Sociedade

Foi pastor de rebanhos hoje é licenciado em Direito

Jorge Lipuleni Kauhongelwa, filho de Miguel Kauhongelwa e de Perpétua Hipondoka, de 31 anos de idade, é natural de Castanheira de Pêra, Município de Matala, Huíla.

Foi pastor de rebanhos hoje é licenciado em Direito
Foi pastor de rebanhos hoje é licenciado em Direito

Jorge Lipuleni Kauhongelwa nasceu na Matala, na Huíla
Fotografia: DR

Jorge Lipuleni Kauhongelwa nasceu na Matala numa altura em que os pais para lá se deslocaram por motivos de guerra na Província do Cunene.
Em 1990, de volta ao Cunene com os seus pais, foi viver com a avó paterna no quimbo de Onambabi, Município do Kwanyama, Comuna de Ondjiva, a 15 quilómetros da cidade, onde ajudava a avó nas tarefas do campo.
Apenas começou os seus estudos primários em 1998, quando tinha dez anos, pois só nesse ano o Estado criou uma escola pública na localidade.
“Lembro com muita emoção quando contava os números pelos pauzinhos que a professora da iniciação, Ana, mandava trazer para as aulas, e as carteiras de pauzinhos que fazia e que no dia seguinte encontrava desfeitas.”
Jorge Lipuleni Kauhongelwa conciliava os estudos com as tarefas da pastorícia. Os pais tinham bois e cabritos que ele teve de apascentar durante longos anos na sua meninice.
Na escola “Oshilao” o ensino só ia até à 4.ª classe (infelizmente até agora), Jorge Lipuleni Kauhongelwa aprovou para a 5.ª classe em 2002 e realizou o sonho de sair da zona rural para a cidade de Namacunde.
Neste período sofreu muito “buling” na escola e no bairro porque não sabia falar correctamente a língua portuguesa. Por este motivo, o professor de Língua Portuguesa disse-lhe que tinha de repetir a 5.ª classe, embora estivesse bem nas outras disciplinas.
Após ter passado para a 6.ª classe, foi viver para a cidade de Ondjiva, pois, diz-nos: “Entendi que na capital da província teria mais facilidade e rapidez de me enquadrar na vida urbana por via de maior interacção social.”
Em 2007 Jorge Lipuleni Kauhongelwa ingressa no ensino médio, para fazer o curso de Administração Pública, e quatro anos depois, em 2011, inscreve-se no Ensino Superior no Curso de Direito, no Instituto Superior Politécnico Independente ISPI-Huíla, que conclui em 2015.
Jorge Lipuleni Kauhongelwa chegou a exercer o cargo público de chefe de secção durante um ano e seis meses no Gabinete Jurídico e de Intercâmbio do Governo Provincial do Cunene.
Jorge Lipuleni Kauhongelwa tem o pai na reforma e a mãe, professora, já no limite da sua carreira, só não pediu a reforma porque é única professora na Escola de Onambabi, e se sai os alunos ficam sem aulas.
“Aprender a Língua Portuguesa… a imaginação valia mais que a realidade. Acabávamos por decorar textos, mas com pouca noção do seu sentido e alcance. Só depois de começar a falar fluentemente o português comecei a lembrar-me de muitas coisas que aprendera na minha primeira Escola de “Oshilao”, onde a maioria daqueles meus colegas não passaram da quarta classe, por razões financeiras.
Como no Cunene não havia Curso de Direito, ele rumou para o Lubango, procurando casas baratas, viveu nos bairros da Mitcha, Minhota Senhora do Monte (Verdinha) e Comandante Cow-boy em permanente luta com os pagamentos da renda e da propina da escola.
“Eu não tinha dinheiro para comprar os livros e todos os dias os professores perguntavam se já os tinha adquirido”, lamenta Jorge Lipuleni Kauhongelwa, que lamenta: “Tinha de viver do favor de fotocópias de alguns colegas que conseguiam comprar os livros.”
Ultrapassando todas as dificuldades, que o desesperavam, Jorge Lipuleni Kauhongelwa hoje é advogado estagiário, já no fim do processo para aquisição da cédula definitiva, e é professor.
Após o regresso ao Cunene, em 2017, recebeu uma ligação para entregar o “curriculum vitae” no Governo Provincial, e começou a trabalhar no Gabinete Jurídico em comissão de Serviço. Deixou de exercer o cargo em Julho de 2018 por decisão da Administração Pública, por extinção da secção.
Actualmente, Jorge Lipuleni Kauhongelwa exerce advocacia, na fase de estágio e é professor colocado no Magistério Primário “António Hisipopi Nangolo”, no Município do Cuvelai, que dista 175 quilómetros da capital da província, Ondjiva.

JA

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