Sociedade

Vendeu na rua em Luanda e refez a vida em Tomboco

Miguel da Silva João nasceu no município do Tomboco, província do Zaire, em 1983, há 36 anos, primeiro filho, de nove irmãos, de João da Silva, artesão, natural da aldeia do Yenga, e de Mayiza Maria João, natural da aldeia de Kiowa, vendedora na praça.

Vendeu na rua em Luanda e refez a vida em Tomboco
Vendeu na rua em Luanda e refez a vida em Tomboco

Formado em Direito, Miguel da Silva veio do Tomboco
Fotografia: DR

Miguel da Silva João saiu da terra natal muito cedo, com apenas quatro anos de idade, em 1987, para Luanda, e dois anos depois ruma para o Huambo, separado dos pais, e aí vive três anos com o tio militar das FAPLA. A guerra que eclodiu depois das eleições em 1992 fez Miguel da Silva João sair do Huambo muito antes do início dos confrontos entre as forças do Governo e da UNITA, uma vez que o tio, vendo o clima político tenso que começa a instalar-se e o medo da inevitabilidade de uma nova guerra, decide fixar-se em Luanda, na altura o lugar com maior segurança.
Em Luanda, mais concretamente em Cacuaco, começa por viver com o pai no bairro Boa Esperança e posteriormente vai viver com um tio ex-FAPLA, que fazia serviço de táxi.
Nas ruas de Luanda Miguel da Silva João fez de tudo um pouco, vendia água fresca em garrafas e gelados feitos em casa para ajudar a custear o ensino médio, e ia dando aulas aqui e ali, em colégios, para poder conseguir dinheiro para os fascículos.
Miguel da Silva João termina a 8.ª classe em 1998. Por não ter conseguido ingressar no IMIL (Instituto Médio Industrial de Luanda) onde se candidata ao curso de Construção Civil, é obrigado a ficar um ano sem estudar, à espera do termino do Instituto Médio de Gestão do Kicolo que estava em obras, e onde em 2000 iniciou o ensino médio no curso de Gestão.
Ao longo dos estudos Miguel da Silva João teve de enfrentar a separação dos pais e uma situação financeira muito precária mas nunca desistiu de estudar mesmo quando era forçado a interromper a formação.
Em 2003, com 19 anos, termina o ensino médio e no ano seguinte faz o teste para ingresso na Faculdade de Letras e Ciências Sociais no curso de Administração Pública, entre mais de cinco mil candidatos para apenas 40 vagas, e não foi admitido.
Miguel da Silva João volta a inscrever-se em 2005, desta feita nos cursos de Língua Portuguesa do ISCED (Instituto Superior de Ciências da Educação) e no curso de Economia da Faculdade de Economia da Universidade Agostinho Neto e de novo não é admitido.
Frustrado, Miguel da Silva João decide não mais fazer testes na Universidade Agostinho Neto e, por sugestão de um tio, em 2005 candidata-se a um concurso público no sector da Educação no Município do Tomboco. “Não foi fácil tomar a decisão de ir para lá uma vez que sempre vivi no Huambo e em Luanda, apesar de viver na periferia, o lugar onde eu iria era pior do que os lugares onde já estivera.”
Ainda assim, Miguel da Silva João foi para Tomboco. “Chorei todo o tempo antes da realização do concurso, pois não tinhamos luz e tinha de ajudar a minha avó no trabalho da lavra.”
Além do trabalho na lavra da avó paterna, Miguel da Silva João ia ganhando algum dinheiro oferecendo-me como testemunha no registo civil das pessoas, por 200 kwanzas.
Miguel da Silva João foi admitido nos testes e começou a trabalhar no sector público em Agosto de 2005, no centro Pré-Universitário do Tomboco, mesmo só tendo o nível médio.
“E lá comecei a fazer a minha carreira na educação, fui durante seis meses subdirector pedagógico interino, em virtude da morte do titular da pasta e dois anos depois fui nomeado subdirector administrativo.”
Insatisfeito com o nível das suas habilitações, Miguel da Silva João pretende continuar a estudar e concorre para as bolsas internas do INAGBE, pela Universidade de Belas, mas, já a estudar, é informado de que não foi seleccionado.
Miguel da Silva João aguenta os solavancos da pressão, continuando a trabalhar, com ameaças permanentes de despedimento, e em 2012 termina a parte curricular da licenciatura em Direito.
Miguel da Silva João volta para Tomboco em 2013 e para sua surpresa vê que foi nomeado para o cargo de director da Escola do 2º ciclo do Ensino Secundário.
Miguel da Silva João permanece no cargo apenas dois anos e meio. Em 2016 é afastado da direcção mas continua a leccionar na mesma escola e em 2018 é chamado pelo novo administrador municipal para fazer parte do seu gabinete na qualidade de assessor mas sem abandonar a docência.
Miguel da Silva João é amante da leitura, sobretudo de romances policiais, sonha ser escritor e um advogado de renome.

FRASE
“Chorei todo o tempo antes da realização do concurso, pois não tinhamos luz e tinha de ajudar a minha avó no trabalho da lavra.”

Fonte: JA

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