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Saúde

Cancro mata uma pessoa todos os dias em Luanda

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O relógio marca 5h40 e uma multidão, formada por jovens e idosos, concentra-se diante da porta principal do Instituto Angolano de Controlo do Cancro (IACC), na Baixa de Luanda.

A maior parte das crianças atendidas em consultas no Instituto Angolano de Controlo do Cancro apresenta problemas ligados aos olhos, rins e sangue
Fotografia: César Esteves | Edições Novembro

Não se trata de cidadãos à procura de uma vaga de em-prego naquela instituição da Saúde, muito menos de trabalhadores a reivindicar al-gum direito. São pessoas que carregam algum problema do foro oncológico. Alguns disseram ao Jornal de Angola que o número de pessoas atendidas pela primeira vez chega a 20 diariamente, daí a razão de as pessoas chegarem cedo ao local.
Entre a multidão está Julie-ta Pedro, 45 anos, que decidiu passar a noite nos arredores do hospital para conseguir uma vaga. Julieta Pedro ex-plica ter passado uma noite ao relento por não ser fácil conseguir uma consulta pela primeira vez se chegar tarde ao instituto.
“Além de os lugares disponíveis serem poucos, esgotam-se de forma assustadora. Até às cinco horas da manhã ainda se pode encontrar menos de 20 pessoas na lista”, conta a mulher, que disse ter ido, em duas ocasiões, àquela unidade às cinco horas, mas não conseguiu atendimento.
Constantes e fortes dores na mama esquerda estão na origem da sua deslocação ao instituto. Ela vive no bairro Bondo Chapéu.
Pedro Paulo, de 65 anos, está na fila por causa de um exame à próstata. No seu entender, as vagas terminam cedo porque os seguranças as comercializam. “Eles vendem ao preço de dois a três mil kwanzas a cada paciente que não aceita aparecer aqui às quatro horas ou mesmo pernoitar”, lamentou Pedro Paulo.
O número de doentes atendidos em consultas pela primeira vez é irrisório devido ao elevado número de pacientes que acorrem à unidade hospitalar pública. “Há pessoas que saem daqui frustradas por não conseguirem um vaga, mesmo pernoitando”, acentuou Pedro Paulo.
A consulta pela primeira vez só é feita se o doente tiver uma guia de transferência passada por uma unidade sanitária, onde o doente já fazia consultas de rastreio.
“Se sairmos de casa directamente para aqui, sem antes passar por uma unidade sanitária pública para o levantamento de uma guia de transferência, não atendem”, explicou o cidadão.  No momento em que os doentes estavam já acomodados na sala de espera, a aguardar pelos catalogadores, que chegam às 8h00, um homem, trajado de fato e gravata e com uma pasta de cor preta na mão direita, entra na sala. Não é funcionário ligado àquela instituição, mas sim pregador da palavra de Deus.
Alguns doentes já o conheciam. Depois da saudação, seguida de uma breve oração, começa a pregar. O homem mostra ser um bom pregador. Consegue transformar o lugar em igreja. “Nada é impossível para Deus. Confiem Nele e somente Nele. A doença que vocês carregam será curada. Lembram-se da mulher do fluxo de sangue?”, pergunta o pregador, referindo-se a uma figura bíblica que, depois de ter sofrido durante 12 anos com uma hemorragia, ficou curada após tocar nas vestes de Jesus Cristo.
A mensagem mexeu com Domingas Ngueve, de 18 anos, que não consegue amamentar o filho de um ano há dois meses, porque, em vez de leite, dos seios sai pus misturado com sangue.
A jovem não sabe se cuida da sua saúde ou a do filho  que, por ser portador de deficiência física, faz sessões regulares de massagem no Hospital Pediátrico David Bernardino.
O director-geral do Instituto Angolano de  Controlo do Cancro,  Fernando Miguel, informou que, entre os adultos, os cancros mais frequentes são os da mama, do colo do útero e da próstata e, em crianças, são os ligados aos olhos, rins e sangue.
O médico disse que o cancro é uma doença assintomática, por isso “a prevenção é a principal arma de combate”. Quando os sinais aparecem é porque a doença já atingiu níveis alarmantes, alerta o médico, que recomendou às mulheres acima dos 40 anos a fazerem uma vez por ano o exame de mamografia.
Fernando Miguel informou que cerca de 85 por cento dos doentes que se dirigem ao Instituto Angolano de Controlo do Cancro chega já em estado crítico, razão por que a instituição não consegue fazer muito por eles. O instituto tem uma média de um óbito por dia, revelou o médico
O Instituto Angolano de Controlo do Cancro controla 6.500 doentes, 1.300 dos quais diagnosticados no ano passado. O instituto dispõe de 35 médicos, 26 dos quais especialistas em diferentes áreas oncológicas, e tem capacidade instalada de 120 camas.No dia 21 de Março estavam internados 55 doentes, alguns dos quais já se en-contravam na fase terminal da doença.
Mesmo em tempo de crise, o Instituto de Controlo do Cancro garente os medicamentos  básicos para os doentes de cancro.

Reacção da direcção
Na conversa com o Jornal de Angola, o director-geral do Instituto Angolano de Controlo do Cancro, Fernando Miguel, disse não ser verdade que a instituição atende por dia apenas 20 doentes. De acordo com o gestor hospitalar, são atendidos diariamente entre 150 e 200 pessoas, entre doentes em consultas de seguimento e os que vão para fazer rastreio para detecção de alguma doença oncológica.
Quinta-feira é dia reservado à consulta multidisciplinar.  Embora a doença seja assintomática, há factores de risco que devem servir de alerta, como o aparecimento precoce da primeira menstruação, mamas densas, a concepção tardia, depois dos 40 anos, aparecimento tardio da menopausa e o histórico familiar.
“As mulheres que se encontram nessa condição devem frequentar mais vezes as consultas de rastreio para prevenir o cancro”, alertou o médico oncologista.
Em relação ao cancro do colo do útero, o especialista disse que um dos sinais que deve preocupar a mulher são as dores durante o acto sexual e o aparecimento frequente de secreções vaginais.
“A mulher com vida se-xual activa deve ir ao ginecologista pelo menos uma vez por ano”, acrescentou Fernando Miguel.
Um homem acima dos 40 anos deve ir uma vez por ano à consulta urológica para ver se não apresenta sinais de cancro da próstata.
Ao contrário do que se diz que a prática regular de sexo provoca cancro da próstata, Fernando Miguel declarou que isso não corresponde à verdade. “Não passa de um mito”, salientou.
O Instituto Angolano de Controlo do Cancro trabalha com as unidades hospitalares públicas para onde são transferidos doentes que não podem ser operados nas instalações do instituto. São encaminhados aos hospitais Américo Boavida, do Prenda, Josina Machel,  David Bernardino, Maternidade Lucrécia Paim e também a algumas clínicas privadas.
Os doentes que aguardam pelo tratamento à base de radioterapia não ficam sem assistência, porque continuam a fazer quimioterapia. A quimioterapia e a radioterapia são duas das três formas de tratamento das doenças oncológicas. A terceira é a cirurgia.
O médico confirmou que os doentes que acorrem ao instituto pela primeira vez só são atendidos se estiverem acompanhados de uma transferência passada por um hospital não especializado. Os doentes devem passar primeiro por um hospital de atendimento geral. “So-mos um hospital especializado”, explicou o gestor, que disse estar a instituição a atender mais doentes em sistema ambulatório.

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Destaque

Doentes no estrangeiro custam 4 milhões de euros

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O Governo angolano gasta anualmente mais de quatro milhões de euros para a evacuação e tratamento de doentes com diversas patologias no exterior do país, deu a conhecer, no município do Cuito, no Cuando Cubango, a ministra da Saúde.

Na sua deslocação ao Cuando Cubango, a ministra da Saúde visitou o centro Ortopédico onde se inteirou do seu funcionamento
Fotografia: Nicolau Vasco| Edições Novembro

Sílvia Paula Lutucuta, que falava sábado no final de uma visita de dois dias à província do Cuando Cubango, disse que a evacuação de doentes ao exterior do país tem um preço muito elevado para os cofres do Estado, além de criar constrangimentos ao Orçamento Geral de Estado (OGE).
Reconheceu que caso o país tivesse unidades hospitalares e especialistas à altura, os recursos financeiros gastos com a evacuação de doentes seriam canalizados para outros projectos essenciais para o bem-estar social da população.
“Por exemplo, a evacuação de um paciente para tratamento médico em ortopedia custa, em média, cerca de 15 mil euros em alguns países europeus, daí a necessidade de criamos condições a nível interno para se inverter o quadro que considero bastante preocupante”, precisou. Mas ainda assim, a ministra da Saúde está optimista quanto ao futuro, justificando que estão a ser implementadas novas medidas que passam pelo reforço de construção de mais hospitais devidamente apetrechados com equipamentos modernos e a admissão de quadros altamente qualificados.
Para se atingir tal propósito, disse que o Ministério da Saúde tem igualmente em carteira, desde 2018, a admissão de novos quadros e a capacitação contínua dos médicos e técnicos, com formação especializada, no âmbito da estratégia nacional, para que os mesmos estejam à altura da nova realidade que o país vive.
Sílvia Lutucuta realçou que, apesar da falta de técnicos especialistas ser um dos graves problemas que o sector enfrenta a nível nacional, é necessário que, a partir de agora, haja um maior esforço na formação e recrutamento de médicos especializados.
“Temos de ter médicos de medicina familiar, pediatras, ginecologistas e obstetrícia, saúde pública, medicina interna, anestesia, medicina dentária, oftalmologia, entre outras áreas que devem reforçar todos os hospitais provinciais e municipais, para se descentralizar os serviços de saúde”, defendeu.
A governante garantiu que o país terá especialistas necessários em todas as unidades sanitárias. Lembrou que o Executivo está a estudar alguns critérios de negociação para a criação de parcerias médicas com os países vizinhos, como a Namíbia, Zâmbia e África do Sul, bem como asiáticos, sobretudo a Índia, para que Angola possa, num futuro muito breve, reduzir consideravelmente a evacuação de doentes para o exterior.
Segundo a ministra, não é justo que os municípios limítrofes, como Cuvelai e Namacunde (província do Cunene), Calai, Cuangar, Dirico e Rivungo (Cuando Cubango) e outros que fazem fronteira com a Namíbia, Zâmbia e a República Democrática do Congo não tenham unidades hospitalares de referência, para prestarem uma melhor assistência médica e medicamentosa à população, de modo a evitar que esta procure estes serviços fora do país. No município do Cuíto Cuanavale, a ministra da Saúde constatou com desagrado as obras de construção do hospital municipal, iniciadas em 2006 e que já foram pagas a 97 por cento. A empreitada está apenas a 60 por cento de execução física e encontra-se abandonada há mais de seis anos.
Face ao incumprimento, Sílvia Lutucuta prometeu responsabilizar judicialmente os responsáveis da empresa a quem foi adjudicada a referida empreitada, para que possa concluir o trabalho, incluindo também o apetrechamento.
“A nível do nosso sector, estamos a trabalhar no sentido de responsabilizar judicialmente os empreiteiros, uma vez que este município histórico merece muito mais pelo facto de ser aqui onde se travaram as batalhas mais sangrentas da África Subsaariana e que mudou a história do nosso continente”, disse
Ainda no Cuíto Cuanavale a ministra da Saúde visitou o centro de saúde localizado na sede municipal que, diariamente, atende mais de 100 pacientes com diversas patologias.

Destacado empenho dos profissionais do sector da saúde

A ministra da Saúde, Sílvia Lutukuta, enalteceu ontem a competência, empenho, responsabilidade, dedicação e amor dos profissionais de saúde nos cuidados para com o doente.
Numa nota de imprensa a que a Angop teve acesso, em alusão ao Dia Mundial do Doente, assinalado, a ministra manifestou a sua solidariedade para com os que se ocupam dos cuidados e bem-estar dos cidadãos nas mais variadas tarefas das estruturas sanitárias espalhadas pelo país, bem como o seu apreço a todos os doentes.
Na mensagem, Sílvia Lutukuta agradece e encoraja, igualmente, todos que se ocupam do transporte e assistência aos doentes, aos que trabalham no campo da sensibilização e da prevenção de doenças, bem como aos que providenciam doações de sangue, um campo especial onde a presença expressa sinal de amor. “A data marca mais um exemplo da nossa determinação e vontade de vencer, enquanto ministério, devendo transportar para outros domínios essa força, a fim de construirmos uma Angola com menos doentes, mais saúde e vida melhor para todos”, lê-se no documento.

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