Turismo

TURISMO EM ANGOLA? UM DIA… TALVEZ. ESTÁ “VISTO”

Isto ultimamente tem sido cá um corrupio na imprensa angolana. Primeiro foi a facilitação dos vistos, depois inúmeras notícias a falar da necessidade de se implementar uma melhor indústria hoteleira em Angola. Agora são as pancadinhas na bola de Sua Excelência o Senhor Presidente da República num campo de golf, lá para as bandas de Luanda.

TURISMO EM ANGOLA? UM  DIA… TALVEZ. ESTÁ “VISTO”
TURISMO EM ANGOLA? UM DIA… TALVEZ. ESTÁ “VISTO”

Por Carlos Pinho (*)

Porém o turismo em Angola não avança com pancadinhas na bola. Aliás, nem mesmo com umas pancadas valentes nas cabeças pensantes de muitos artistas que pululam pelo país afora.

A questão dos vistos é logo o primeiro problema, ainda antes de um hipotético turista sair do seu próprio país. Porque não se arranjar um processo mais simples de se adquirir o visto à entrada no país. Há uns anos atrás era assim que funcionava o processo em Moçambique. Se uma pessoa tem bilhete de ida e volta e documentos comprovativos de reserva de alojamento, que muitas vezes até já foi antecipadamente pago, era só largarem-se umas massas no momento da passagem no controlo de passaportes, à chegada no aeroporto. Ah, já sei, seria difícil controlar-se o processo de pagamento e existiriam muitas fugas de dinheiro. Mas isso é um problema de polícia, polícia séria, é claro. Mas é uma questão a que o turista deve ser ar alheio.

Bom, continuando. O nosso turista desembarca no Aeroporto de Luanda e como tem de apanhar um voo para uma qualquer capital de província, é-lhe comunicado que tem de ir para o Terminal Doméstico do mesmo aeroporto, apanhar o dito voo. E o nosso homem habituado a aeroportos que funcionam minimamente procura o corredor ou a passadeira rolante que o leve ao tal Terminal Doméstico. Barraca! Então não é que é preciso apanhar um táxi, fora do aeroporto, para se andar umas centenas de metros até ao dito terminal? Fora do aeroporto!? Não há qualquer percurso interno que ponha o nosso turista a salvo das malandragens dos taxistas ou dos sempre prestativos auxiliares que aparecem a correr e que agarram nas suas bagagens para as transportarem. E, mesmo que muito instados, dificilmente as largam, chegando até a ser agressivos. Muitas vezes a conversa engrossa nessas alturas. E o triste do turista, quer pelo táxi, ou pelos carregadores imprevistos, lá será esmifrado de mais alguns dólares. É uma pouca vergonha!

Mas a pouca vergonha começa, na verdade, com as autoridades que gerem o aeroporto. Não tiveram, nem têm honestidade, e diga-se em abono da verdade, a competência profissional, para providenciarem um sistema de autocarros, ou um outro sistema de vai e vem, que transporte os passageiros entre os dois terminais. Qualquer aeroporto minimamente civilizado tem estes serviços de transfer. Excepto o de Luanda é claro! Tinha de ser! Sempre é mais um esquema para uns amigos sacarem umas notas aos viajantes.

E se houver necessidade de o turista esperar algumas horas pela sua ligação aérea? Está feito! Nenhum dos terminais, principalmente o doméstico, tem condições para manter o turista minimamente entretido e confortável durante longas horas. Outro esquema para sacar mais umas notas ao turista. Não será melhor passar a tratá-lo como vítima em vez de turista? A solução é ir para um hotel onde ocupará um quarto por algumas horas até à hora de voltar ao aeroporto.

Nesse entretém, terá a oportunidade de dar umas voltas por Luanda. Os mais prudentes até poderão andar a pé pelas redondezas desse hotel, curtindo os buracos nos passeios e nas ruas e a maravilhosa falta de limpeza tão tipicamente luandense. É um tipicismo pós-independência. Que os colonos tenham sido uns patifes, não discordo. Agora porcos, isso é que não!

Continuo a não consigo entender porque há tanto lixo nas ruas de Luanda, contentores posicionados em cima dos passeios, a transbordarem de porcarias, como se tal fosse normal numa cidade que se pretende civilizada. Enfim, já há umas décadas que não resido em Luanda, novos valores podem ter-se levantado, e civilização pode não ser um deles. Ou então foram os sacanas dos colonos que na década de setenta não levaram o lixo com eles. É que eu não acredito que gente tão competente e prestimosa como aquela que existe a governar a cidade de Luanda seja cúmplice de tal nojeira. Deve haver uma razão cultural que desconheço! Se calhar é algum slogan do tipo: O MPLA é o lixo! O lixo é o MPLA!

Mas pode ser que a nossa vítima, perdão, turista, seja mais aventureiro, e contrate um táxi para dar umas voltas pela cidade. Irá certamente à Ilha do Cabo, onde constatará horrorizado, que numa língua de areia altamente instável, por de origem aluvionar e sujeita aos maus humores das calemas, as tais competentíssimas autoridades da governação de Luanda autorizaram a construção em altura de edifícios, que a única coisa que fizeram, foi afear a paisagem. É evidente que num dia em que a natureza se chateie de vez com estes dislates, uma calema mais mal-humorada irá acertar contas. Aliás, este jeito para a asneira já vem do tempo colonial, a famosa ponte da ilha, que a liga ao continente, não é na verdade mais do que um istmo que bloqueou quase totalmente a renovação das águas da baía, com o consequente assoreamento imparável desta. E após a independência, todo o aterro que se fez na zona da Ilha da Chicala só vem piorando a situação.

E ainda bem que o turista não sabe que em tempos antigos havia a marginal da Praia do Bispo… Ah! Mas um dia haverá uma Nova Marginal, até à Samba e à Corimba, para esconder esta grossa asneira da criação de condições excepcionais para se assorear totalmente a baía. Mas isto é um grande negócio para as empresas de dragagens. Se já o era no tempo colonial, agora nem se fala! Com um pouquinho de paciência chegar-se-á à situação da marginal passar a ficar na própria Ilha do Cabo. Aí é que vão chegar e sobrar terrenos para se construírem mais arranha-céus. Aquela “baiazinha” cheia de pardieiros de dezenas, quiçá centenas de andares! Maravilha! Manhattan terá de se precaver! Certamente que irão chegar charters de turistas vindos da China para verem a beleza que será. (Onde é que eu já ouvi isto? Penso que tinha a ver com futebol!)

Seguidamente, vendo o morro com a Fortaleza de São Miguel lá em cima, o turista irá pedir ao taxista que o leve até lá. Novo horror, alguém construiu um mamarracho, vulgo Shopping Fortaleza, quase em cima do morro.

Por esta altura, a nossa vítima, perdão, turista, já se deve ter compenetrado que talvez seja melhor regressar ao aeroporto. Pode ser que na província as coisas estejam melhores. Até porque com tantas ruas esburacadas que verificou existirem na baixa de Luanda, e o pobrezinho não foi aos bairros da periferia, ver as suas famosas ruas, lixeiras e lagoas, o nosso turista começa a desconfiar ter sido vítima de um logro.

Não entrando em mais pormenores que o texto já vai longo, interessa, no entanto, referir que nos pequenos hotéis da província, excessivamente caros para o serviço que prestam, tal como os de Luanda, o turista irá descobrir que nalguns deles há esquemas de prostituição em andamento, detectados por barulhos nos quartos vizinhos, por vezes sob a forma de choros ou gritos aflitivos de quem não está a gostar da brincadeira. Irá descobrir em sucessivos pequenos-almoços, meninas com um aspecto envergonhado, que se constata claramente não se enquadrarem no ambiente do hotel, por assustadas e envergonhadas, conduzidas por homens mais velhos, alguns com idade mais para a de avô, do que de gentil acompanhante.

Quando as agências de viagem ou entidades hoteleiras são confrontadas com questões sobre o tema, aparece normalmente um chorrilho de desculpas esfarrapadas. É a famosa inclinação dos autoproclamados machos angolanos pelas catorzinhas. Bom, a menos que o governo queira implementar em Angola um sistema de turismo sexual deveras abjecto, tenho as minhas dúvidas de que isto agrade a muitos dos turistas desavisados.

E ainda falta falar na dificuldade e carestia do aluguer de automóveis para que uma pessoa se possa deslocar livremente pelas várias províncias, das praias sujas e cheias de preservativos e que nalguns casos apresentam espectáculos de desempenho sexual alive and kicking, assim à boa maneira de um concerto de rock and roll.

Mas sejamos justos, Angola mudou muito nos últimos sete ou oito anos. As frequentes intervenções da polícia a tentar sacar gasosa ao pessoal diminuíram um pouco. Já lá vai o tempo, mas ainda não tem dez anos, em que numa viagem entre o Huambo e Luanda fomos parados vinte e uma vezes, sendo que na maioria dos casos os argumentos apresentados pelas ditas “autoridades” para chatearem o nosso motorista eram pouco menos que estranhos.

Continuam os buracos nas estradas, ou será que é estrada nos buracos, e as ruas às escuras onde o motorista desavisado é confrontado, às 21 horas, com um desgraçado numa cadeira de rodas a deslocar-se na faixa de rodagem, e isto porque nos passeios nem pensar em lá passar com a dita cadeira de rodas.

De salientar nalgumas cidades do interior algumas agentes da polícia nacional todas coquetes e sorridentes com uma Uzi ao peito assim a modos de colar. Uma simpatia! A sério, agora não é gozo!

De facto, a normal gentileza do povo angolano acaba por suprir as deficiências de um sistema que ainda não está feito para lidar com turistas. Talvez por isso, e quase exclusivamente por isso, talvez valha a pena fazer turismo em Angola. Ver o sorriso na cara das pessoas que nos atendem em hotéis e restaurantes quando interactuamos com elas sem preconceitos de falsa superioridade europeia, quando brincamos com o sotaque deles e eles com o nosso. Quando os questionamos sobre as comidas, quando vamos às feiras e marralhamos os preços e implicamos com eles. E, ao fim de uns dias, quando dizemos que temos de partir, porque as férias acabaram, vemos a tristeza nos olhos deles, e ficamos que a certeza de que apesar das dificuldades e limitações, haveremos de voltar.

(*) Professor da FEUP – Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto

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