Sociedade

Albinos sonham com um país sem discriminação

A comunidade angolana de albinos continua a sofrer com a exclusão em todas as dimensões da vida (económica, social, política) e reclama por acções afirmativas que ajudem a transpor as dificuldades.

Albinos sonham com um país sem discriminação
Albinos sonham com um país sem discriminação

Fotografia: Maria Augusta| Edições Novembro

A análise do contexto sociocultural é essencial para desenhar políticas públicas correctas, que cumpram o ob-jectivo de construir soluções para todos. Sem excepções.

Três senhoras de camisas simples e pele bem clara e cabelos amarelos estão sentadas no auditório do Cefojor, em Luanda. Depois saem da sala em conjunto.
Celeste Domingos, 37 anos, deslocou-se de Caxito (Bengo), com o recém-nascido nos braços para acompanhar a 1ª Conferência Pró- Albinismo em Angola, que aconteceu ontem e foi organizada pelo Movimento Pró- Albino e pela Associação de Apoio aos Albinos de Angola (mais conhecida como 4 As).
Celeste vende pão na pracinha e acomoda-se com a mãe, o marido e mais quatro filhos na mesma casa. Diz não enfrentar grandes problemas no seio familiar, ao contrário de Luzia Albino, 47 anos, que apenas vive com um tio e mais cinco filhos.
“Já tenho filhos com vinte anos, mas não consigo apoiá-los devido às dificuldades financeiras. Estou desempregada, já trabalhei na limpeza de instituições públicas mas neste momento estamos assim. Não tenho possibilidade de comprar os cremes de protecção solar e as pomadas para proteger a pele”, explicou.
Ao lado das duas amigas está Conceição Daniel, 31 anos e quatro filhos. Escuta as conversas e percebe-se pela expressão facial que também pretende intervir.
“Em Caxito, estamos a precisar de apoio, necessitamos de pelo menos uma farmácia onde seja possível comprar o protector solar a preços mais acessíveis. Em Caxito faz muito sol. Praticamente não saio de casa. E procuro banhar três vezes por dia”, disse Conceição Daniel ao Jornal de Angola. Os cidadãos portadores de albinismo enfrentam três grandes problemas ao longo da vida: baixa visão, extrema sensibilidade da pele e as questões culturais e psicológicas que acabam por ter um grande impacto no dia-a-dia.
O contexto acaba por moldar comportamentos, atitudes e até os gostos que parecem muito pessoais mas que, no fundo, são resultado de várias influências. E os países têm responsabilidades acrescidas na defesa dos direitos dos cidadãos. Segundo o artigo 21.º da Constituição da República de Angola (relativo às tarefas fundamentais do Estado), o país tem o dever de assegurar os direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos, promover políticas que permitam tornar universais e gratuitos os cuidados primários de saú-de e promover sem preconceitos a igualdade de direitos e de oportunidades entre os angolanos.
Xavier Agostinho tem o ensino médio completo (em Ciências Humanas e Sociais) e vive no Cazenga (Luanda). É num dos maiores e mais antigos bairros da capital que a associação 4 As tem a sua base. Vive apenas com um tio e admite que “a convivência familiar e social não é saudável”.
“É aqui que as responsabilidades sobem para outros níveis. Cabe ao Governo trabalhar para melhorar a inclusão social dos albinos, seja no trabalho, na escola ou na saúde pública”, frisou.

Educação para a inclusão

A diferença sempre chama à atenção da sociedade e das pessoas em geral. Nascer com uma cor da pele totalmente oposta à dos pais e restantes familiares pode ser um es-cândalo. É necessário olhar com muita atenção para os mitos, rituais e tradições.
Armindo Jaime Gomes, também conhecido por Arja-go, é natural de Benguela. Tem como foco principal o estudo do acervo pré-colonial umbundu. Ainda que o seu interesse seja abrangente, já abordou a questão do albinismo dentro da cultura do Planalto Central.
“Até a década de 1930 não era fácil encontrar um albino naquela região”, explicou. “Julgo que a introdução da Missão do Dondi e as novas abordagens que promoveu deram origem a algumas mudanças. E eliminaram ou modificaram tradições”, disse Armindo Jaime Gomes.
Segundo o professor da Academia Militar do Exército, no Lobito (Benguela), na língua umbundu a palavra que define o albinismo é ohasa. “Entre outras possíveis traduções, em português significa praga, medo ou azar”, explicou.
O nascimento de um albino significava que os ancestrais estavam descontentes com alguma atitude dos progenitores. Algo cometido no passado seria motivo de penalização para o presente – com o nascimento de uma pessoa albina – e para o futuro. Era sinal de péssimo agoiro.
“Hoje o contexto é diferente. Já temos pastores, líderes comunitários e deputados albinos. Significa que a tradição, a cultura, também se vai alterando. Defendo que a mudança de mentalidades em relação ao albinismo deve ser reforçada ao nível da educação formal da escola. A educação é a solução”, acredita Armindo Jaime Gomes.
Pascoal Ovídio é dermatologista no Hospital Américo Boavida, onde o serviço especializado acompanha 513 pacientes com albinismo. Acredita que a solução para amenizar a vida das pessoas está na educação, informação e comunicação. Com uma ressalva.
“Para lá das questões básicas é preciso que o sistema público de saúde funcione devidamente. E ainda antes deste tema, precisamos de empoderar as pessoas e dar-lhes dignidade”, acredita o dermatologista.
Também ao nível das so-luções para mitigar os problemas da pele, Pascoal Ovídio defende uma abordagem específica.
“Tal como desenhamos programas específicos para determinadas doenças também devemos fazê-lo para o albinismo. Defendo que estas pessoas devem ter acesso aos cremes e protectores solares de forma gratuita”, disse o especialista.
A Conferência Pró-Albinismo em Angola contou com a presença do secretário de Estado da Comunicação Social, Celso Malavoloneke, da Justiça e Direitos Humanos, Ana Celeste Januário, e dos Assuntos Sociais, Ruth Mixinge.

Ministro lamenta morte de Xavier

O ministro da Comunicação Social, João Melo, lamentou a morte do jornalista reformado, José Eduardo Oliveira Xavier, ocorrido no dia 12 do corrente mês, aos 61 anos de idade, na cidade do Uíge. Na mensagem de condolências, João Melo refere que tomou conhecimento da ocorrência com “profundo pesar”. O comunicado sublinha que o jornalista reformado José Xavier ingressou na Agência Angola-Press no dia 1 de Abril de 1982, e desempenhou, entre outras funções, as de delegado da ANGOP nas províncias do Moxico e do Uíge, nesta última, onde exerceu também o cargo de director da Comunicação Social, cargos que assumiu com profissionalismo, carácter e elevado sentido de responsabilidade. “Nessa hora de dor e luto, endereço à família enlutada e ao colectivo de trabalhadores da ANGOP, em meu nome pessoal e dos responsáveis e funcionários do Ministério da Comunicação Social, os nossos mais profundos sentimentos de pesar”, lê-se na mensagem. O malogrado nasceu a 15 de Julho de 1958, no Cuimba, província do Zaire.

JA

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