brancos sul-africanos a trabalharem em vários sectores — incluindo, claro, o das minas. Os voos da South Afrikaans Airways estão sempre cheios de empresários e técnicos brancos a irem para várias partes do continente.

No nordeste da Zâmbia, houve um verdadeiro boom económico por causa da descoberta de várias minas de cobre. Tenho uma sobrinha que está num colégio no nordeste da Zâmbia que me disse que uma boa parte das suas colegas eram sul-africanas brancas que não só gostavam de pratos tipicamente africanos (além do famoso chouriço sul-africano Boerewors), como queriam aprender línguas africanas. Estes jovens brancos sul-africanos já estão a pensar em termos de continente. É este espírito que os líderes sul-africanos deveriam tentar incutir no resto dos seus compatriotas.

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