Sociedade

Benguela chega aos 402 anos sem a alegria dos velhos tempos

Os 402 anos da cidade de Benguela, comemorados ontem, foram certamente um dos menos festejados nas ultimas décadas. Foi particularmente notório o crescendo de uma insatisfação dos munícipes, pelo estado actual da cidade, aquela que sempre ostentou com orgulho o pomposo titulo de “cidade-mãe-das-cidades”.

Benguela chega aos 402 anos sem a alegria dos velhos tempos
Benguela chega aos 402 anos sem a alegria dos velhos tempos

Fotografia: Francisco Bernardo| Edições Novembro

Foi decretada a habitual tolerância de ponto e logo pela manha foram hasteadas a bandeira nacional de Angola e a da cidade, seguida de uma missa de acção de graças com a presença das autoridades locais e convidados, mas tudo se desenrolava num ambiente de pouco entusiasmo.
Imediatamente, as pessoas começaram a reclamar: onde estavam as exuberantes “majorettes”, criadas pela grande atleta que foi Esperdinova Teixeira e a Icónica Bebe Matos, com os seus trajes multicoloridos, marchando pelas ruas da cidade em rodopios cadenciados, ao som festivo de uma charanga de tambores e sopros tocados por jovens e crianças alegres?
Tudo era feito localmente e com a devida antecedência, obra benemérita de ilustres senhoras da nossa sociedade: as saias de pregas, as bermudas com dobras ao joelho e as camisetas de cetim e os chapéus de feltro com fitas encaracoladas. Todo mundo vinha para a rua saudar a passagem do desfile ou acenava das janelas. Quando se tratava do aniversario da sua cidade, os benguelenses jamais deixavam os seus créditos por mãos alheias. Mas ontem o desfile não saiu para as ruas, como acontecia num passado recente. No discurso oficial, só se fala em dinheiro, na ordem de milhões e milhões de kwanzas.
Para onde terá ido parar a alma e o orgulho benguelenses, que fervilhavam nas horas festivas de escancarar as portas para receber os milhares de visitantes vindos de todos os pontos do país e do mundo, para conhecerem os encantos da nossa Benguela secular: a praia morena e suas encantadoras sereias que inspiraram os poetas, o enigma do farol sombreiro entrando mar adentro, na enseada do Santo António, ou o largo da Peca com o seu canhão dos tempos de antanho, apontando algures na direcção do Dombe-grande, onde se acoitavam os revoltosos que se atiraram de lanças em riste contra Manuel de Cerveira Pereira, um homem irascível que, às ordens de Filipe II de Espanha, que reinava durante a ocupação de Portugal, aportou com as suas caravelas e uma forca de 130 homens nas proximidades da foz do rio Cavaco, em 1617, e a 17 de Maio instalou o primeiro padrão simbolizando a fundação da cidade, passando a representar a sede do mítico reino de Benguela.
Outro símbolo da alma benguelense é o seu pequeno aeroporto, que os políticos mudaram de nome para “17 de Setembro” e que o povo não aceitou, apesar do respeito que sempre dedicou ao Presidente Neto. O aeroporto, ou campo de aviação, como era nos seus primórdios, chamava-se “Dakota” ou “Dokota”, em homenagem a primeira aeronave que ali aterrissou.
Foi o povo quem lhe deu o nome, porque foi o povo de Benguela que o construiu com as suas próprias mãos. Pessoas anónimas que, face à apatia das autoridades em disponibilizar verbas para a construção do aeródromo, resolveram elas próprias construírem o “seu aeroporto”. Cada um dava o que tinha, sacos de cimento, carradas de brita, blocos e tijolos e assim se concluiu a obra. Inúmeros exemplos existem pela cidade que facilmente atestam que em Benguela crise nunca foi o mesmo que desolação. Para enfrentar as grandes dificuldades, existe a resiliência e o espírito de superação. Neste capitulo, os benguelenses não são melhores nem piores que os outros, são apenas diferentes e disso muito se orgulham.
Foi essa mensagem que os cidadãos de Benguela reivindicaram ontem, que é o seu legitimo direito a participar nos assuntos que lhes dizem respeito. Querem ajudar para que a sua cidade volte a brilhar como outrora, sem amontoados de lixo nas ruas, as suas avenidas esburacadas, sem iluminação publica e com uma criminalidade crescente. Por todo o lado dá-se de caras com o desleixo e a incúria e isso os entristece sobremaneira.

JA

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