Sociedade

À beira da morte, peões exigem segurança

Luanda - As mortes por atropelamento nas estradas de Luanda, em particular na Avenida Deolinda Rodrigues, continuam a constituir sério problema para a sociedade.

  • Acidente rodoviário na Avenida Deolinda Rodrigues, Luanda
  • Estrada de Viana que liga km 30, Catete, Centro da Cidade, Luanda Sul, Cacuaco e Zango

Apesar de todo o investimento do Governo para melhorar a prevenção rodoviária, o aumento de acidentes, nessa zona da capital do país, revela falta de eficácia das acções.

Na última década, já muito foi dito, escrito e discutido, em diversas plataformas de media, sobre os acidentes de viação na antiga “Estrada de Catete”.

Desde então, as autoridades têm feito notáveis investimentos multifacetados, mas, apesar disso, ainda preocupa o número de peões brutalmente “colhidos” por viaturas.

Quando se celebra neste domingo (17) o Dia Internacional das Vítimas das Estradas, uma reflexão  impõe-se. Afinal, o que está na base do aumento de acidentes nesta avenida, quando, diariamente, ocorrem acções inerentes à prevenção rodoviária?

A escolha da Deolinda Rodrigues (ex-Estrada de Catete) como foco desta reflexão não é vã, nem por acaso. Trata-se de uma das mais estratégicas vias de circulação em Luanda.

Baptizada com o nome de uma mulher que é referência da luta de libertação nacional, esta via começa no largo onde foi proclamada a independência nacional e conduz os seus utentes para fora da capital, pelo norte, em direcção a Catete (daí o seu anterior nome).

A Deolinda Rodrigues é seguramente um dos troços mais movimentados do país, que se estende ao longo dos novos e mais pobres centros habitacionais – Luanda tem crescido muito para norte.

Também está alinhada em paralelo com a principal (mais concorrida) linha férrea do país, sabendo-se que o comboio é o meio de transporte mais acessível para a população.

A avenida, que termina no maior conglomerado estudantil (Largo das Escolas), é ladeada por mercados e pracinhas, como Congolenses e Estalagem, que atraem milhares de cidadãos.

A partir deste quadro, pode-se inferir a quantidade de trafego que este troço regista por dia e a sua importância estratégica para a interligação da cidade capital.

Em face disso, no quadro da prevenção rodoviária, o Governo já deu respostas arquitectónicas e de dissuasão para a tornar mais segura, como a aplicação de mais de uma dezena de pedonais.

Além disso, os separadores de betão com meio metro, colocados no eixo da via, receberam vedação em arame, com mais de dois metros.

Todavia, o problema da falta de segurança rodoviária nesta avenida tende a agudizar-se. Ao contrário do desejado, dezenas de peões continuam a estar, todos os dias, à beira da morte.

As estatísticas oficiais não deixam margens para dúvidas, até para aos mais optimistas.

Em média, todas as semanas, pelo menos duas pessoas, quase sempre em idade produtiva, são atropeladas e acabam em hospitais, com lesões corporais graves.

Muitas vítimas chegam a conhecer morte imediata na Deolinda Rodrigues, não apenas pela violência dos acidentes, mas também por ineficácia ou demora na assistência aos sinistrados.

Contra todas as expectativas, continua a assistir-se nessa estratégica zona de Luanda, em plena era de paz, bárbaros e repugnantes mortes por negligência.

Um olhar atento aos números das autoridades policiais é suficiente para perceber a dimensão da questão e concluir que o problema das mortes nas estradas precisa ser resolvido o quanto antes.

Só em Setembro, os números cresceram em relação ao mês anterior. Dez peões foram brutalmente atropelados na Deolinda Rodrigues, de um total de 105 vítimas em Luanda.

Destas (105), 33 não resistiram às violentas pancadas e morreram. Os períodos das 12h00 às 18h00 (40 casos) e das 18h00 às 00h00 (33) revelaram-se os mais sinistros.

As mortes e ferimentos massivos, nesta estrada, levantam dúvidas em relação à eficácia das campanhas de prevenção rodoviária e das infra-estruturas erguidas nas estradas.

É bem verdade que as autoridades governamentais têm investido regularmente na construção de pedonais e na sinalização de passadeiras, para fazer face ao problema.

Por isso, em toda a extensão da Deolinda Rodrigues foram construídas quase meia centena de pedonais (metade delas já inoperantes) e criadas zonas de passagem (passadeiras) no troço FTU/BCA/Robaldina/Estalagem, um dos mais críticos e sangrentos desta avenida.

Entretanto, apesar do esforço, é ponto assente que o quadro continua sombrio.

São, em média, oito atropelamentos/mês e dezenas de mortes, por causa da imprudência de automobilistas, da falta de cultura de preservação dos bens públicos, por parte dos cidadãos, ou da travessia arriscada e desordenada de peões.

Lamentavelmente, em certos troços da avenida os blocos de betão e a vedação já foram derrubados, o que estimula os peões a trafegar fora dos locais autorizados.

A esses factores junta-se a falta de iluminação pública, apesar de as autoridades fazerem alarde de melhorias no fornecimento de energia eléctrica na capital do país.

Por conta da escuridão, duas em cada dez pessoas que atravessam a avenida, à noite, têm grandes probabilidades de ser colhidas a meio da estrada, sair feridas ou morrer.

Basta ir a uma unidade hospitalar circunvizinha, como ao Hospital Américo Boavida, para perceber quantas pessoas ficam feridas na “Deolinda”, por atravessar no escuro.

Elas ficam, diariamente, a mercê de “carros-voadores”, que rasgam a avenida sem grande visibilidade e possibilidade de “frear” diante de obstáculos repentinos.

A inobservância das regras de trânsito, quando a via tem fraca visibilidade (por deficiente iluminação, chuva ou neblina), e a “preguiça” dos peões de “enfrentar” as escadas das pedonais continuam a estar na base de centenas de óbitos, dor e luto nas famílias.

A ausência de controlo de velocidade (radares) e o policiamento para “impor” o cumprimento das normas a observar nas travessias serão também cúmplices desta situação.

A história repete-se e quase sempre os gritos de socorro e de dor, os choros de desespero por atropelamentos mortais ecoam na avenida, mas a solução do problema tarda a chegar.

Portanto, impõe-se questionar: com todas as medidas que oneram os cofres do Estado, como se justifica que as mortes avultem e não diminuam na Deolinda Rodrigues?!

Diante desse quadro sombrio, soluções eficientes devem ser adoptadas, urgentemente.

Fica, de todo, difícil, perceber o que falta para as centenas de postes gerarem iluminação, particularmente na BCA, nos quarteis, na Robaldina e na Estalagem, quando todos sabem tratar-se de zonas de iminente perigo e exposição à morte?

Os postos de luz estão instalados naquela avenida há várias décadas, exposto à chuva e ao sol, mas não iluminam as estradas. Até quando esse deficiente serviço público?

O problema é recorrente e já foram estudadas várias soluções, mas a verdade, nua e crua, é que a estratégia continua falida. Ninguém consegue iluminar a via e pôr fim às  bárbaras mortes.

As pedonais instaladas também estão a degradar-se e, à noite, tornam-se inseguras, tomadas por criminosos que se aproveitam da escuridão para assaltar pacatos cidadãos.

Como esperam as autoridades que, nessas condições, o peão ganhe consciência para evitar trafegar nas sangrentas estradas da Deolinda Rodrigues sem a luz do sol?

Há que fazer um grande trabalho de sensibilização de peões, para evitarem circular nesses pontos negros, à noite, sem coletes reflectores ou fora das passadeiras.

Mas isso só não basta. Torna-se necessário instalar câmaras de vigilância ou semáforos, para desencorajar o excesso de velocidade nas zonas onde se permite a travessia fora das pedonais.

Para que toda essa estratégia tenha impacto e os gastos públicos sejam justificados, urge recuperar os postos de iluminação na Deolinda Rodrigues. É esta a chave da questão.

Deve-se, igualmente, recuperar e aumentar as pedonais, promover mais operações stop (nocturnas) nas zonas de grande travessia. Só com essa combinação de esforços poder-se-á dizer que as mortes têm os dias contados na Deolinda Rodrigues.

Sem isso nada mudará. Serão feitos discursos animadores, programas bem elaborados, mas os projectos das autoridades governamentais continuarão a não ter impacto.

A questão dos atropelamentos nas estradas tem de ser encarada com seriedade e mais acções concretas. O povo, que se arrisca nas estradas, quer resultados palpáveis.

A hora é de preservar a vida, evitar mortes, conduzir com responsabilidade e atravessar em segurança. Se assim for feito, mais facilmente se acabarão as desculpas de que os atropelamentos nas estradas se devem à falta de visibilidade dos automobilistas.

Ficará, assim, mais fácil assacar as responsabilidades dos acidentes mortais e evitar, como ainda ocorre, que condutores responsáveis sejam criminalmente responsabilizados, mesmo quando as mortes se devem à imprudência dos peões.

De mãos dadas, é possível preservar a vida e dizer basta de morrer atropelado.

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Bernardo Seculo

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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