ELE É (APENAS) PRESIDENTE DOS ANGOLANOS DO MPLA

Hoje, de uma forma que não gera dúvidas, João Lourenço assumiu que só é Presidente dos angolanos do MPLA. Na cerimónia de branqueamento da batalha do Cuíto Cuanavale, condecorou meia centena de antigos combatentes, nenhum deles esteve ligado às Forças Armadas da Libertação de Angola (FALA) – exército da UNITA, mas apenas às Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA), do MPLA, do seu MPLA.

Sobre a cerimónia hoje realizada no Cuíto Cuanavale, integrada no âmbito das celebrações do “23 de Março”, o suposto Dia da Libertação da África Austral, data em que, em 1988, terminou a batalha homónima, sendo “feriado regional” na África Austral, João Lourenço reiterou tratar-se de um sinal de reconhecimento a todos os que nela combateram.

A fazer fé nos actos e nas palavras de João Lourenço, ficamos a saber que, afinal, a UNITA não participou nos combates. Do mesmo modo será lícito pensar-se que a UNITA nunca existiu. Assim sendo, a coligação MPLA/cubanos e russos limitou-se a lutar contra os sul-africanos. É, merecidamente, um novo capítulo do anedotário angolano e africano.

“Este dia representa um sinal de reconhecimento a todos aqueles que, com suor e sangue, tornaram possível não só a libertação de Angola, mas a independência da Namíbia a libertação de Nelson Mandela e a instalação de um regime democrático na África do Sul”, afirmou João Lourenço em mais num claro atestado de matumbez aos seus camaradas do MPLA (que ele sabe terem os poucos neurónios ligados ao umbigo) e não – como o MPLA sempre pretendeu – aos outros que não sendo do seu partido não têm a cabeça como apêndice decorativo.

“É este punhado de combatentes que acabamos de condecorar, em representação de todos, uma vez que não possível fazê-lo com todos, os que tornaram possível aquele que era um sonho, vencer o exército do regime do ‘apartheid’. Eles tornaram isso possível”, frisou.

De facto, o que parecia ser apenas um sinal de demência política e de degeneração cognitiva revela ser muito mais grave, assemelhando-se ao estertor mental de alguém acometido pela doença de Alzheimer.

Esclareça-se as entidades competentes, nomeadamente o Departamento de Informação e Propaganda do Comité Central do MPLA, que a doença de Alzheimer é uma enfermidade degenerativa cerebral que afecta as capacidades mentais, a memória e a orientação, podendo atingir a demência.

Além de João Lourenço outros chefes de Estado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) marcaram presença, com destaque para os presidentes da Namíbia, Hage Geingob, da República do Congo, Dennis Sassou Nguesso, República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, e do Zimbabué, Emerson Mnangagwa, com os restantes 11 Estados-membros a fazerem-se representar por ministros.

No acto político de propaganda e branqueamento do MPLA, além de uma intervenção, João Lourenço condecorou Cuba e a Rússia – “em representação da antiga União Soviética” -, através dos respectivos embaixadores em Angola, pelo papel “inquestionável” que ambos desempenharam em todo o processo, não apenas na batalha do Cuíto Cuanavale, mas de uma forma geral na, presumimos, descoberta conjunta com o MPLA do microondas, da cura da malária, do raio-x, da radioactividade, da penicilina, do viagra, da insulina, da roda, da pólvora, da internet, etc. etc..

“Em relação à Rússia, a então União Soviética esteve em todo o processo de luta contra o colonialismo português, primeiro, e, depois, em toda a resistência do povo angolano ao regime do apartheid. Tal como Cuba, com os seus homens que aqui verteram o seu sangue, no Cuíto Cuanavale e noutras batalhas, que foram inúmeras”, disse João Lourenço à Lusa.

A efeméride tem na base o fim daquela que é considerada a mais dura batalha da guerra civil angolana, ocorrida naquela região, e que, segundo a versão das autoridades do MPLA, levou à paz em Angola, abriu portas ao fim do regime de segregação racial (‘apartheid’) que então vigorava na África do Sul e à independência da Namíbia e que, é claro, colocou de volta os rios africanos a nascer na… nascente e a desaguar na foz.

A batalha do Cuíto Cuanavale decorreu entre 15 de Novembro de 1987 e 23 de Março de 1988 e opôs as FAPLA, apoiadas por Cuba, Rússia e até por Portugal, e as FALA, com apoio da África do Sul.

Ainda segundo a argumentação das autoridades do MPLA (as únicas que estão no Poder desde 1975), o fim da batalha marcou um ponto de viragem decisivo na guerra (que só terminaria em 2002), incentivando paralelamente um acordo entre sul-africanos e cubanos para a retirada de tropas e a assinatura dos Acordos de Nova Iorque, que deram origem à aplicação de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU, levando à independência da Namíbia e ao fim do regime de ‘apartheid’.

Por seu lado, a UNITA, que esteve ausente da cerimónia, considera a celebração da efeméride uma “deturpação da história” por parte do executivo do MPLA, “apoiada por governos de proximidade ideológica”, e que constitui “um elemento de referência propagandístico” que “não faz sentido celebrar” num contexto de reconciliação nacional.

“Não faz sentido em Angola comemorarem-se vitórias e derrotas num momento de reconciliação nacional. Acima de tudo é um elemento de referência propagandístico, indiscutivelmente. Não aconteceu nada daquilo que formal e oficialmente a propaganda traz”, referiu sexta-feira à Lusa o líder parlamentar da UNITA, Adalberto da Costa Júnior.

“É uma deturpação clara histórica, de continuidade ideológica que, na região, acabou também por ser abraçado por governos de proximidade ideológica. Mas os historiadores vão acabar por escrever a história real. Não estou muito preocupado. Preocupa-me sim é, numa altura destas, em que temos desafios de consolidação nacional, comemorar datas de divisão nacional. Não faz sentido nenhum”, acrescentou.

Antes de ser proposta e aceite pelos chefes de Estado e de Governo da SADC, que a aprovaram como feriado regional a 18 de Agosto de 2018, a data foi nove dias antes institucionalizada como feriado nacional angolano, uma medida aprovada apenas (é claro!) pelos deputados do MPLA.

A SADC foi criada a 17 de Outubro de 1992 e integra Angola, Moçambique, África do Sul, Botsuana, República Democrática do Congo, Essuatini (antiga Suazilândia), Lesoto, Madagáscar, Malaui, Maurícia, Namíbia, Seychelles, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabué.

Folha 8 com Lusa

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *