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O ADEUS AO HERÓI (UNITA). O ADEUS AO FANTASMA (MPLA). SAVIMBI

Milhares de pessoas rumam à pequena localidade de Lopitanga, no norte da província angolana do Bié, para o último adeus ao líder histórico da UNITA, Jonas Savimbi, morto em combate há 17 anos. Será que que, a partir de hoje, o MPLA vai dormir sem o pesadelo do fantasma “Jonas”? Veremos.

O ADEUS AO HERÓI (UNITA).  O ADEUS AO FANTASMA (MPLA)
O ADEUS AO HERÓI (UNITA). O ADEUS AO FANTASMA (MPLA)

Os restos mortais do líder da UNITA estiveram à guarda do Governo, num inaudito sequestro que durou 17 anos, depositados desde 2002 no cemitério municipal do Luena (província do Moxico), tendo sido recuperados oficialmente pela família na sexta-feira no Andulo.

A 30 quilómetros do Andulo, Lopitanga assistiu na noite de sexta-feira a um culto religioso, seguido por uma vigília, em que milhares de pessoas acompanharam a família de Savimbi e a direcção da UNITA numa última homenagem ao fundador do movimento do Galo Negro.

Jonas Savimbi foi morto em combate pelas forças armadas governamentais, no dia 22 de Fevereiro de 2002, na comuna do Lucusse, província do Moxico, e o seu corpo sepultado no cemitério municipal do Luena, capital da província.

A UNITA, maior partido da oposição que o MPLA (ainda) permite que exista em Angola, considera que 53 anos após a sua fundação, os objectivos continuam válidos, face à necessidade urgente de “mudanças políticas profundas para a dignificação dos angolanos”.

Para melhor entendimento da tese da UNITA refira-se que, desde sempre, a sua definição de angolano nunca coincidiu com a do MPLA. Há, portanto, um diferendo de base entre os dois partidos, razão pela qual (por exemplo) Kundi Paihama, antigo ministro e dirigente do partido de João Lourenço, sempre disse que em Angola existiam duas espécies de pessoas, os angolanos e os kwachas.

A UNITA refere que os cinco pilares fundamentais da sua criação, “Projecto de Muangai”, é “actual e adaptável ao contexto de uma Angola pós-independente, carente de soluções adequadas aos problemas mais básicos que assolam a sociedade angolana”.

Para o partido fundado por Jonas Savimbi, o país e os seus cidadãos “vivem ainda momentos difíceis, de frustração, angústia e desespero”, devido à “má governação que se instalou no país há quase 44 anos”, sem que, acusa, “se vislumbre no horizonte garantias de se reverter o quadro calamitoso”.

“A UNITA reitera a sua firme vontade de continuar a pugnar pelos seus ideais e pela defesa intransigente dos interesses dos angolanos, sem discriminação de qualquer índole”, refere a direcção do partido.

A Direcção da UNITA reafirma também “o compromisso para dar a sua contribuição aos esforços que visam a consolidação da paz, da unidade, da reconciliação nacional e da construção de um Estado verdadeiramente democrático em Angola”.

“Reitera a firme vontade e determinação de contribuir por todos os meios ao seu alcance para a implementação das autarquias locais em todos os municípios, em obediência aos princípios do gradualismo funcional, contribuindo deste modo para o fim das assimetrias que têm marcado profundamente a gestão do actual executivo e abrir assim caminho para o desenvolvimento social e económico sustentado, harmonioso e equilibrado”, diz.

A 13 de Março de 1966, um grupo de nacionalistas liderado por Jonas Malheiro Savimbi, começou a escrever uma importante (cada vez mais importante) parte da história de Angola.

Será que a UNITA não enterrou, depois da morte de Savimbi, o espírito que deu corpo ao que se decidiu no Muangai?

Os angolanos crêem que pouco, ou nada, adianta hoje continuar a defender que a reconciliação nacional deve ser salva pela crítica e não assassinada pelo elogio. Apesar disso, muitos ainda têm um compromisso moral com o que Jonas Savimbi disse, em 1975, no Huambo: “a UNITA, tal como Angola, não se define – sente-se”. Por isso…

Foi no Muangai, Província do Moxico. Daí saíram pilares como a luta pela liberdade e independência total da Pátria; Democracia assegurada pelo voto do povo através dos partidos; Soberania expressa e impregnada na vontade do povo de ter amigos e aliados primando sempre os interesses dos angolanos.

Resultaram também a defesa da igualdade de todos os angolanos na Pátria do seu nascimento; a busca de soluções económicas, priorização do campo para beneficiar a cidade; a liberdade, a democracia, a justiça social, a solidariedade e a ética na condução da política.

Alguém, na UNITA, se lembra de quem disse: ”Eu assumo esta responsabilidade e quando chegar a hora da morte, não sou eu que vou dizer não sabia, estou preparado”?

Alguém se lembra de que, como estão as coisas, nunca será resgatado o compromisso de Muangai firmado em 13 de Março de 1966?

A UNITA mostrou até agora, é verdade, que sabe o que é a democracia e adoptou-a definitivamente. Tê-lo-á feito de forma consciente? Restam algumas (muitas) dúvidas, sobretudo depois das manipulações e vigarices eleitorais de que foi vítima, que já não esteja arrependida.

Isaías Samakuva mostrou ao mundo que as democracias ocidentais estão a sustentar, continuam a estar, um regime corrupto e um partido que quer perpetuar-se no poder. E de que lhe valeu isso?

Depois das hecatombes eleitorais, provocadas também pela ingenuidade da UNITA acreditar que Angola caminhava para a democracia, Samakuva alterou os jogadores, a forma de jogar e promete, continua a prometer, melhores resultados.

Crê-se, contudo, que o líder da UNITA conseguiu juntar alguns bons jogadores mas esqueceu-se que não bastam bons jogadores para fazer uma boa equipa.

Muitos dos seus craques (como previa o MPLA) não conseguem olhar para além do umbigo, do próprio umbigo, e passaram os últimos anos a bloquear iniciativas válidas só porque partiam de outras pessoas. Ou seja, olharam para o mensageiro e não para a mensagem. Habituaram-se à lagosta e esqueceram a mandioca.

O mundo ocidental está, mais uma vez, de olhos fechados para o enorme exemplo que a UNITA deu. Em 2003, abriu bem os olhos porque esperava o fim do partido. Isso não aconteceu.

Agora estamos a ver que ao Ocidente basta uma UNITA com alguma relativa, mas não preocupante, expressão eleitoral para dar um ar democrático à ditadura do MPLA. Aliás, por alguma razão o Ocidente nunca reagiu às vigarices, às fraudes protagonizadas pelo MPLA. E não reagiu porque não lhe interessa que a democracia funcione em Angola. É sempre mais fácil negociar com as ditaduras.

Folha 8 com Lusa

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