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A origem e criação do MPLA – João Hungulo

Embora como um acto prático a história já se tenha exaltado desde o tempo de Tucídides e Heródoto, foi apenas no século XIX, que esta se tornou numa disciplina metodologicamente orientada cujos objectivos eram, mais do que representar o passado, explicá – lo. Essa pretensão explicativa, de cujo impulso provinha principalmente das inspirações iluministas, obrigou a história desde a segunda metade do século XVIII a uma penetração cada vez mais intensa no domínio da teorização de seus objectos. Além do estatuto ontológico do passado, impunha-se ao conhecimento histórico uma teoria do comportamento humano em ligação com uma teoria da sociedade, da cultura e, é claro, de suas conjuntas transformações no tempo.

A origem e criação do MPLA - João Hungulo
A origem e criação do MPLA – João Hungulo

A geohistória de Angola está presente em documentos arqueológicos desde a era do Peleolítico, cujo cenário tem por fonte escritos e histórias orais que transmitiram – se às gerações à posteri, desde meados do primeiro milénio. Angola, a terra das maravilhas, da riqueza, das contradições e dos aplausos, um País que situa – se na África Portuguesa, cujo passado era colonial com dependência absoluta de Portugal, como responsável da colónia, até que em 11 de Novembro de 1975, veio altear a bandeira da liberdade em nome da independência consequente de uma guerra acirrada contra o regime colonial, e, também, um golpe militar que ao 25 de Abril de 1974 tomou relevo em Portugal, tendo deposto o regime ditador de Salazar, que imperava desde 1933.

Na ânsia de abrir um novo mundo, os portugueses colocaram – se nos caminhos do ultramar. Animados pelo impulso vigoroso do Infante de Sagres, deram por continuado o sonho inacabado de Gil Eanes onde ele mesmo foi o pioneiro ao abrir as portas do Mar Tenebroso, quando dobrou pela primeira vez o célebre cabo Bojador. Vergaram – se os contratempos impostos sobre a sua caminhada, até se impor a travessia das caravelas portuguesas sobre o equador e, mais tarde, alcançaram a foz do Zaire, como recorda o astrónomo, alquimista, filósofo natural, teólogo e cientista inglês, mais reconhecido como físico e matemático, Isaac Newton “Se fiz descobertas valiosas, foi mais por ter paciência do que qualquer outro talento”.

À viagem feita por Diogo Cão permitiu que tivesse celebrado relações diplomáticas com o rei do Congo, tendo conseguido levar à portugal quatro indivíduos oriundos do reino do Congo como amostragem da sua incursão diplomática, esses mesmos indivíduos que foram transportados à Portugal tinha como missão aprender a língua, para que logo depois de o fazerem estivessem de volta em suas terras natais, e serviriam de farautes dos portugueses e congoleses. Foi a partir desse cenário que teve início o processo de colonização de Angola, que na altura primava por um regime pacífico somente de negócios vinculados à troca de escravos com especiarias que os portugueses traziam para o reino do Congo, e as demais regiões de Angola, mas que no fundo, era um método para manter o domínio da região e mais tarde sob uso da força poder apoderar – se desta.

Neste prisma, em 1484, os quatro indivíduos que haviam viajado para Portugal com o intuito de lá permanecerem e aprenderem a língua lusa, foram devolvidos ao reino do Congo, e se faziam acompanhar de presentes magníficos do rei de Portugal, D. João II, que era enviado para ser entregue ao rei do Congo, como recorda Wilhelm von Humboldt “Afinal, são as conexões com pessoas que dão sentido à vida”.

O rei do Congo ao ver especiarias que lhe eram preciosas, sentiu o seu ciso ocupado pela emoção, veio desde logo, convocar novos indivíduos à serem enviados à Portugal, a fim de aprenderem a língua lusa, bem como a civilização e os costumes de Portugal, como dizia o filósofo francês, escritor e jornalista Albert Camus “Sem a cultura, e a liberdade relativa que ela pressupõe, a sociedade, por mais perfeita que seja, não passa de uma selva. É por isso que toda a criação autêntica é um dom para o futuro”.

Na segunda viagem em que Diogo Cão escalou o reino do Congo, foi – lhe esmiuçado à boca do soberano do reino do Congo, os detalhas costeiros que faziam menção as áreas geográficas que limitavam o Zaire à ilha de Luanda. Cão não se deixou partir sozinho, fez – se acompanhar de um sacerdote católico do qual partia a bênção e a evangelização do novo mundo à descobrir e a impor a santa colonização dos povos, como recorda Ponciano.

“A igreja católica teve importância fundamental para a colonização em função da formação da identidade cultural, social e política trazia para Angola através da educação cristã dos povos e da bagagem sócio-cultural que a igreja abarcava. Com isso, o catolicismo reafirmou sua expansão, colocada em cheque pela Reforma Protestante na Europa, aumentando seus seguidores e firmando bases na colónia portuguesa. No entanto, a figura do Padre que conduziria o rebanho católico deveria corresponder a um estereótipo: deveria ser um homem simples, mas de personalidade não tacanha, virtuoso, com conduta irreparável, educado e religioso, pois, assim, ao mesmo tempo em que estaria convivendo no quotidiano das pessoas comuns, manteria distância destas por meio do respeito e da obediência do leigo em relação ao clero, e seria o pastor que conduziria seu rebanho ao caminho da salvação eterna”.

O padre que vinha à reboque de Cão ficou sozinho no reino do Congo, não ouvia mais o latir ou o ganir deste, era o silêncio que lhe tornou companheiro, com a divina missão de evangelizar o rei do Congo, rendeu – se à resistência neste espaço geográfico […], transmitir – lhe os princípios religiosos do catolicismo, torná – lo adequado à vontade de Deus, até tê – lo convertido em cristão, para que fosse abandonar as míticas crenças que fazia – lhe refém da macumba antiga. Todavia, as coadjuvações estabelecidas entre o reino do Congo e a terra de Camões continuavam vivas, contudo, Diogo Cão no seu regresso à terra Lusa, fez – se seguir de mais súbditos do reino do Congo, com intuito de transmiti – los a civilização lusa, bem como torná – los católicos. Esses tornaram de regresso à terra que os viu nascer em 1490, na expedição de Rui de Sousa, uma grande expedição que abarcou religiosos colonos na sua índole, tendo – se constituída também por soldados armados e operários, era aquele mundo em que os olhos de D. João II fitavam, seus planos sentiam-se completamente engendrados sobre tal mundo, cabia – lhe agora impor a fase da implementação de acções esclavagistas antes pensadas e planificadas, como recorda Novais:

O regime do comércio colonial – isto é, o exclusivo metropolitano no comércio colonial – constituiu-se ao longo dos séculos XVI, XVII e XVIII, no mecanismo através do qual se processava a apropriação por parte dos mercadores das metrópoles, dos lucros excedentes gerados nas economias coloniais: assim, pois, o sistema colonial em funcionamento, configurava uma peça da acumulação primitiva de capitais nos quadros do desenvolvimento do capitalismo mercantil europeu.

Logo à chegada dessa grande expedição portuguesa, que tinha por sujeito chefe Rui de Sousa, saiu com admirável agrado no rei do Congo, a vontade de ser baptizado em nome da igreja católica, tendo também sua rainha solicitado o baptismo aos portugueses religiosos, ao filho varão, não lhe foi poupada tal oportunidade divina, bem como à corte real lá evidente, todos em uníssono, tinham sido baptizados em nome da fé cristã. A amizade entre Portugal e o reino do Congo fluía como água, como faz recordar o escritor francês André Maurois “A amizade supõe a confiança, união de pensamentos e esperança”. Neste prisma, em homenagem aos soberanos de Portugal e ao malogrado herdeiro do trono, o rei do Congo tomou o nome de D. João, a rainha passou a chamar-se D. Leonor, e o príncipe, D. Afonso. Entretanto, os Portugueses fundam S. Salvador (1491) que se tornou a capital do reino do Congo, como recorda Samuel Huntington “[…] a razão fundamental da expansão europeia foi tecnológica: descoberta de processos de navegação oceânica e desenvolvimento de meios militares para as conquistas. O Ocidente venceu o mundo, não pela superioridade das suas ideias, valores ou religião, […] mas antes pela superioridade em aplicar a violência organizada. Os Ocidentais esquecem, com frequência, este facto; os não-ocidentais, nunca.”

Depois que o ácido do colonialismo se instalou por mais de 5 séculos, era inevitável que nascessem homens dispostos à socorrer os descendentes de Angola e a própria terra que via – se arruinada pelo enxofre colónia, desde então, em 1950, o Patriota (José Eduardo dos Santos) frequentava o liceu Salvador Correia, um dos liceus mais emblemáticos da capital lusitana – colonial na altura, pela ironia do destino, a pobreza extrema nos musseques afogava a felicidade da juventude de então, o Patriota (José Eduardo dos Santos) era nesta época uma das figuras mais efusivas de Sambizanga, chegava a hora de despertar e tocar o sino da revolução: o homem que acabou por ser – lhe chamado de “Viajante”, em virtude do seu passado pueril, descendente do Musseque, dotado de dons preciosos, que brilhava de feito à ouro no plano artístico, sendo este um músico, footbalista, um jovem dotado de alta capacidade de revolução e de motivação das massas, movimentou – se aos grupos clandestinos de então, logo, que o MPLA fora criado nos musseques de Luanda em 1956. Em 1961 o Patriota (José Eduardo dos Santos) partiu para longe de sua terra natal Angola, o homem que acabou sendo chamado de Viajante, encontrava – se em 1962 no Congo – Kinshasa, e em 1963 no Kongo – Brazzaville, as suas veias ferviam da vontade de ferro de lutar com armas nas mãos até a morte, contra o colonialismo português que ruía a vida do povo angolano ao não mais poder ser. Tornando – se um dos jovens mais procurados pela PIDE em 1963, em virtude de ser o Patriota o actor primeiro da motivação da JMPLA que acabava de nascer nessa era de tumultos e revoluções. Quando presente no Congo – Léopoldiville, o Patriota e os seus contemporâneos tinham a meta única de instituir neste local uma equipe de futebal, de então, com o desporto também nasceu a revolução do Patriota para o bem da nação angolana, sendo este um dos eles de ligação entre os actos revolucionários e a juventude angolana, um modelo de motivação inventado pelo Patriota com o intuito de poder desperta a coragem do jovem angolano plasmada na luta contra o colonialismo português. Desde logo, o Patriota começou a prestar o seu mais elevado serviço à pátria, passando de um jogador de futebal à um patriota de elevado carisma e vontade de revolucionar a pátria iníqua, presa nas trevas e na agonia colonial.

No âmbito desportivo, nota – se a co – existência do Patriota (José Eduardo dos Santos) como um jogador de futebal de elite, membro da equipe Futebal Club de Luanda, um craque do desporto colonial, também músico, que com os seus dotes formula e dinamiza revoluções clandestinas no seio juvenil numa época chamada colonial. No que toca os contemporâneos do Patriota (José Eduardo dos Santos), nota – se que, em 1950 à 1955 Neto tinha sido detido por ser acusado de ter ligações ao MUD e ao PCP de incitar revoluções no seio dos estudantes contra o Estado Novo e de colocarem à CASA (Casa dos Estudantes do Império) em chamas contra o regime de Salazar. Era enorme a preocupação com que os estudantes angolanos Neto, Lara, Viriato, Pinto de Andrade tinham no concernente ao estado sócio – político de suas terras. Era imperativo abandonar a Metrópole, ir à mar até chegar à Angola e iniciar uma actividade séria de formação do MPLA e afirmação da luta armada contra o «Regime de Salazar».

A PIDE engoliu a paz dos estudantes angolanos, que retidos se faziam no frio pelo medo de evocar a alma angolana, o racismo e a segregação os tornara prisioneiros de consciência, com vozes sequestradas pelo terror da tirania bélica de Salazar […]. Como subterfúgio acorreram à constituir grupos de expressão clandestinas (tal quanto o fez o Patriota em 1961 quando fugia de Angola com destino ao Congo), para apelar ao socorro à alma da cultura nacionalista, e, evocar as suas incisivas necessidades de liberdade. Aderindo sem receio nenhum à movimentos opostos à vontade colonial, como o Movimento de Unidade Democrática (MUD) e o Partido Comunista Português (PCP). Os angolanos desenhavam um excelente relacionamento no plano social com os dirigentes do MUD e do PCP, impondo de facto, uma grande abertura e simpatia com os membros dessas agremiações opostas ao regime colonial. A Casa dos Estudantes do Império, fortemente vigiada e infiltrada pela PIDE [desde 1945], não estava nem um mínimo preparada e sequer dispunha de margem de manobra para responder às preocupações políticas de muitos dos seus afiliados; tanto mais que a sua própria natureza e composição não lhe dava liberdade para se ocupar de outras tarefas que não fossem de carácter estritamente académico. Mas a resistência dos nossos heróis venceu todos os obstáculos impostos ao longo da trajectória até impor – se uma liberdade de todos os angolanos com a independência nacional atingida ao 11 de Novembro de 1975.

BEM – HAJA!

Fonte: Club-k.net

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