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Angola

Vítimas de alcoolismo aumentam em Angola

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Maria Rita já perdeu a conta de quantos gramas de álcool consome diariamente. Desde os 17 anos, tem na bebida alcoólica o maior “aliado” para suportar as peripécias da vida.

(Por Francisca Augusto)

No seu dia-a-dia, pode esquecer-se de quase tudo: casa, filhos e comida, mas nunca perde a direcção dos bares, mercados e das casas de bebidas tradicionais onde encontra consolo.

Com 30 anos de idade, Lixa, como é conhecida pelos mais chegados, assume ser viciada em álcool e, desde que conheceu esse mundo, só soma “derrotas” na vida.

A paixão pelo álcool, que parecia um agradável caminho, tornou-se um pesadelo. Hoje, sem sonhos e perspectivas de vida, a cidadã não consegue se libertar do vício.

Maria Rita tornou-se alcoólatra e “engrossou” o vasto leque de uma estatística que mata, todos os anos, mais de 3 milhões de pessoas no Mundo inteiro.

À semelhança de Lixa, centenas de mulheres conheceram, nos últimos anos, o vício do álcool em Angola, muitas quais na “flor da idade” e já com sinais de “destruição”.

O uso abusivo de álcool no país tem comprometido o futuro de jovens e adolescentes, em particular de mulheres, tornando-se um problema que requer a atenção do Estado.

A par dos homens, muitas mulheres padecem de alcoolismo em Angola, problema que já preocupa especialistas em saúde pública e sociólogos, que exigem soluções imediatas.

Maria Rita é um exemplo visível dessa realidade. Ela começou a consumir bebidas alcoólicas em casa, na província de Malanje, na companhia dos pais. Logo depois, passou a fazer o uso em festas e residências de amigos, com frequência.

Aos 18 anos de idade, foi acusada pelos pais de feitiçaria (por causa de algumas desgraças na família) e expulsa de casa. Desde então, passou a alternar sempre o local para descansar e comer (ora na tia, ora na avó).

Devido às dificuldades por que passava em Malanje, aos 20 anos resolveu mudar-se para a província de Luanda, com objectivo de ver melhorada a condição de vida.

Mas, na capital do país, não deixou o consumo em excesso e adquiriu o vício do alcoolismo, doença que aflige 46 milhões de mulheres no Mundo, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Dezembro de 2018.

Actualmente, a residente no bairro Kapalanga, município de Viana, não pode viver longe de bebidas alcoólicas. “Sinto-me mal se passar um dia sem ingerir”, conta.

Esta prática tem lhe causado vários problemas, desde desmaios, a ferimentos graves, em consequência das quedas e violações durante o estado de embriaguez.

Sem rumo e com seis filhos para criar (dois dos quais não conhecem os pais, por serem frutos de violação), Maria Rita lamenta o facto de ser alcoólatra e de perder o foco da vida.

Vive numa obra cedida por alguém de boa-fé, onde, em muitas ocasiões, não têm o que comer, juntamente com os filhos que ficam entregues à sua sorte.

Magra, com os olhos tristes e marcados de rugas, dentes amarelados, lábios rebentados, Maria Rita está bem mais velha do que a sua verdadeira idade devia demonstrar.

A cidadã conta que se refugia no kaporroto (bebida caseira) e whisky em pacotes, para esquecer os dilemas. Apesar de dominada pelo álcool, diz-se arrependida pela escolha de vida.

Como ela, centenas de homens e mulheres vivem esta triste realidade em Angola.

Riscos à saúde

A desestruturação familiar, pobreza, o analfabetismo e o desemprego fazem parte dos múltiplos problemas que levam as pessoas a enveredarem por neste mundo cruel.

O problema do alcoolismo não escolhe idade e, se mal dominada a apetência pelo álcool, os danos podem ser graves. A saúde pode ficar por um fio.

Dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em Dezembro de 2018, estimam que pelo menos 2,3 biliões de pessoas consomem bebidas alcoólicas, sendo que mais de 3 milhões morrem, todos os anos, por consumo excessivo.

A bebida alcoólica faz parte da rotina e do contexto sócio-cultural de vários povos. Ela é comum nas reuniões sociais, familiares ou mesmo em encontros de amigos.

Porém, em várias cidades, incluindo as de Angola, com mais de 26 milhões de habitantes, o consumo excessivo de álcool já se torna um problema de saúde pública e, há décadas, deixou de ser considerada “prática exclusiva” dos homens.

Apesar de os homens continuarem a ser quase duas vezes mais propensos a consumir álcool em excesso do que as mulheres, segundo um estudo do médico cancerologista e escritor brasileiro Drauzio Varella, a diferença hoje diminuiu.

Segundo o mesmo estudo, essa realidade não se aplica, especificamente, aos mais jovens. Ou seja, as mulheres nascidas entre 1991 e 2000 bebem tanto, quanto os homens da mesma geração. Em alguns casos, podem vir a superá-los.

Essa realidade é notória em Angola e, de tão preocupante, os especialistas levantam uma questão de fundo: como as autoridades do país vão reverter essa tendência?

Segundo Jaime Sampaio, médico psiquiatra angolano, a diferença entre homens e mulheres com problemas de foro alcoólico, em Angola, já deixou de ser abismal.

O uso desregrado de álcool por mulheres, diz, tem trazido consequências graves e aumentado o número de internamentos e assistência nos hospitais.

Dados do Hospital Psiquiátrico de Luanda apontam, por exemplo, que durante o segundo semestre de 2018, o banco de urgência daquela unidade hospitalar atendeu   890 pacientes do sexo feminino com problemas de foro alcoólico.

As faixas etárias dos pacientes que mais acorrem àquele hospital são 15 e 35 anos.

O problema do alcoolismo é visto por especialistas como uma questão que exige resolução imediata e medidas adequadas, dado o seu forte impacto social.

O álcool é uma droga que, se consumida em excesso, pode provocar inúmeros problemas de saúde física e psicológica, destruturando famílias, sonhos e vidas profissionais, sem escolher cor, raça e condição social das vítimas.

Segundo especialistas, considera-se consumo aceitável aquela que não é diária e não ultrapassa a quantidade de 20 gramas de álcool num único dia para mulheres e pessoas idosas ou 30 gramas de álcool por dia para os homens.

Com esse padrão de consumo, há poucas hipóteses de surgirem dependências, ou danos sérios a órgãos vitais, como o fígado, coração, pâncreas e o cérebro.

A esse respeito, o sociólogo angolano Martins Augusto refere que, nos últimos anos, a questão do alcoolismo tem sido cada vez mais estudada, tendo em conta o universo de consumidores e o facto de mais mulheres estarem a abusar desta prática.

“Deparo-me inúmeras vezes com mulheres alcoolizadas de diferentes faixas etárias”, indica Martins Augusto, para quem as mesmas, nestas circunstâncias, mesmo sem desenvolver dependência, estão mais expostas a acidentes e à violência.

Gravidez de risco

“Elas (mulheres) podem ter dificuldades de engravidar, enfarto do miocárdio, gastrite e hepatite alcoólica”, adverte o especialista.

Faz saber que o uso esporádico de quatro doses de álcool por ocasião (uma dose é equivalente a 350 ml de cerveja, 120 ml de vinho ou 40 ml de destilado e contém 10-14 gramas de álcool puro) já oferece grandes riscos às mulheres.

De acordo com a médica ginecologista obstetra Eurídice Chongololo, da Maternidade Lucrécia Paím, o número de mulheres que chegam àquela unidade hospitalar em estado de embriaguez tem aumentado, passando de um para três por cento por dia.

Adverte que qualquer consumo de droga durante a gestação, principalmente no primeiro trimestre, pode causar alguma alteração na formação do feto, provocando diferentes graus de lesões, abortos espontâneos ou mortalidade perinatal, uma vez que as substâncias atravessam as barreiras biológicas, como a placenta (vulnerabilidade fetal).

A especialista explica que as mulheres grávidas que chegam alcoolizadas têm maior probabilidade de nascer bebés embriagados ou de terem morte fetal.

Isso deve-se ao Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), uma doença grave decorrente da ingestão de álcool durante a gestação, totalmente sem cura.

“Não tem cura e pode causar danos irreversíveis à saúde da criança”, aponta a médica, que enumera outros danos, como alterações na face, malformação no coração, sistema muscular esquelético, dificuldades na aprendizagem, fala e memória.

Eurídice Chongololo esclarece que as crianças diagnosticadas com SAF necessitam de atendimento médico, psicológico e terapêutico, que se prolonga por toda a vida.

Adverte, por isso, que não há níveis seguros de ingestão de álcool durante a gravidez.

“O melhor mesmo é optar por tolerância zero às bebidas alcoólicas nesta fase”, alerta.

Remar recupera vítimas

O consumo excessivo de álcool tem levado muitas mulheres a buscar assistência em centros de recuperação, principalmente na província de Luanda.

A Remar é um dos mais famosos centros de reabilitação de toxicodependentes e de alcoólatras do país, localizada no município de Viana, província de Luanda. Anualmente, um universo de 700 pacientes é internado na instituição, entre homens e mulheres.

Segundo Macedo Luís, responsável da Remar, a média de consultas diárias é de quatro pessoas com problemas de álcool. A maior parte dos que procuram ajuda são homens, porque as mulheres são mais retraídas e alegam vários motivos para sustentar os vícios.

“O programa para a reabilitação é de 12 meses, mas nem todos conseguem chegar ao fim, porque interrompem, quer por iniciativa própria, quer por influência dos familiares que acabam por prejudicar por não respeitarem o tempo da instituição”, lamenta.

Isabel de Sousa, uma das responsáveis da ala feminina do centro, diz que por mês recebem mais de 12 mulheres e em cada ano são acompanhadas 120 a 150 mulheres, sendo que, deste número, só 25 por cento tem obtido sucesso.

Passados três a quatro meses de acompanhamento, são postas “na rua e liberadas para irem à escola, ao hospital e para ter contacto com as crianças”.

Infelizmente, e mesmo acompanhadas dos familiares, muitas voltam a cair no álcool, indica a responsável, explicando que, nesta fase, quando regressam à instituição, reinicia-se o tratamento, feito com base em conversa e abstinência.

Já o médico psiquiatra Jaime Sampaio ressalta, a esse respeito, que o consumo excessivo de álcool tem sido a fonte de muitos problemas nas famílias, como a falta de saúde, agressões, violência sexual dirigida a parceiros íntimos, miséria e desemprego.

“Passamos no Hospital Psiquiátrico de Luanda, todos os meses, mais de 30 juntas médicas para indivíduos que usam bebidas excessivas. Estes já não trabalham devido ao álcool. Um terço das juntas é para mulheres alcoólatras”, informa.

Por este facto, o médico apela ao Executivo para fortalecer os mecanismos de combate ao álcool, com realce para a educação dos efeitos nefastos do consumo desregrado dessa droga nas comunidades, nas escolas, igrejas e em entre outros locais públicos.

“Passar a mensagem que o uso excessivo de bebidas alcoólicas prejudica o organismo humano ou mata. Por exemplo, algumas bebidas, como o wisky de pacote, contêm mais de 40 graus de álcool e danificam rapidamente o fígado”, assevera.

Superação

Nesta luta pelo abandono do alcoolismo, apesar de muitos derrotados, há os que conseguem vencer. Solange Manuel, 40 anos, faz parte dessa lista.

Natural de Luanda, foi vítima de um atropelamento em consequência do consumo excessivo de bebidas alcoólicas, situação que a deixou sem a perna esquerda.

Desempregada, sem habilitações literárias, Solange, que vivia sob dependência dos familiares, vizinhos e amigos, começou a consumir bebida alcoólica aos 30 anos.

Mãe de quatro filhos, fez saber à reportagem da Angop que tentou, no começo, deixar de beber, mas não foi possível. O álcool já a dominava.

“Não conseguia passar mais de 12 horas, sem consumir”, diz, com tristeza no rosto, já que essa prática a deixou com uma marca indelével, sem um dos membros inferiores.

“Foi aos 35 anos, depois de uma bebedeira de quimbombo (bebida feita especialmente com farelo de milho, açúcar e fermento) em casa da vizinha, quando, a caminho de casa, sofri o acidente que me deixou deficiente”, sublinha, com lágrimas no rosto.

Internada durante três meses, no Hospital Américo Boavida, Solange passou, por força maior, por um período de abstinência alcoólica.

Naquela fase, “uma luz” surgiu na sua vida. Foi evangelizada, no hospital, deixou de beber e deu um outro rumo à vida. Hoje, exerce comércio e sustenta a família.

O entendimento das causas e consequências do consumo excessivo de álcool entre homens e mulheres é cada vez mais importante, para que se encontrem as soluções mais acertadas para mitigar o problema do alcoolismo.

A OMS recomenda que as Nações façam esforços para combater o consumo excessivo de álcool e evitar consequências para a saúde. Em Angola, multiplicam-se os apelos para a contenção no consumo. Mas, ainda assim, o índice de consumidores cresce.

Como o Estado vai travar a apetência dos jovens, adolescentes e adultos pelo álcool, sem aplicar medidas radicais? As soluções para o problema mostram-se imediatas. Mas quanto tempo mais levará para o país travar a onda de mulheres “perdidas” no álcool?

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Angola

BPC disponibiliza AKz 100 milhões para “crédito salário”

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Mais de 100 milhões de kwanzas é o valor que o Banco de Poupança e Credito (BPC) tem disponível no Moxico, para a concessão de crédito aos funcionários das instituições públicas e privadas de crédito, no âmbito do produto “BPC Salário”.

MOXICO: GERENTE COORDENADOR DO BPC, JOSÉ ASSIS

FOTO: KINDA KYUNGU

A informação foi avançada hoje, na cidade do Luena, pelo gerente coordenador do BPC no Moxico, José Assis. Explicou que quatro meses consecutivos são o tempo máximo de liquidez do referido crédito.

Ao falar à imprensa, após o encontro de esclarecimento realizado com o efectivo das Forças Armadas Angolanas (FAA), informou que o banco concede até 80 por cento de dois salários para serem pagos em quatro meses.

Sem avançar o número de clientes, que já beneficiou do pacote, apontou que o BPC tem rubricado vários protocolos com diversas instituições públicas e privadas desta província.

Referiu que a instituição vai continuar a esclarecer aos funcionários interessados em aderir ao BPC Salário protocolar, as modalidades de acesso.

No Moxico, o BPC conta com nove balcões e seis postos de atendimento.

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