Turismo

TURISMO PRÉ-HISTÓRICO COM FATOS DE ARMANI OU VERSACE

O papel das agências de viagem no Turismo em Angola está limitado pelas dificuldades existentes no terreno, como a falta de divisas e de infra-estruturas, os elevados custos e a fraca competitividade, tornando a actividade dos operadores uma aventura.

TURISMO PRÉ-HISTÓRICO COM FATOS DE ARMANI OU VERSACE
TURISMO PRÉ-HISTÓRICO COM FATOS DE ARMANI OU VERSACE

Asíntese é obtida a partir de uma recolha de testemunhos feita pela agência Lusa junto de quatro agências de viagem que operam em Angola, que, apesar das dificuldades, acreditam que o mercado vai melhorar, sobretudo depois de Luanda ter acolhido o Fórum Mundial do Turismo, em que ficou demonstrada a aposta do Governo num sector ainda “virgem” e com “muito potencial”.

“As agências de viagem ainda têm um caminho muito grande a percorrer. Somos pioneiros. Neste momento, há a intenção por parte do Governo para podermos evoluir um pouco mais, de investir no sector em que o mercado não está delineado. Ainda não sabemos definir o que são agentes de viagem e agentes de turismo. Isso quer dizer que, nós, agentes de viagens, temos sido praticamente grandes aventureiros no sector, porque temos estado a fazer este duplo papel”, disse à Lusa o CEO da Mesant Viagens.

Para Júlio Antunes, os problemas avolumam-se com o “cepticismo” reinante no sector, complicando-se na questão do acesso aos vistos, nas acessibilidades, nos transportes aéreos e terrestres, na qualidade das unidades hoteleiras, na falta de luz e de água, factores que encarem o preço final a ser cobrado ao turista.

As queixas são comuns também às outras agências, uma vez que as directoras executivas da Agência de Viagens Tropicana, Amélia Bravo, e da Atlântida WTA Viagens, Isabel Apolinário, e à responsável do Grupo Alive Travel em Benguela (sul), Rebeca Barreiros, que referiram as mesmas dificuldades no exercício de uma actividade que, em Angola, se pode tornar “muito rentável” e ser até “o novo petróleo”.

“É preciso muito diálogo com o Governo. Há muitas razões que impedem o turismo de se tornar um factor de desenvolvimento. Mas podemos ter sucesso e fazer do turismo um ‘novo petróleo’ em Angola, com uma grande receita”, acrescentou Júlio Antunes.

Para os quatro, as viagens internas são um peso muito grande no custo e a crise económica só veio agravar ainda mais um sector que nunca se desenvolveu e que nunca soube aproveitar os dinheiros das receitas petrolíferas no sector.

“O turismo interno, para os nacionais e para estrangeiros que vivem em Angola, ainda é algo bastante caro. Para alguém se deslocar, as passagens aéreas têm valores bastante elevados, o que vai tornar-se menos competitivo do que em relação a São Tomé e Príncipe, Namíbia ou África do Sul. O estado das estradas também não facilita que haja um desenvolvimento de uma procura para as pessoas se movimentarem por meios próprios e acaba por tornar-se muito mais caro”, sublinhou Rebeca Barreiros.

Segundo a responsável do Grupo Alive Travel, com sede em Benguela, o interior está ainda pouco ou nada apetrechado em infra-estruturas, com falta de recursos humanos e com hotéis em que a qualidade deixa a desejar.

“O grande constrangimento são os recursos. Os acessos são muito difíceis. Há hotéis nas províncias, mas nos pontos-chave turísticos por vezes não existem. Faltam recursos humanos capacitados, que atendam o turista de uma forma como estão habituados”, disse, por sua vez, Isabel Apolinário.

“Falta água, falta luz, os hotéis têm muita dificuldade porque pagam somas muito elevadas para terem água nos hotéis, a luz é à base de geradores. Toda esta infra-estrutura que falta vai penalizar o turista, porque os preços são caros”, realçou Isabel Apolinário.

Também Amélia Bravo lamenta que a crise financeira tenha ofuscado o turismo interno e internacional, em que as companhias aéreas, por exemplo, conseguem ter os mesmos serviços que as agências, mas com melhores preços.

“Com a crise, muita gente já não viaja e já não procura os serviços da agência, preferindo ir directamente ao local onde se compra o bilhete que, se calhar, até fica muito mais barato. Somos revendedores dos bilhetes e muitas vezes as classes que temos são as mais caras. Um cliente que venha à agência prefere ir, depois, aos balcões das companhias aéreas, onde os bilhetes são mais baratos”, disse Amélia Bravo.

A queixa de Júlio Antunes vai, porém, mais longe: “A nossa companhia de bandeira, a TAAG, está infelizmente num pé de superioridade em relação a nós, porque tem os mesmos serviços que nós e com melhores preços. Somos revendedores de serviços e estamos a ficar fora da corrida”.

As companhias aéreas cobram um valor “muito alto” pela caução e há empresas que, com ou sem contratos, “não honram” os compromissos”, o que acaba por limitar a actividade num sector “muito dinâmico, em que é o capital circulante que faz andar as agências”.

Isabel Apolinário lembra que o sector, até há bem poucos anos, vivia do ‘corporate’, uma vez que o turismo “não era, de facto uma grande realidade”, mas até nesse nicho de mercado a actividade está com dificuldade, com o consequente fecho de portas de muitas empresas.

“Mas continuamos com o mesmo problema que já data de alguns anos, as divisas, mesmo o pouco turismo que é pedido, é muito difícil, porque não temos como pagar no exterior”, afirmou.

Turismo em Angola? Um dia… talvez

Neste âmbito, pela sua oportunidade e assertividade, reproduzimos um artigo de Carlos Pinho publicado no Folha 8 no passado dia 21:

«Isto ultimamente tem sido cá um corrupio na imprensa angolana. Primeiro foi a facilitação dos vistos, depois inúmeras notícias a falar da necessidade de se implementar uma melhor indústria hoteleira em Angola. Agora são as pancadinhas na bola de Sua Excelência o Senhor Presidente da República num campo de golf, lá para as bandas de Luanda.

Porém o turismo em Angola não avança com pancadinhas na bola. Aliás, nem mesmo com umas pancadas valentes nas cabeças pensantes de muitos artistas que pululam pelo país afora.

A questão dos vistos é logo o primeiro problema, ainda antes de um hipotético turista sair do seu próprio país. Porque não se arranjar um processo mais simples de se adquirir o visto à entrada no país. Há uns anos atrás era assim que funcionava o processo em Moçambique. Se uma pessoa tem bilhete de ida e volta e documentos comprovativos de reserva de alojamento, que muitas vezes até já foi antecipadamente pago, era só largarem-se umas massas no momento da passagem no controlo de passaportes, à chegada no aeroporto. Ah, já sei, seria difícil controlar-se o processo de pagamento e existiriam muitas fugas de dinheiro. Mas isso é um problema de polícia, polícia séria, é claro. Mas é uma questão a que o turista deve ser ar alheio.

Bom, continuando. O nosso turista desembarca no Aeroporto de Luanda e como tem de apanhar um voo para uma qualquer capital de província, é-lhe comunicado que tem de ir para o Terminal Doméstico do mesmo aeroporto, apanhar o dito voo. E o nosso homem habituado a aeroportos que funcionam minimamente procura o corredor ou a passadeira rolante que o leve ao tal Terminal Doméstico. Barraca! Então não é que é preciso apanhar um táxi, fora do aeroporto, para se andar umas centenas de metros até ao dito terminal? Fora do aeroporto!? Não há qualquer percurso interno que ponha o nosso turista a salvo das malandragens dos taxistas ou dos sempre prestativos auxiliares que aparecem a correr e que agarram nas suas bagagens para as transportarem. E, mesmo que muito instados, dificilmente as largam, chegando até a ser agressivos. Muitas vezes a conversa engrossa nessas alturas. E o triste do turista, quer pelo táxi, ou pelos carregadores imprevistos, lá será esmifrado de mais alguns dólares. É uma pouca vergonha!

Mas a pouca vergonha começa, na verdade, com as autoridades que gerem o aeroporto. Não tiveram, nem têm honestidade, e diga-se em abono da verdade, a competência profissional, para providenciarem um sistema de autocarros, ou um outro sistema de vai e vem, que transporte os passageiros entre os dois terminais. Qualquer aeroporto minimamente civilizado tem estes serviços de transfer. Excepto o de Luanda é claro! Tinha de ser! Sempre é mais um esquema para uns amigos sacarem umas notas aos viajantes.

E se houver necessidade de o turista esperar algumas horas pela sua ligação aérea? Está feito! Nenhum dos terminais, principalmente o doméstico, tem condições para manter o turista minimamente entretido e confortável durante longas horas. Outro esquema para sacar mais umas notas ao turista. Não será melhor passar a tratá-lo como vítima em vez de turista? A solução é ir para um hotel onde ocupará um quarto por algumas horas até à hora de voltar ao aeroporto.

Nesse entretém, terá a oportunidade de dar umas voltas por Luanda. Os mais prudentes até poderão andar a pé pelas redondezas desse hotel, curtindo os buracos nos passeios e nas ruas e a maravilhosa falta de limpeza tão tipicamente luandense. É um tipicismo pós-independência. Que os colonos tenham sido uns patifes, não discordo. Agora porcos, isso é que não!

Continuo a não consigo entender porque há tanto lixo nas ruas de Luanda, contentores posicionados em cima dos passeios, a transbordarem de porcarias, como se tal fosse normal numa cidade que se pretende civilizada. Enfim, já há umas décadas que não resido em Luanda, novos valores podem ter-se levantado, e civilização pode não ser um deles. Ou então foram os sacanas dos colonos que na década de setenta não levaram o lixo com eles. É que eu não acredito que gente tão competente e prestimosa como aquela que existe a governar a cidade de Luanda seja cúmplice de tal nojeira. Deve haver uma razão cultural que desconheço! Se calhar é algum slogan do tipo: O MPLA é o lixo! O lixo é o MPLA!

Mas pode ser que a nossa vítima, perdão, turista, seja mais aventureiro, e contrate um táxi para dar umas voltas pela cidade. Irá certamente à Ilha do Cabo, onde constatará horrorizado, que numa língua de areia altamente instável, por de origem aluvionar e sujeita aos maus humores das calemas, as tais competentíssimas autoridades da governação de Luanda autorizaram a construção em altura de edifícios, que a única coisa que fizeram, foi afear a paisagem. É evidente que num dia em que a natureza se chateie de vez com estes dislates, uma calema mais mal-humorada irá acertar contas. Aliás, este jeito para a asneira já vem do tempo colonial, a famosa ponte da ilha, que a liga ao continente, não é na verdade mais do que um istmo que bloqueou quase totalmente a renovação das águas da baía, com o consequente assoreamento imparável desta. E após a independência, todo o aterro que se fez na zona da Ilha da Chicala só vem piorando a situação.

E ainda bem que o turista não sabe que em tempos antigos havia a marginal da Praia do Bispo… Ah! Mas um dia haverá uma Nova Marginal, até à Samba e à Corimba, para esconder esta grossa asneira da criação de condições excepcionais para se assorear totalmente a baía. Mas isto é um grande negócio para as empresas de dragagens. Se já o era no tempo colonial, agora nem se fala! Com um pouquinho de paciência chegar-se-á à situação da marginal passar a ficar na própria Ilha do Cabo. Aí é que vão chegar e sobrar terrenos para se construírem mais arranha-céus. Aquela “baiazinha” cheia de pardieiros de dezenas, quiçá centenas de andares! Maravilha! Manhattan terá de se precaver! Certamente que irão chegar charters de turistas vindos da China para verem a beleza que será. (Onde é que eu já ouvi isto? Penso que tinha a ver com futebol!)

Seguidamente, vendo o morro com a Fortaleza de São Miguel lá em cima, o turista irá pedir ao taxista que o leve até lá. Novo horror, alguém construiu um mamarracho, vulgo Shopping Fortaleza, quase em cima do morro.

Por esta altura, a nossa vítima, perdão, turista, já se deve ter compenetrado que talvez seja melhor regressar ao aeroporto. Pode ser que na província as coisas estejam melhores. Até porque com tantas ruas esburacadas que verificou existirem na baixa de Luanda, e o pobrezinho não foi aos bairros da periferia, ver as suas famosas ruas, lixeiras e lagoas, o nosso turista começa a desconfiar ter sido vítima de um logro.

Não entrando em mais pormenores que o texto já vai longo, interessa, no entanto, referir que nos pequenos hotéis da província, excessivamente caros para o serviço que prestam, tal como os de Luanda, o turista irá descobrir que nalguns deles há esquemas de prostituição em andamento, detectados por barulhos nos quartos vizinhos, por vezes sob a forma de choros ou gritos aflitivos de quem não está a gostar da brincadeira. Irá descobrir em sucessivos pequenos-almoços, meninas com um aspecto envergonhado, que se constata claramente não se enquadrarem no ambiente do hotel, por assustadas e envergonhadas, conduzidas por homens mais velhos, alguns com idade mais para a de avô, do que de gentil acompanhante.

Quando as agências de viagem ou entidades hoteleiras são confrontadas com questões sobre o tema, aparece normalmente um chorrilho de desculpas esfarrapadas. É a famosa inclinação dos autoproclamados machos angolanos pelas catorzinhas. Bom, a menos que o governo queira implementar em Angola um sistema de turismo sexual deveras abjecto, tenho as minhas dúvidas de que isto agrade a muitos dos turistas desavisados.

E ainda falta falar na dificuldade e carestia do aluguer de automóveis para que uma pessoa se possa deslocar livremente pelas várias províncias, das praias sujas e cheias de preservativos e que nalguns casos apresentam espectáculos de desempenho sexual alive and kicking, assim à boa maneira de um concerto de rock and roll.

Mas sejamos justos, Angola mudou muito nos últimos sete ou oito anos. As frequentes intervenções da polícia a tentar sacar gasosa ao pessoal diminuíram um pouco. Já lá vai o tempo, mas ainda não tem dez anos, em que numa viagem entre o Huambo e Luanda fomos parados vinte e uma vezes, sendo que na maioria dos casos os argumentos apresentados pelas ditas “autoridades” para chatearem o nosso motorista eram pouco menos que estranhos.

Continuam os buracos nas estradas, ou será que é estrada nos buracos, e as ruas às escuras onde o motorista desavisado é confrontado, às 21 horas, com um desgraçado numa cadeira de rodas a deslocar-se na faixa de rodagem, e isto porque nos passeios nem pensar em lá passar com a dita cadeira de rodas.

De salientar nalgumas cidades do interior algumas agentes da polícia nacional todas coquetes e sorridentes com uma Uzi ao peito assim a modos de colar. Uma simpatia! A sério, agora não é gozo!

De facto, a normal gentileza do povo angolano acaba por suprir as deficiências de um sistema que ainda não está feito para lidar com turistas. Talvez por isso, e quase exclusivamente por isso, talvez valha a pena fazer turismo em Angola. Ver o sorriso na cara das pessoas que nos atendem em hotéis e restaurantes quando interactuamos com elas sem preconceitos de falsa superioridade europeia, quando brincamos com o sotaque deles e eles com o nosso. Quando os questionamos sobre as comidas, quando vamos às feiras e marralhamos os preços e implicamos com eles. E, ao fim de uns dias, quando dizemos que temos de partir, porque as férias acabaram, vemos a tristeza nos olhos deles, e ficamos que a certeza de que apesar das dificuldades e limitações, haveremos de voltar.»

Folha 8 com Lusa

 

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