Sociedade

NÃO BASTA AFASTAR É PRECISO JULGAR

“A exoneração de Isabel dos Santos é, independentemente de tudo o que se siga, uma excelente notícia. É sinal de que já nem o regime (estruturalmente corrupto) de Angola conseguia suportar e alimentar a riqueza da família de Eduardo dos Santos”, afirmou Paulo de Morais ao Folha 8.

Para o Presidente da Frente Cívica “fica para já alguma esperança de que os membros desta e doutras famílias dos oligarcas do MPLA sejam também afastados”, acrescentando que “se tal acontecer, progressivamente, se as riquezas de Angola forem colocadas ao serviço do povo e do país, Angola terá futuro”.

Paulo Morais considera, no entanto, que “se o novo presidente apenas demitir os filhos de Eduardo dos Santos, tal de nada valerá ao país. Terá sido apenas um golpe palaciano. Mudaria apenas a família que dirige o “polvo” angolano”.

Para João Paulo Batalha, “a exoneração de Isabel dos Santos tem pelo menos um enorme significado simbólico”, desde logo porque “Isabel dos Santos representa, para os angolanos e para o mundo, toda uma estrutura de poder assente no nepotismo e na captura do Estado, para enriquecimento de uma elite promíscua.”

Em declarações ao Folha 8, o Presidente da Transparência e Integridade afirma que “é evidente que a Sonangol não tinha futuro enquanto Isabel dos Santos a liderasse”, daí considerar que “João Lourenço tem agora uma oportunidade histórica de colocar a Sonangol ao serviço do desenvolvimento de Angola, sem corrupção nem favoritismos”.

Entretanto, o Governo português disse hoje estar a acompanhar, com “respeito escrupuloso pela soberania de Angola”, as exonerações em empresas públicas angolanas, incluindo de filhos do antigo Presidente, figura venerada por todos os mais recentes governos portugueses… enquanto esteve no poder.

“No respeito escrupuloso pela soberania de Angola”, reforçou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

“Era de se esperar, de facto, porque acho que a Sonangol é uma empresa estratégica, contribui muito para o Orçamento Geral de Estado em termos de impostos, é a maior empresa nacional, é a concessionária nacional e é obvio que o presidente do Conselho da Administração tem que ser alguém que tenha a confiança do Presidente da República”, afirma Francisco Paulo, economista do Centro de Estudo e Investigação Cientifica da Universidade Católica de Angola.

Outro economista que considera que a exoneração de Isabel dos Santos era inevitável é José Severino, presidente da Associação Industrial de Angola (AIA), dizendo mesmo que o novo Presidente vai ao encontro das expectativas dos angolanos, ou seja, acaba com os laços familiares em lugares estratégicos.

“É uma questão esperada: nova visão, novas políticas, eliminar laços familiares em lugares estratégicos e dar o mérito a pessoas que dentro da Sonangol tiveram momentos bons no quadro de uma crise que a empresa viveu com a queda do preço do petróleo. Portanto, é algo esperado e está em consonância com as expectativas sobre a nova liderança”, afirma José Severino,

Mas quem não acredita que as alterações na Sonangol tenham sido uma medida unilateral do Presidente João Lourenço é Francisco Rasgado, director do semanário ChellaPress. Para o jornalista, a retirada de Isabel dos Santos da Sonangol foi antecedida de um acordo com o anterior Presidente e líder do MPLA, José Eduardo dos Santos, o pai de Isabel dos Santos.

“Acredito que tenha sido uma medida resultante de uma conversa antecipada e concertada com José Eduardo dos Santos, porque tudo o que nós temos vindo a assistir desde a tomada de posse de João Lourenço, e, contrariamente àquilo que se diz, ele continua a ter uma relação cordial com José Eduardo. Acredito que estas mudanças que estão a ser introduzidas, nomeadamente esta que envolve a filha, tenha sido o resultado de uma concertação entre eles (João Lourenço e Eduardo dos Santos)”, opina Francisco Rasgado.

As duas principais forças políticas da oposição em Angola, UNITA e CASA-CE, convergem, sem surpresas, nas reacções às sucessivas exonerações de administrações nas empresas públicas feitas pelo novo Presidente, com realce para a Sonangol.

Para a UNITA, as exonerações e nomeações ocorridas nas últimas semanas “não surpreendem” e já eram de “esperar”. O porta-voz do partido, deputado Alcides Sakala, diz que “o que temos vindo a acompanhar é esta tentativa de o Presidente eleito, agora, formar a sua equipa. Em democracias são processos normais. Não estamos surpreendidos com esta reestruturação, isto vem um pouco na lógica do que ele próprio tem vindo a dizer ultimamente”.

“É verdade que há de um lado esta bicefalia do poder, o antigo regime teve também a sua estratégia, que levou o país ao actual caos económico que vive, fundamentalmente, um regime que foi caracterizado pela corrupção institucionalizada, pelo nepotismo, pela intolerância política, pela falta de liberdade de expressão e naturalmente o novo Presidente eleito vai montar a sua estratégia, por isso não estamos surpreendidos”, refere Alcides Sakala, acrescentando que o país “tem que se abrir” e assim transformar-se numa “sociedade normal”, porque viveu durante muito tempo “asfixiada naquilo que eram as liberdades fundamentais dos angolanos, assim como a própria Lei da Probidade Administrativa”.

Por seu lado, o vice-presidente da CASA-CE, deputado Lindo Bernardo Tito, considerou que estas exonerações não representam “substancialmente nada”, a não ser “o exercício de poderes constitucionais conferidos ao Presidente da República”.

“Ou seja, o que ele está a fazer agora é tentar buscar as pessoas da sua confiança para integrar na administração directa e indirecta do Estado e tirar aquelas pessoas que não lhe são da sua confiança”, afirmou.

Lindo Bernardo Tito realça que, no caso de Isabel dos Santos, “o aplauso que está a ser feito pela população insere-se no contexto em que a engenheira Isabel dos Santos foi nomeada num ambiente de contestação pública”.

“Porque aquilo representava nepotismo e, aliás, até foi objecto de uma acção judicial, talvez essa polémica que se criou na exoneração é que dá esse impacto em relação a uma vontade manifestada no momento da nomeação que era exactamente um ato não praticável”, recordou o dirigente da CASA-CE.

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Ernesto

Escritor e Editor de Noticias no site Angola Nossa.

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